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Que medo dos olhos vermelhos do Sukeroku na abertura desse episódio! Você é do tipo que pula aberturas? Eu não recomendo isso a ninguém, em nenhum anime, mas não quero aqui mudar seus costumes com um único artigo. Ao invés, apenas urjo para que faça um favor a si mesmo: assista a abertura do episódio anterior (que é a abertura normal do anime, já tendo aparecido antes no segundo episódio) e depois assista a desse episódio. Já assistiu? Então assumo que a partir daqui você esteja pronto para se apavorar com os brilhantes e demoníacos olhos vermelhos do Sukeroku na abertura desse quinto episódio! Esses olhos totalmente são premonição de algo, e algo nada bom!

Mas não algo imprevisível, não é? De fato, eu falei bastante sobre isso no artigo do episódio anterior, sobre como o Yakumo está bastante velho, enfraquecido física e mentalmente, sobre como ele já fez tudo o que ele tinha para fazer em vida e sobre como dramaticamente isso seria um fato triste, mas perfeito no enredo de Rakugo Shinjuu. É impossível não olhar para os olhos vermelhos do Sukeroku na abertura desse quinto episódio. Eles meio que atraem quem mira a vista neles, não é?

Esses são os olhos de Sukeroku na abertura normal

Eu disse e repito: o Yakumo já fez tudo o que tinha que fazer. Ele carregou o rakugo nas costas praticamente sozinho por décadas, e finalmente encontrou alguém capaz de continuar seu trabalho e realizar a promessa que ele fez com Sukeroku. Ele criou a Konatsu até ela se tornar uma bela mulher, mãe de um lindo garoto, casada com um bom marido e que está dando os primeiros passos em uma profissão que sempre sonhou. Mas será que ele já pode morrer mesmo?

Essa imagem não encaixa em parte alguma do artigo, mas quis colocá-la aqui porque é muito bonita e simbólica

É verdade que o Yotaro ainda está procurando seu próprio estilo e ele ainda incomoda um pouco seu mestre, como quando se mete com escritores que pretendem criar um “novo rakugo” (atentado à tradição!) ou quando se recusa a interpretar uma peça da forma como ele manda (está sugerindo que o que ele ensinou, o que ele aprendeu para poder ensinar, está errado?). Mas o pupilo já é um profissional de sucesso, é mais do que capaz de encontrar o caminho certo por sua própria conta. Yakumo não precisa mais se preocupar com Yotaro, e o Yotaro não precisa mais ficar tanto tempo sob as asas do mestre treinando ou estudando. Yakumo está mais sozinho. Também não há mais porque se preocupar com a Konatsu. Ela não se mete mais com yakuzas, não corre mais risco de seguir os passos da mãe e tem sido bastante responsável ultimamente, cuidando do filho, do marido, e tocando o shamisen. Yakumo pode confiar e depender dela. A Konatsu sequer ameaça matá-lo com a frequência de antes. E tendo que embalar o sono do próprio filho, acredito que não esteja mais tendo tantos pesadelos em seus próprios sonhos dos quais Yakumo precise salvá-la. Yakumo está mais sozinho.

Esse talvez seja o destino de todo idoso, ou o destino médio, da maioria deles: depois de fazer tudo o que tinha para fazer, ninguém mais precisa de você. E aí, junto com a sensação de missão cumprida, vem a solidão. Com a solidão vem os pensamentos ociosos e com eles vêm as mágoas e arrependimentos de uma vida inteira. Some isso a um corpo cada vez mais frágil, que não o obedece mais como antigamente, e é compreensível quando o desejo de viver começa a se esvair. O de Yakumo já o abandonou faz tempo, escorreu pelos seus dedos hoje frágeis e trêmulos como um dia Sukeroku escorregou por eles.

