Bom dia!

Me sinto um pouco inadequado para escrever sobre esse impressionante episódio. Que o anime trata de preocupações de adolescentes à beira da vida adulta eu já saquei desde o começo, mas nesse episódio o tema pareceu ainda mais específico.

É sobre preocupações que garotas adolescentes passam, e que podem continuar durante parte ou toda suas vidas adultas. E daí que eu tentei, nesse artigo, descrever isso da forma que eu melhor entendo, mas ainda acho que uma garota ou uma mulher entenderia bem melhor do que eu.

Não sei também se as resoluções são as melhores possíveis, do ponto de vista de uma mensagem, de um exemplo para as garotas que estão assistindo. Mas o episódio em si foi potente, não foi?

Nana, Mia e Chloe já haviam passado por seus respectivos arcos de personagem, mas foram forçadas e reavaliar suas convicções nesse episódio. E isso não foi só para encher linguiça, não.

Da forma como é idealizado, o ritual de passagem para a vida adulta é um evento único, a partir do qual a pessoa muda irremediavelmente e para o resto de sua vida. A criança morre e renasce como adulta.

Da forma como é de verdade, é muito mais nebuloso do que isso. Sequer existe um evento. Existem vários. As dúvidas que são superadas podem retornar a qualquer momento, ou podem mesmo nunca ser respondidas. A convicção pode balançar e fraquejar.

 

As três garotas são presas em uma ilusão e são forçadas a escutar um discurso desmoralizante do clutter

 

O professor das garotas, transformado em clutter, desde o momento e dada forma em que as captura está lá para dar um choque de realidade nelas e envenená-las com verdades inconvenientes sobre o mundo para tentar enfraquecê-las.

Esperar a transformação das heroínas? Isso só acontece na fantasia! Aliás, heróis, ou mais especificamente, heroínas, sequer podem existir, diz ele para Mia. Ninguém pode transformar sua convicção na justiça em um poder e viver disso. Não é realista. Ela tem muito mais a ganhar apostando em sua feminilidade.

E a Nana? Sua rebeldia contra o casamento de sua mãe escondia, na verdade, o medo de que ela própria também fosse ter mais de um homem. Conforme ela crescia e os hormônios ajudavam a moldar seu corpo e sua personalidade, ela percebeu que ela realmente seria capaz disso. Que moral ela tinha, então, para culpar sua mãe por não querer viver sozinha após a morte do primeiro marido, seu pai?

Quem absolutamente não quer mais viver sozinha é a Chloe. Sim, ela gosta de ter momentos só para ela, mas isso é diferente de estar sempre sem ninguém. No entanto, a vida é complicada e é muito fácil acabarmos sozinhos. A chance dela se separar de suas amigas de colégio tão logo se formem é grande – isso acontece de verdade com a maioria das pessoas, afinal.

Mas elas não estão sozinhas. Nenhuma delas está sozinha agora, e é graças a isso que elas têm força para superar o feitiço peçonhento das palavras do professor-aranha.

No fundo, o que importa é a vontade delas. Ainda que seja mais fácil navegar o mundo sendo um rostinho bonito, Mia pode escolher viver pela força – o que quer que ela defina como força em um mundo no qual ela não precisa lutar fisicamente, pode ser força de caráter, por exemplo. A Nana não precisa ceder aos desejos, ela tem o poder de decidir se ela quer ou não ter esse ou aquele parceiros – e como ela aprendeu com o caso de sua mãe, não tem nada de errado em amar mais de uma vez. E a Chloe não vai ficar sozinha. Não está sozinha agora e não a deixarão ficar sozinha, a não ser que ela queira.

Essa certamente foi só a primeira vez na vida delas, após a decisão que tomaram, em que suas determinações foram testadas. E elas passaram com louvor.

 

Nana, Mia e Chloe derrotam o clutter que tentou derrotá-las quebrando seus espíritos

 

Enquanto isso, a missão da Yuu era encontrar Asuka. Não tendo a encontrado nos lugares esperados, ela perde a esperança e a confiança em si mesma. Será que conhece mesmo a Asuka tão bem quanto acredita conhecer? Sabemos que a Asuka não está no parque porque foi atraída para fora dele, mas a Yuu não sabe disso.

Nesse momento a Yuu de outro mundo faz seu retorno para ajudar sua doppelgänger, e entrega-lhe um dispositivo semelhante ao das demais garotas, que permite rastrear os clutters – a Asuka provavelmente está perto de um, afinal. Ess dispositivo usa um CD ao invés de fita cassete, suponho que cada mundo tenha desenvolvido sua tecnologia de forma separada, né?

Mas qual é, afinal, o grande conflito da Yuu, o que é que ela esconde no fundo de seu coração e que, ao fazer às pazes com isso, a permitirá crescer e ficar mais forte? Bem…

Ela ama a Asuka.

