Starlight Promises é um especial de pouco mais de uma hora que acredito que merecia ser produzido como um filme com uma duração maior e um produção melhor, além de uma discussão aprofundada dentro da própria trama sobre a mensagem que ela busca passar. Contudo, não é como se o especial não fosse interessante. Ele trata de assuntos importantes e é sobre eles que escreverei essa resenha.

Quando o Shouma não veio com um “Oi, sumido” eu logo vi que tinha alguma coisa errada…

Ainda que uma pessoa tenha partido de repente, e para nunca mais voltar, é preciso dizer adeus, ou quem ficou para trás só alimentará sentimentos ruins de frustração, tristeza, arrependimento, etc. É sobre isso que esse filme trata, dar um adeus decente a uma pessoa que se foi, mas o quão esse dito “adeus” pode ser considerado “verdadeiro” se ele utilizar da alta tecnologia? Sofisticada ao ponto de recriar imagens perfeitas de pessoas que não existem mais, e até de criar uma IA que realmente mal pode ser diferenciada de um ser real. Se deveria existir um limite entre o virtual e o real esse filme dá a impressão de que ela não deveria existir, ou poderá ser superado por meio da “mescla” de ambos.

Um pouquinho de vergonha juvenil não faz mal a ninguém!

Por ora, vou me ater a como a história se desenvolve e no final da resenha voltarei ao assunto. Tudo começa quanto o jovem Shoma recebe uma reposta de seu amigo de infância depois de mais de três anos sem que os dois tivessem contato. O amigo “ausente” convida Shoma para um festival em uma vila remota, e é lá que a trama se desenvolve, com o jovem conhecendo a simpática e gentil Shiori, e tento contato com uma tecnologia que faria inveja a qualquer adolescente da proclamada geração z.

Acho bastante interessante e válida a mescla entre a tecnologia e a tradição que o filme propôs ao ter como pano de fundo um festival tradicional japonês adaptado por ter um proposito diferente. É isso o que a Kanna faz nessa trama, ela gere um festejo humano criado muito antes do computador sequer existir. Até aí tudo bem – até ela usar hologramas a torto e a direito eu considero irrelevante –, o problema foi que toda essa tecnologia foi misturada demais a “parte humana” da trama. O uso do hyoe não é um problema porque já existem dispositivos que aprimoram as habilidades humanas, mas é diferente de “brincar” com a holografia e a realidade ao ponto de ser difícil distinguir as duas.

Fez mais sentido do que ela ser uma fantasma, né.

De lado a isso, há o desenvolvimento dos personagens e delimitar o número deles creio ter sido uma escolha sensata, porque assim ficou mais fácil de trabalhar os seus dramas. Com pouco tempo tentar se envolver emocionalmente com três, quatro ou cinco personagens seria praticamente impossível. É focando nos protagonistas que o enredo se torna fácil de assimilar, que dá para acolher seus dramas.

Shoma quer reencontrar o amigo com o qual perdeu contato e Shiori busca rever a irmã que morreu, mas acabou por salvar-lhe a vida. Dois ótimos motivos, é verdade, mas há um grande problema nisso tudo. A irmã da garota está morta e o amigo do garoto vivo, ou é nisso o que Shoma acredita, porque desde o princípio são dadas pistas de que o Atsushi tinha morrido e o Shoma bloqueava sua memória por não querer encarar a realidade. Então quando isso foi revelado já era previsto e deveria ser, pois só faria sentido se assim o fosse. Deram foreshadowing para praticamente tudo que foi mostrado ali.

Ela poderia ter dito o que estava na cara, mas respeitou o “tempo” dele.

É fugindo dessa triste realidade que Shouma passar a maior parte do filme sem perceber que a Shiori ter um objetivo especificamente diferente do dele apontava um choque entre o objetivo do festival e o seu próprio. Mas se, como a Kanna disse a Shiori, ele só poderia ser um Hikoboshi se a sua “ferida” fosse profunda, a negação veemente dele faz sentido. Ainda mais porque mesmo que ele tentasse se afastar, ele não conseguia. Tanto é que ele desistiu de ir embora para entender o que estava rolando.

É com a mistura entre o tradicional e o moderno que os preparativos para o festival vão sendo feitos e a amizade do Shoma e da Shiori vai crescendo, e não só por ele ter recebido o papel de Hikoboshi e ela de Orihime, mas porque ela o apoia ao longo da trama e ele faz o mesmo ao saber do infortúnio pelo qual ela passou. Uma interação saudável entre personagens de sexo opostos e que têm um peso praticamente igual dentro da trama. Quando é preciso lutar ou trabalhar a Shiori faz o mesmo que o Shoma e a cena em que ela aparece nua serve mais para mostrar a cicatriz que ela ganhou na cirurgia do que para promover fanservice. É verdade que ela era desnecessária – pouco depois ela mesma revela isso –, mas ter sido foreshadowing da história da personagem foi uma justificativa “aceitável”.

Diria que o Shoma é mais importante porque ele apareceu primeiro e reencontrar seu amigo foi tido como o mistério a ser resolvido em pouco mais de uma hora, mas no geral os personagens foram de relevância equivalente, e ambos apresentaram um pouco de carisma. Nada impressionante – ainda que ele parecesse um treinador Pokémon no começo e ela tenha demonstrado equilíbrio emocional até demais –, mas que considero ter sido o suficiente para fazer com que eles tivessem a simpatia do público. Infelizmente, foi só após começar o festival que eu passei a enxergar os problemas do filme.