Os olhos vermelhos de Sukeroku e a grande atração pela qual Yotaro ansiava há tanto tempo. Yakumo iria se apresentar mais uma vez em frente a um enorme público, e junto com seu pupilo. Por que ele aceitou realizar a apresentação, em primeiro lugar, ainda mais considerando que ele já nem liga para essas coisas e francamente está cansado delas, como ele mesmo disse quando Yotaro a sugeriu pela primeira vez? Ora, porque “não é todo dia que surge uma oportunidade dessas”. Não é mesmo! Não para um jovem ou mesmo um adulto qualquer, ansiosos. Mas para alguém que já viveu tanto, que passou por tudo que ele passou, que é considerado o maior artista vivo de seu ofício? Esse é o tipo de urgência que não combina com alguém na posição do Yakumo. A não ser que se coloque em conta que ele próprio considera seu fim cada vez mais próximo – então, e só então, a urgência que “não é todo dia que surge uma oportunidade dessas” sugere faz sentido.

Terá Yakumo algo de que queira pedir perdão à Sukeroku?

Ele vê Miyokichi e vê Sukeroku. Não quero acreditar em acontecimentos sobrenaturais porque até agora o anime foi bastante realista e não dependeu desse tipo de elemento, então só posso crer que aquilo tenha sido alucinação do Yakumo. Posso estar errado, mas quero interpretar dessa forma, prefiro interpretar dessa forma. Ele ter enxergado Miyokichi em Konatsu apoia o meu ponto de vista, creio. E é fascinante pensar que o que Yakumo viu foi produto de sua própria mente porque isso diz muito sobre ele. Então Yakumo não pensou apenas em Sukeroku todos esses anos, mas em Miyokichi também? Vá lá, faz sentido. Mas de que forma ele pensa, de que forma ele pensava em Miyokichi? Me lembro que na primeira temporada nunca foi possível dizer se ele a amava ou não. Não era possível sequer dizer se ele teve relações sexuais com ela ou não! Eu aposto que sim. Eu queria acreditar que sim. Ainda quero, e acho que esse episódio revela que ele tinha sim sentimentos românticos pela mãe de Konatsu. Não vou relembrar as pistas da primeira temporada que já um ano atrás me faziam acreditar nisso, mas o fato é que as alucinações desse episódio não são as primeiras pistas de que ele ama ou amou Miyokichi.

Por que Yakumo viu Miyokichi quando durante a peça o personagem que interpreta nada sutilmente via o espírito da esposa falecida que ele tanto amou?

O que esse episódio traz é uma nova implicação disso. É claro que Yakumo sempre se sentiu culpado pela morte de Sukeroku. É claro que ele sente que perdeu ali seu melhor amigo, seu irmão e confidente. Mas os olhos vermelhos, aqueles olhos vermelhos. Eles e a cena no velário na qual a posição dele em relação a Sukeroku é de súplica. E na qual ele pergunta por … Miyokichi. Ele se considera amaldiçoado por ela, como ela prometeu que faria? Talvez. Mas provavelmente considera-se merecedor de qualquer maldição que venha da Miyokichi – e do Sukeroku. Ele sabe que o Sukeroku sempre amou-a também, e mesmo assim foi por ele que ela se apaixonou, e ele ficou com ela por décadas. Apenas para, no final, rejeitá-la. Ele não queria ser o sucessor do antigo Yakumo, embora gostasse do rakugo, ele não queria o amor de Miyokichi, embora a amasse. Ele achava que Sukeroku merecia tudo isso. Mas várias coisas aconteceram e os dois morreram. E Yakumo carrega essa culpa desde então.

E aí, será que ele morreu? O choro copioso de Yotaro e a ausência de Yakumo na prévia do próximo episódio podem indicar que sim. Mas não posso evitar a sensação de que a cena dele com Sukeroku ainda está incompleta. Fora isso, me parece meio anti-climático ele morrer antes da metade do anime de qualquer jeito. Mas não é como se a história (ou o rakugo) fosse acabar por causa da morte dele. Ele já fez tudo o que tinha que fazer em vida, mas isso não significa que aqueles que ficarem caso ele morra estejam prontos para viver a vida em um mundo onde Yakumo não existe mais. E isso também daria uma história fascinante.

