Bom dia!

Um anime é uma obra de arte complexa, produzida por muita gente. Não é que seja impossível uma única pessoa realizar todo o processo de produção sozinha e entregar o produto final, mas sim que isso seria inviável em escala comercial.

O Japão produz centenas de animes por ano. São… não sei, dezenas ou centenas de milhares de horas de animação. É preciso muita mão de obra para isso, e o profissional mais necessário acima de tudo é o animador.

Assim sendo, é apenas natural que o próprio governo japonês esteja interessado em ajudar a formar essa mão de obra, e um projeto lustroso nesse sentido foi criado com o nome de Projeto de Treinamento de Novos Animadores (Wakate Animeta Ikusei Purojekuto) em 2010, que seria renomeado para Anime Mirai em 2011, nome pelo qual ainda é mais conhecido, e finalmente para Anime Tamago em 2016.

O que é esse projeto? Por que ele existe? Ele cumpre seu objetivo?

Capa: Kumi to Tulip, Tezuka Productions, 2015.

Antes de tudo, o que faz um animador?

Não sou animador nem conheço o processo de animação de perto, mas espero conseguir dar uma descrição concisa sobre o trabalho desenvolvido.

A animação tradicional consiste de quadros estáticos (desenhos) em sequência, com diferenças sutis entre um quadro e o seguinte, projetados em alta velocidade de modo que tenhamos a noção de movimento.

Existem dois tipos de quadros: os quadros chave e os intermediários. Os quadros chave são os mais importantes, compondo os momentos mais importantes da movimentação dos personagens e objetos na cena. Os quadros intermediários são os que ligam um quadro chave ao próximo, suavizando a animação.

Se quadros chave são os mais importantes, os animadores que os produzem também são. São animadores melhores, mais experientes, que estão há mais tempo na carreira. Quadros intermediários, por sua vez, são desenhados por animadores novatos. Em muitos estúdios japoneses os intermediários (in-between) são terceirizados para outros estúdios, para reduzir custos.

E com frequência cada vez maior conforme a produção de animes cresceu, passaram a ser também terceirizados para estúdios em outros países asiáticos, como a Coreia do Sul, a China, o Vietnã ou até mesmo a Índia. E aí a indústria passa a ter um problema.

Se os animadores de quadro chave são experientes, é porque um dia já foram novatos desenhando quadros intermediários. Com a terceirização para outros países crescendo, coloca-se em risco a formação de animadores japoneses e toda a cadeia de produção de um anime nos estúdios (muitos diretores começaram como animadores, sendo essa uma evolução de carreira “natural”).

 

Wasurenagumo, Production I.G., 2012

Wasurenagumo, Production I.G., 2012

 

Claro que há outros problemas graves, mormente os baixos salários pagos exatamente para os animadores. O problema já é antigo mas segue sem solução à vista. Há até projetos paliativos, como uma ONG que criou albergues para animadores novatos em Tóquio, uma cidade caríssima de se morar. Mas esse artigo é apenas sobre o Anime Tamago.

O Projeto de Treinamento de Novos Animadores foi criado pela JAniCA (Associação de Criadores de Animação Japonesa), uma organização fundada em 2007 por animadores japoneses, e contou desde o começo com o financiamento do governo japonês, através da Agência de Assuntos Culturais do Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão.

Os estúdios interessados em participar apresentam seus projetos para avaliação e quatro são selecionados por ano. Cada estúdio recebe 38 milhões de ienes para produzir um curta de mais ou menos 24 minutos, na produção do qual os animadores experientes do estúdio irão treinar os novatos.

Para ter uma noção do que significa esse valor, o custo médio estimado de um episódio de anime para TV (que possuem duração similar aos curtas financiados pelo Anime Tamago) é cerca de 11 milhões de ienes. Ou seja: o projeto paga cerca de 3 vezes e meia o custo de uma animação equivalente. Parece bom ou não parece?

Em 2016 o projeto mudou de mãos, saindo da JAniCA e indo para a AJA (Associação Japonesa de Animação), a organização que congrega os estúdios de animação. Essencialmente, deixou de ser organizada pelos próprios trabalhadores, os animadores, para ser organizada pela indústria. A parceria com o governo japonês continuou, embora eu não tenha conseguido verificar se o valor repassado tenha continuado o mesmo.

Mais de 20 estúdios já produziram curtas para o Anime Tamago ou seu antecessor, o Anime Mirai, alguns poucos tendo sido escolhidos mais de uma vez, como o Production I.G., que apresentou curtas nas duas primeiras edições (2011 e 2012), e o Studio 4ºC, que participou em três (2014, 2016 e 2017).

Como o objetivo do projeto é treinar animadores não se deve esperar muito capricho de qualquer outro quesito dos curtas desenvolvidos, como roteiro, som ou dublagem, mas mesmo assim alguns deles entregam experiências completas, como Ojiisan no Lamp, resenhado aqui no Anime21 pelo Muragami.