Essas cenas de ação eram realmente necessárias? Hm…

Ainda que os “samurais fantasmas virtuais” tenham aparecido previamente, eles terem interrompido a cerimônia era realmente necessário? Ficou parecendo que foi apenas um momento de adversidade usado para simbolizar que uma tecnologia avançada sendo usada de forma tão ostensiva traria riscos gerados pelos seus próprios sistemas, além de ter sido o revés comum a um clímax de anime. Não via necessidade nisso. Além disso, todo o bug dos samurais violentos foi uma clara e livre interpretação dessa mesma tecnologia a história e as características das personalidades desses mesmos samurais. E se não bastasse isso, a sofisticação era tão grande que o sistema não conseguiu parar a si mesmo, precisando que a Kanna criasse “antivírus” e fizesse armas para que os protagonistas resolvessem a situação, uma situação cuja explicação para ocorrer até que foi plausível – apesar dela ter sido feita com um diálogo expositivo chatinho –, mas destoou do que estava sendo o filme até aquele instante.

Teve foreshadowing? Teve. Isso tornava aquilo necessário? Não, é tanto que mais confundiu do que esclareceu algo sobre a tecnologia, deixando para o final do anime a discussão de ser “verdadeira” ou não uma despedida usando essa tecnologia. Uma discussão que não foi feita em momento algum.

Os “espíritos dos mortos” nada mais eram que hologramas feitos por um “supercomputador”. Isso apaziguaria o coração de alguém que estava vivo e desejava reencontrar um ente querido falecido se a pessoa soubesse exatamente do que se tratava? Acredito que sim, mas também acredito que não.

Você tem que ter sido uma pessoa muito babaca pros seus dados não falarem isso…

Por isso mais tempo era necessário, para explorar esse questionamento, se não ao longo do filme, pelo menos em seu final. Tudo bem que todos ali – tirando o Shouma, mas até ele parece ter ficado bastante satisfeito com o holograma do amigo – sabiam do que se tratava, que não havia nada de sobrenatural nessa reunião – por mais que tenha aparentado o contrário em certos momentos –, e sim uma tecnologia que estava sendo usada para tentar ajudar as pessoas; mas isso não muda o fato de que isso poderia ter sido melhor discutido. Entretanto, eu posso até achar que foi um reencontro artificial, mas para eles foi bastante real e isso os ajudou de alguma forma, então não posso afirmar que aquele tipo de despedida não foi válida, só acho que deveria ter algo do “outro lado da moeda”.

Quando a piada já vem pronta o print é mais do que certo!

Acho que o trecho que justificou o bloqueio de memória tão severo que acometeu o protagonista foi fraco. Não que a morte do amigo por si só não tenha sido capaz de afetá-lo de forma tão “pungente”, mas faltou um elemento dramático mais forte ali como houve na história da Shiori – afinal, sua irmã morreu e foi por ela ter morrido que a Shiori pôde receber os órgãos dela e sobreviver –, ou devido a ter isso na história dela eu fiquei esperando algo a mais na dele. Entendo que para um garoto de uns 11/12 anos perder o amigo seja algo muito chocante e não desmereço esse acontecimento, mas não achei o problema do Shouma tão interessante, tão importante, quanto o da Shiori. Seus pais estavam sofrendo e ela também, mas isso não era culpa dela, o que ela podia fazer era seguir a vida e tentar ser feliz como a representação artificial da irmã bem disse. Para ela foi super válida a reunião e para o Shouma também, mas será que todos se sentiriam assim? Com mais tempo poderiam explorar isso.

No geral, o filme não foi ruim e passou uma mensagem muito relevante para as pessoas. “É preciso dizer adeus” por mais doloroso que seja fazer isso, e na falta de um local com tecnologia de ponta que permita o impossível, cabe a cada um de nós buscar formas de lidar com os nossos sentimentos.

A atitude dele foi tão inocente quanto gentil. Mas, sem sombra de dúvidas, muito bonita.

Quando eu comentei que esse especial merecia uma produção melhor foi porque a animação 2D é até boa, mas o CG deixa muito a desejar. Não foi ruim ao ponto de me fazer querer desviar o olho da tela, mas por ter formato de filme merecia mais atenção nesse ponto. De resto o filme tem uma boa trilha sonora e um bom elenco de vozes, além de boa movimentação em uma ou outra cena de luta em que se usa animação 2D mesclada ao CG. Não é um show visual em nenhum momento, mas não chega a ser demasiadamente pobre quanto a isso. Só achei uma pena não terem feito algo mais bem trabalhado com a história – com mais um ano de produção poderiam ter feito um filme bem melhor.

Achei bacana a sacada de usar o app de celular mostrado lá no comecinho do filme como a base para o que aconteceu no final dele. Foi mais uma das “evidências” de que a história foi até bem bolada e estruturada, mas senti que faltou reflexão sobre o poder da mensagem que tinham em mãos, em como passá-la de uma forma que conseguisse realmente equilibrar os dois “polos opostos” usados: o virtual e o real. No começo isso foi bem feito, depois foi desandando e acabou que questionar isso após assistir Yakusoku no Nanaya Matsuri – nome original da obra – é algo bastante compreensível.

Eu também tenho que saber a hora certa de me despedir, né? Espero que o filme tenha sido do seu agrado e que ele tenha provocado em você, caro(a) leitor(a), uma reflexão válida. Até outro artigo!

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