  1. Este episódio, meu Deus este episódio, eu quando o acabei de ver, fiquei sem saber o que pensar, mesmo já sabendo que a qualquer altura o Yakumo, podia ir desta para melhor. Começando pela opening, como não reparar naqueles olhos vermelhos sangue do Sukerou, foi a primeira coisa que reparei na opening, aquela cor vermelha sangue destacou-se muito na opening. Com este aviso que a opening deu ao espectador, eu já sabia que ia acontecer alguma ao velho Yakumo, mas ainda tinha esperança que ele aguenta-se até pelo menos metade do anime. Como tu bem referiste neste artigo e no artigo anterior de Showa, o Yakumo, já viveu o que tinha para viver, cumpriu a sua promessa que tinha feito com o seu irmão Sukerou, criou a Konatsu com todo o cuidado e ainda arranjou o Yotarou para prosseguir com o Rakugo. Desde aquela cena do final do episódio 4, onde o Yakumo sozinho olha para o leque que o Sukerou lhe tinha dado, eu ai já tinha o pressentimento que o Yakumo já sabia que o seu fim estava próximo. Eu acho que o Yakumo aceitou fazer o espectáculo em família para fazer a vontade ao Yotaro, ele sabia que a sua saúde e condição física já não eram as melhores, dai a urgência dele, que o Yotaro se prepara-se bem. Quanto à peça de família, como eu fiquei feliz, quando o Yakumo aparece atrás da Konatsu e lhe pede para esta acender o incenso durante a encenação dele, aquele riso dele para ela, foi muito bonito (se bem que senti um toque de despedida ali, pode ter sido só impressão minha).
    Digam o que disserem, o Yakumo é o mestre supremo na arte do Rakugo, mesmo nunca tendo inovado o mesmo. Esta semana esteve cheia, de ironias do destino e este episódio de Showa não foi excepção. Quando o Yakumo teve o ataque, ele estava a encenar uma peça sobre espíritos, a aparição da Miyokichi no fumo do incenso, não foi por mero acaso. Eu acredito sim que o Yakumo amava mesmo a Miyokichi (e acredito piamente, que eles em certo ponto, tiveram relações sexuais, os homens quando iam ao distrito vermelho, não iam só beber chá e sakê), o maior mal do Yakumo, foi o facto de ele prezar mais a felicidade do seu irmão Sukerou do que a sua própria felicidade. O Yakumo abdicou do seu grande amor em prol do seu irmão Sukerou, ele fechou o seu coração, pensando que estava a agir bem, ele nunca pensou que as coisas entre os três fossem acabar de forma trágica e acredito que foi esta situação que atormentou a vida do Yakumo. Quando o Yakumo teve o ataque durante a peça foi muito triste, a pobre Konatsu e o Yotaro perceberam que alguma coisa de errado se passava com o Yakumo, mas não ousaram invadir o palco no quiçá último momento de glória do Yakumo (e o velho ainda se aguentou até acabar a sua apresentação, algo digno de um velho teimoso). Doeu ver o Yakumo em estado de demência, principalmente quando ele vê a Myiokichi na Konatsu e a chama de minha amada, ele estava a ter alucinações, pois não acredito que um anime tão pé no chão como Showa fosse partir para o sobrenatural. Aquela cena, em que o Yakumo acorda num corredor cheio de vela e vê o seu irmão Sukerou,não é um bom presságio, aquilo não era o céu nem o inferno, aquilo era o purgatório, onde o Yakumo deverá pensar sobre os seus pecados. Ouvir a voz do Sukerou até me deu arrepios, será que vai ser ele que vai assombrar a morte do Yakumo, a Myiokichi assombrou o Yakumo quando este era vivo, agora na morte o Sukerou vai assombrar o Yakumo.
    Eu não quero acreditar que o Yakumo possa ter morrido, mas aquela preview, não é nada animadora, pela cara do Yotaro e a cara da Konatsu,não se pode esperar nada de bom. Já para não falar no sitio onde o Yotaro, a Konatsu e o pequeno Shin, aparecem no preview, aquilo parece ser um crematório.
    Como sempre mais um excelente artigo, de Showa Fábio.

    • Fábio
      Fábio "Mexicano" Godoy

      Não tinha reparado nessa do crematório e … pode ser mesmo! Que horror. Está cedo para você partir, Yakumo!