 

Little Witch Academia, Trigger, 2013

Little Witch Academia, Trigger, 2013

 

Três curtas do Anime Tamago já deram luz à projetos de anime para TV: Death Billiards e Little Witch Academia, da edição de 2013, e Ongaku Shoujo, de 2015. Death Billiards daria luz à Death Parade, enquanto os outros dois mantiveram seus nomes, com Little Witch Academia se tornando uma franquia particularmente exitosa.

É uma pena que seja difícil encontrar para assistir essas pequenas gemas da animação japonesa, algumas muito brilhantes e outras nem tanto, mas se conseguir, por todos os meios, aproveite a chance. As mais recentes são consideravelmente mais difíceis. Abaixo, listagem dos curtas por ano:

 

2011: Bannou Yasai Ninninman, Kizuna Ichigeki,  Ojiisan no LampTansu Warashi.

2012: ButaPuka Puka JujuShiranpuriWasurenagumo.

2013: Arve Rezzle: Kikaijikake no Yousei-tachi, Death BilliardsLittle Witch AcademiaRyo.

2014: Kuro no Sumika -Chronus-HarmonieParol no MiraijimaOokii 1 Nensei to Chiisana 2 Nensei.

2015: Aki no KanadeHappy ComeCome, Kumi to TulipOngaku Shoujo.

Até aqui o projeto era chamado de Anime Mirai e comandado pela JAniCA. A partir de 2016 passa para o comando da AJA e assume o nome atual, Anime Tamago.

2016: Colorful Ninja IromakiKacchikenee!Kaze no MatasaburouUtopa.

2017: Charanpo Land no BoukenGenbanojouRed Ash: GearworldZunda Horizon.

Red Ash é o primeiro curta com animação 3DCG do projeto, e Zunda Horizon é um musical com a parte vocal toda produzida com o software Vocaloid. Zunda também foi o primeiro curta produzido em parceria por mais de um estúdio.

2018: EngimonMidnight Crazy TrailTime Driver: Bokura ga Kaita MiraiTwelve Busters.

Os curtas do Anime Tamago 2019 foram projetados em uma sessão de cinema em Tóquio em março. Hoje, dia 24 de junho, começam a ser transmitidos pelo canal Yomiuri TV.

2019: Captain BalChuck ShimezouHello WeGo!Tatakae! Space Attendant Aoi.

 

O Anime Tamago resolve o problema da mão de obra na indústria anime? Não. Os salários continuam baixos e esse é o maior problema que a indústria encara agora. Se já há terceirização (e por isso o Anime Tamago nasceu) é porque há mão de obra ainda mais barata fora do Japão, o que torna difícil simplesmente aumentar os salários, mesmo supondo que o dinheiro esteja lá, disponível.

Mas é uma tentativa. Um paliativo, um alento. E vem produzindo peças de animação no mínimo interessantíssimas desde 2011.

 

Red Ash: Gearworld, Studio 4°C, 2017

Red Ash: Gearworld, Studio 4°C, 2017

  1. Avatar

    Olá peoples!!! O “Mexicano” mais uma vez nos brinda com uma excelente resenha! Adoro quando se discute a industria e seus meandros…
    E é uma coisa dificil de acreditar e muito menos aceitar que a cadeia de valor que essa industria propõe não permita pagar um salário digno a seus operários e é isto que pode estar matando a mesma industria Pq peoples vamos fazer um raciocinio tosquinho, mas lógico, a industria depende de gente que possui um talento que não encontra por aí numa caixa de sucrilhos, a pessoa tem de ter uma vocação, uma dedicação, formação cara e sempre será testada de projeto em projeto. Jornadas de trabalho excruciantes e ainda tu é mal pago???

    Bem está certo todo mundo quer ser um Miyazaki, um Shinkai ou até um Kon…Todo mundo se “lembra das pinga que tomam, ninguem vê os tombos que levam”…È o olimpo de carreira o que é certo, mas pense por um minuto…Para se apreciar a obra desses aí, atrás deles teve um pequeno exército de pessoas que se extenuaram, desmaiaram e até morreram no cumprimento do dever. A pergunta é: vale a pena?
    Na minha singela opinião a resposta é não! Se eu tivesse a habilidade, a formação e a resiliência (e teria de ter muita dela) fazendo um balanço em termos de retorno (ter seu nome nos créditos finais de qualquer episódio que ninguém lê) preferiria trabalhar numa mina de sal, o salário é tão baixo quanto, mas teria o luxo de entrar e sair na hora certa e talvez com algum benefício extra (o que me dizem é que a maioria dos que trabalham na industria do anime não tem). Sei que tem gente que tem uma dedicação quase que messiânica a esta industria, as respeito e não as julgo. Mas que muitos que poderiam entrar com seus talentos estão fazendo este pequeno calculo também e abraçando outras carreiras. O que é triste…
    É muito triste quando gente que cria coisas tão belas são menos valorizadas que um operário de uma mina de sal e espero que essa mesma indústria entre em termos. Pq se continuar assim…

    Mas o que é demonstrado na resenha não ocorreu somente no Japão. No pós guerra os estúdios de animação americanos passaram pelo mesmo processo: é só pesquisar sobre a Disney e sua batalha odienta contra os sindicatos no final dos anos 40 e inicio dos 50. Mas pelo visto a sindicalização da industria do anime é baixissima (se não for zero).

