Eai, galera. Mais de Mahou Tsukai? Então vamos nessa, mas como de praxe: emoções e expectativas se delineiam em torno dessa obra. A passos largos, ela vai emendando  suas intenções e construindo objetivos, perspectivas e uma personagem muito complexa. Tudo isso com muita simbologia reflexiva e cotidianamente muito bem distribuída. Nesse episódio em especial: laços, família, amor, alguma loucura e explicações sobre a função narrativa dos personagens em uma obra.

Cabe aqui uma explicação, ou pelo menos uma elucidação maior, sobre algo de grande importância para qualquer interpretação. Aprendi isso no meu ano de vestibular e essa sistematização naturalmente atrapalha pouco – ou nada –o desempenho da gente. O cerne da questão está na frase: “Personagens têm sentido quando veiculam temas”. A uma primeira olhadela essa frase deve fazer algum sentido pra vocês, um sentido no mínimo semântico, já que está escrita em português, com ordem e grafia corretas. Mas, para além dessas circunstâncias, temos que refletir um pouco.

Primeiro temos a ideia de personagem: ser ou ente que se apresenta nas narrativas como dotado de ações e movido por interesses. Mas o mais interessante desse âmbito reside no fato que rege a possível qualidade deles: o sentido. Ou seja, quando personagens “têm sentido” (não do verbo sentir, mas da locução ter plausibilidade), eles estão atrelados aos famosos temas. E o que seria isso? Nada mais nada menos do que valores (inerentes ou adquiridos – a depender de suas concepções filosóficas e religiosas) que permeiam a vida humana e suas relações.

Diante de tudo isso, tem-se que: um personagem é pedaço fictício de uma realidade possível na medida em que ele discute, levanta, aprofunda, argumenta sobre valores discutíveis, levantáveis, aprofundáveis e argumentáveis pelos seres humanos. Mas e onde entra Mahou tsukai no Yome nisso tudo? Ora, mas é em tudo! A partir do exato momento em que seus personagens trabalham temas (leia-se: valores humanos) com tamanha plausibilidade e cadência, eles se tornam um dos exemplos mais vívidos de obra com (a chamada) função narrativa, muito vívida na literatura de boa qualidade.

Bem, a divagação não para por aqui (então, espero realmente que você esteja minimamente afeito a minha forma de escrita e ao conteúdo). A partir de tudo isso, você seria capaz de entender por que uma obra é tida como clássica? Nem mesmo com todos os nomes de músicos e escritores que invadiram sua mente depois dessa pergunta e continuará assim por algum tempo (talvez até você descobrir a resposta)? A palavra chave para isso é: universalidade. Esses autores se tornaram clássicos ao lidar com problemas universais da convivência e da existência humana e por isso sobreviveram ao tempo e ao espaço de produção e são passíveis de contínuas ressignificações ao longo dos séculos.

No caso de Mahou Tsukai – guardadas as devidas proporções – sua forma extremamente sensível de lidar com a dicotomia (ou dialética para alguns) entre vida e morte; ao trabalhar tão exaustivamente, sem perder a criatividade os conceitos de inocência, indiferença e família, avança fortemente rumo a essa “universalização” de que eu falava. No fim, se você estava com preguiça de ler o resto e deu a sorte de para exatamente em uma linha aleatória torcendo por algum resumo milagroso do que eu disse em poucas palavras, achou: trabalhar valores humanos, através de seus personagens, é o dever funcional de qualquer narrativa, mas Mahou Tsukai vai muito mais além e merece distinção ímpar ao elencar e desenvolver tão complexamente (e em tão pouco tempo) os temas citados. Ou seja, continua a me agradar enormemente esse anime.

Conclusões da vida

A despeito de toda a capacidade do autor em explorar enfoques diversificados e relevantes acerca desses valores, a questão de oponentes tem sido bem pouco desenvolvida nesses episódios (aquela aberração obscura e gelatinosa que pulsa e foi o motivo da visita ao país dos gatos é claramente uma artifício para aprofundar a relação do casal e não constitui, por si só, um conflito externo característico cuja ausência eu alego a seguir). Não foi apresentada uma base mais concreta que sustente alguma instabilidade que assegure a presença de ameaça ou conflito externo ao escopo de personagens já apresentados. O que por um lado é bom, uma vez que reserva aos episódios iniciais sua função principal: desenvolver as bases da narrativa. Mas é igualmente ruim, por outro lado, já que nos retira a possibilidade de sentir perigo ou aversão (pelo inimigo) o que deixa de criar empatia mais facilmente e, afinal de contas, já estamos quase na metade da temporada (e ainda com três OVAs na bagagem) então creio que esses conflitos exteriores se delinearão mais enfaticamente em breve. Na forma de feiticeiros, talvez…?

Achei que fosse uma mulher

Como estratégia narrativa para afunilar a relação entre Chise e Elias, o autor passa daqueles antagonistas de enfeite e ingressa (na verdade, continua) na visão do passado da vila. Sempre com a ideia de personagens e temas em mente (espero que você leve essa informação toda vez que estiver fazendo alguma interpretação; além disso, estamos na semana do ENEM, vai que isso te ajuda no segundo dia… nunca saberei), o conceito de casal é posto a prova. E, mais importante, como um casal debilitado pelas condições da vida busca superação e enfrenta as adversidades vindas do alheio (personificado num feiticeiro muito sádico).

Esperança e temor sempre foram dois lados da mesma moeda

Envolto em algum simbolismo, mas sem perder as rédeas da função narrativa, o flash back que se desenrola nos permite ver como o primeiro rei gato chegou “ao poder” e como aquela substância amorfa e pulsante foi destilada. Além disso, trabalhou em cima de temas como amor, confiança, loucura e ódio… tudo resultante na mesma massa negra. Dessa forma, infere-se que essa “criatura”, digamos assim, reúne nada mais nada menos do que um ser humano em potencial. Traz dentro de si tudo que os outros seres dispõem, mas basta um desequilíbrio oportunamente colocado (ou um equilíbrio sagazmente retirado) para que o caos se instale. Nesse ápice, caminho para o fim do episódio com a sensação de dever cumprido no peito. A relação entre os dois foi consolidada e mais (muito mais importante), Chise se importa pela primeira vez com sua própria vida, uma vez que ao reconhecer seu porto seguro na figura de Elias, esboça apreensão ao pensar em quando morrerá: quando será? Que falta fará? Que terá feito até lá…?

Missão cumprida

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