      Se bem que para alguém que viveu do rakugo e para o rakugo, alguém que perdeu tudo, exceto o rakugo, morrer no palco de uma grande apresentação é como a morte heroica de um grande guerreiro em sua última investida após uma longa vida de vitórias no campo de batalha. O última vez que a cortina se fechou para o Yakumo foi como a flecha certeira depois da qual nem o mais poderoso general consegue continuar vivo – mas ele aguentou até o final! Fosse mesmo um guerreiro, teria morrido de pé. Como um contador de história, se esse tiver sido mesmo seu último momento, partiu sentado no palco.

      Mas realmente me preocupo se o Yotaro vai conseguir continuar sem seu mestre, se aquela família vai conseguir manter a coesão sem o velho rabugento a quem tudo sempre foi permitido. Isso pode atrasar em muito os planos do Yotaro e colocar em risco o mundo do rakugo.

      Que hora para morrer, Yakumo! Sempre fez o que achou certo para os outros mas sem se preocupar em perguntar a eles se é o que realmente querem – na verdade, sempre desprezou o que os outros pensam ser o melhor. Ser egoísta até na hora da morte não poderia ser mais adequado.

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

      • Aquilo que mais me abalou no episódio 5 de Showa, foi a ironia do destino a interferir nele. Não podia concordar mais contigo, em relação à sua última apresentação como mestre contador de histórias. Ele mesmo a sofrer, concluiu a sua apresentação, afinal, ele perdeu tudo, menos o Rakugo, por isso eu acho que ele se sentiu na obrigação de continuar até ao final (ver a cara de preocupação da Konatsu, quando viu que o Yakumo se sentiu mal, foi muito triste, logo agora que a relação dos dois estava melhor).
        O egoísmo do Yakumo não conhecia limites, mas ninguém jamais poderá dizer, que ele não contribui para manter a tradição do rakugo viva e que ele não se preocupava com a família, ele criou no melhor que soube a Konatsu e mais tarde acolheu o Yotaro, com quem na fase final tinha quase um carinho de pai e filho.
        Esqueci-me de mencionar no meu comentário anterior, mas aquela cena onde o Yotaro, mostra para o seu mestre,o porquê de nos últimos tempo ter passado tanto tempo, no distrito vermelho, foi uma cena bonita, a tatuagem do Yotaro é linda e as palavras que o Yakumo lhe disse também.
        A ending desta segunda temporada é linda, mesmo só sendo uma ending instrumental, já para não falar que está muito bem animada se comparada à ending da primeira temporada que eram só quadros estáticos.

      • Fábio
        Fábio "Mexicano" Godoy

        Enquanto eu escrevia sobre como o Yakumo perdeu tudo, tendo lhe restado apenas o rakugo, percebi algo muito relevante:

        Se nada resta ao Yakumo além do rakugo, a única forma dele ser, dele existir, é através do rakugo. Por isso ele valoriza tanto o ego e esse foi o motivo de sua última pequena discussão com Yotaro. Esse, por sua vez, tem tudo: está na profissão que escolhe, não na que foi forçado a seguir, está fazendo sucesso, tem uma família feliz. Ele não precisa desesperadamente se expressar através do rakugo. Para ele é só diversão mesmo, e ele pode se dedicar a se adaptar da melhor forma possível à plateia.

      • Agora pensando no teu raciocínio, tens toda a razão. O Yakumo e o Yotaro são dois pólos opostos, só o Rakugo é que os atrai. Eu gostava que o Yakumo durasse mais uns episódios, gostava de ver aquele lado mais tolerante dele, aquela cena do preview, onde o Yotaro,a Konatsu e o Shin estão de mãos dadas e o Yotaro começa a chorar, não sei bem, além de que o cenário atrás deles, fez-me lembrar muito quando o mestre do Bon tinha morrido.

  2. Esqueci de referir a mais importante ironia deste episódio, o Yakumo sentiu-se mal, vestido com o set do Shinigami, que ele costumava usar, quando contava o conto do Shingami, o estúdio está de parabéns por tal toque de macabro ao anime. Já não bastava o Sukerou com olhos demoníacos, quando mais esta da vestimenta do Yakumo.

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