 

Yuu grita seus verdadeiros sentimentos por Asuka

 

Considerando o comportamento da outra Yuu durante todo o anime e o gestual da Yuu durante a declaração, bem como ela ter ficado com o rosto corado, suponho que seja amor romântico mesmo. Não é impossível que seja só amizade, o anime não cruzou explicitamente essa fronteira e faltando apenas um episódio duvido que o fará, mas é no que acredito.

E isso dá o que pensar sobre a Yuu de outro mundo, não é? Quantas Asukas será que ela já conheceu, além da sua? De quantas será que já teve que se despedir?

Será que ela conseguiu se declarar para a sua Asuka enquanto ainda era tempo?

 

Qual será o tamanho da dor da outra Yuu?

 

Enfim, agora só falta a Asuka, que nesse episódio foi confrontada por outra Asuka. A Asuka criança que é a Emissária do Crepúsculo.

O que a Asuka esconde dentro de seu coração, trancado a sete chaves? Acho que a Yuu já matou essa charada no episódio anterior: Asuka nunca superou de verdade a perda do Kyouhei. Ela se faz de forte. Tendo se acostumado a se fazer de forte, ela passou a fazer isso para tudo.

 

A dúvida paralisa Asuka por um instante

 

Ela leva uma vida temerária, sempre disposta a se sacrificar. Yuu joga isso na cara dela, a chamando de arrogante. Tenho certeza que a Asuka entendeu, mas a essa altura, nessa circunstância, o que ela pode fazer?

A Emissária Asuka afinal está exigindo justamente que ela se sacrifique para salvar o seu mundo. Ela é uma Asuka, e como todas as outras perdeu seu irmão há dez anos e nunca superou isso. Ter se tornado a Emissária do Crepúsculo foi a forma que ela escolheu para lidar com sua perda.

 

Outra Asuka se apresenta como Emissária do Crepúsculo

 

O ciclo de vida e morte, criação e destruição, luz e trevas, é um símbolo comum encontrado em várias religiões. É também uma forma de lidar com coisas inevitáveis, como a morte. Aceitar o Crepúsculo é como aceitar a morte. O Crepúsculo é, afinal, descrito como uma força fundamental da natureza, como parte de um ciclo.

Ao mesmo tempo, persiste o que a Yuu disse: está tudo bem sofrer, mas não se deve assumir o fardo dos outros. Quem morreu foi o Kyouhei, não a Asuka, ela não precisa metaforicamente morrer também. Mas essa foi a escolha daquela Asuka.

Abraçar as trevas é uma forma de lidar com o luto também. Uma forma degradante, doentia, mas é uma forma. É como se ela tivesse se suicidado – ou estivesse a caminho do suicídio. Só que ela está tão transtornada que não percebe isso.

 

A Emissária do Crepúsculo "sem emoções" se enfurece quando as garotas dizem que ela não é amiga delas

 

A Emissária Asuka realmente acredita que fez a melhor escolha possível, realmente acredita que abraçar o Crepúsculo a privou de todos os sentimentos, inclusive e principalmente os negativos. Ao longo do combate contra as garotas fica claro que não é o caso. Ela só se sente solitária. Provavelmente não teve uma Yuu com quem contar.

Asuka, a nossa Asuka, a protagonista Asuka, percebe isso no último instante, e então aceita o acordo proposto pela Emissária: ela irá acompanhá-la. Apesar do que ficará parecendo para as demais, ela não faz isso por sacrifício. Não dessa vez. Ela apenas percebeu a solidão da Emissária do Crepúsculo e não pôde ignorar. Ninguém conhece uma Asuka melhor do que a própria Asuka.

 

A Emissária do Crepúsculo suaviza sua expressão diante do sorriso da Asuka

 

  1. Avatar

    Nao via a hora de comentarem esse incrível episodio, seus comentarios foram perfeitos! Pena que semana que vem é o ultimo episodio. Obg por comentarem esse anime é o unico site que conheço que fala sobre ele.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá Matt, tá bonzinho?

      Muito obrigado! Eu estou gostando mais de Akanesasu do que achei que gostaria. Acho que mais pessoas assistiriam ele se tivesse o enredo um pouco melhor polido e a animação melhor – convenhamos, a animação desse anime deixa muito à desejar.

      Mas é um show sólido em suas ideias, interessante do começo ao fim e que está entregando um excelente final. Final, né? Que termina semana que vem, como bem disse. Não acho ruim que acabe não, ter um fim é um diferencial positivo do anime como mídia em comparação com o que se cria aqui no ocidente, em termos de cultura popular. Filmes viram séries, livros viram séries, até séries ganham continuações indefinidamente. Saber a hora de acabar é uma virtude.

      E o mundo continua. Talvez mais histórias possam ser contadas nele, com personagens diferentes? Eu assistiria.

      Obrigado pela visita e pelo comentário, volte mais vezes, inclusive para acompanhar nossos artigos sobre outros animes! 😃

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