    E eu gostava mais do Anime Mirai era mais autêntico…O Tamago não é que seja ruim, de forma alguma, mas sentia que no Mirai vc sentia o prazer dos caras em levar a obra adiante…

    Bem é isso e parabens para o Fábio “Mexicano” por trazer a discussão à pauta…Abços a todos peoples!!!

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá James, tudo certinho?

      Os sindicatos no Japão, que eu saiba, são estritamente por empresa. A JAniCA, que foi a responsável pelo Anime Mirai até 2015, tem uma característica sindical, sendo uma associação de profissionais e se propondo desde o começo a levantar bandeiras importantes para a categoria. Foi fundada praticamente ontem, em 2007.

      Em todo caso, a coisa é sempre mais complicada. Haver sindicato nem sempre é garantia de qualquer coisa. O saudoso Isao Takahata foi dirigente sindical, foi no sindicato que ele e o Miyazaki se conheceram, mas ao mesmo tempo há denúncias contra ele de que era um chefe abusivo, e o próprio estúdio Ghibli paga baixos salário, mesmo sendo algo como um estúdio “gourmet”, que produz apenas para o cinema, se dando ao luxo de ficar longe dessa “gentalha” das séries para TV.

      Parte da resposta para o problema está na cultura japonesa. Outra parte (mas ainda longe de esgotar o tema) está no seu comentário: não é só no Japão que isso acontece. E empresas americanas, no passado, já terceirizaram animação para o Japão porque não só os japoneses eram melhores como eram mais baratos.

      Mas o Japão também subcontrata. Mesmo com a moeda nacional incrivelmente subvalorizada, o custo de vida em Tóquio principalmente, mas também em outras metrópoles japonesas, é altíssimo. A conta simplesmente não fecha, a não ser que o estúdio se dedique de forma rigorosa a fazer com quê, de alguma forma, ela feche, como é o caso do Kyoto Animation, que conta hoje com uma produção verticalizada, produzindo desde a light novel até seus animes que se tornam assim propriedades intelectuais exclusivas que o estúdio pode explorar a seu bel prazer. Toda a animação é produzida internamente, e, bem, como o nome já entrega, o Kyoto Animation não é baseado em Tóquio.

      O resultado é belíssimo, mas provavelmente não é replicável para a escala que possui a indústria japonesa de animação. Outros tentam, como o PA Works que recentemente se mudou para uma cidade do interior, mas mesmo assim continua sendo acusado de pagar baixos salários.

      Não existe uma solução só, o conjunto de soluções não é simples, e não vai ser da noite para o dia, mas se nada for feito, o anime com pedigree, Made in Japan, está sim ameaçado de extinção.

      O Anime Mirai/Tamago é apenas uma gota nesse oceano, e eu o enxergo não como uma solução, mas como coloquei no artigo, como um paliativo para auxiliar na formação de mão de obra apesar de todos os problemas.

      Obrigado pela visita e pelo comentário 🙂

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    Novamente roubando meus temas ¬¬
    Acho que já é a terceira ou quarta vez.
    Mas é assim mesmo, tem que copiar quem é bom!
    Acho muito bacana você se inspirar em alguém que é melhor.
    Parabéns!

      • Avatar

        O senhor deveria ter vergonha de utilizar esse palavreado chulo em um site que honra e respeita a família tradicional brasileira, portuguesa e japonesa.
        O senhor é uma vergonha para esse site.
        Se o senhor tivesse um pingo de consciência faria uma publicação com 1.763.932 palavras para se retratar.

      • Fábio "Mexicano" Godoy

        Permita-me tentar de outra forma então:

        Por favor, vá à casa de banho mais próxima, ou a que for-lhe mais agradável, e evacue.

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    Grande “Mexicano” perfeita a observação é interessante o exemplo da KyoAni…Acho que tem uma engenharia financeira muito bem feita para ser o que é…Ou alguém da tesouraria está enganando alguém…Acho que para saber mais sobre a situação dos estudios com certeza uma pesquisa na revista FACTA (a revista Exame deles, só que muito melhor….) deve ter um artigo sobre o assunto (problema no site dela é só em japones, a revista impressa era bilingue). E mais uma vez obrigado pelo tempo e atenção de vossa parte a familia empenhada daqui agradece e muito! Abçus!!

  4. Avatar

    É legal ver o quanto a cultura e história do Japão influencia os animes, não só os animes como também os games, mangás e etc. Quanto mais a gente aprende sobre eles, mais a gente gosta desse país!

    Recentemente publiquei um artigo parecido para quem tem interesse em aprender a língua, cultura e história através dos games japoneses, quem quiser saber mais é só acessar:

    https://artesninja.com/aprendendo-japones-cultura-historia-games

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