Vez ou outra me deparo com animes pouco conhecidos, e quando isso acontece, sempre me dá aquela vontade de dizer para os meus amigos. – Olha que anime legal! Mas confesso, raramente levo a cabo essa vontade.

E hoje, não por acaso impelido novamente por esse sentimento, tomei uma decisão. Vou tentar, nem que seja para fracassar. Decidi abraçar aquele velho clichê dos protagonistas de animes shonens, tentar e insistir, de novo e de novo. Ainda não sei se morrerei na praia, mas vamos para minha primeira tentativa.

Nessa resenha apresento, sem spoilers, é claro, algumas impressões do anime OVA Yodaka no hoshi, cujo título em inglês é: The Nighthawk Star.

Acho interessante também o traduzirmos para o português, pois é um título poético, não? A estrela do bacurau-norte-americano. Estava brincando, em português o título fica péssimo.

Yodaka no hoshi é um conto infantil japonês escrito e ilustrado por Kenji Miyazawa. Obrigado Wikipédia. E se você não sabe quem é Kenji Miyazawa, não tem problema, eu também não sei. Em um próximo texto, penso que seria uma boa apresentar adequadamente esse prezado autor, não é!

O curto OVA tem pouco mais de 10 minutos, e foi lançado em 2013. Ele nos apresenta a jornada de Bacurau, uma ave migratória noturna que se alimenta de insetos. Ela é mega simpática, procurem imagens, estudem e conheçam nosso protagonista. Mas antes disso, me acompanhem pela história.

 

Berço de madeira

Meu ninho minha vida

 

O OVA nos apresenta o seu enredo ao permear e desenvolver os conflitos da competição e da transcendência. Inserido no centro desse dilema, o nosso pequeno Nighthawk está em um impasse, sua vida está sob ameaça. Quando um poderoso “monarca” busca brilhar isolado ante aos céus, tomando posse deste como se fosse o único dono de sua esplendorosa majestade, e ainda mais, afirmado que o céu lhe foi concedido por “Deus”. Convicto de sua superioridade, ele impõe o seu “legítimo poder” de não aceita dividir sua glória e seu território, principalmente com o pobre Bacurau, a quem considera um impostor inferior.

Podemos pensar, e se estivéssemos em situação semelhante. Impotentes perante a ameaça, como devemos agir. Quando nosso lugar e nossa dignidade nos é usurpada, o que podemos fazer?

 

Tio da academia me incomodando

Vizinho é que nem sogra, só pode…

 

A partir do momento em que existimos, existimos como existimos, e somos parte da complexidade em uma existência maior. Sabendo disso, o protagonista, ao se dar conta de que é parte desse sistema, e ainda mais, de que ao existir, ele tem que existir exatamente do modo como ele é, e não como um outro. Após perceber isso, ele se depara com a consciência de suas características e limitações, e a única escolha que lhe é permitida, é a de se render a uma existência maior, a qual governa e determina o seu destino. De fato, para existirmos, devemos lutar com outros seres que também existem, que exercem, em sua dignidade, o poder natural, aquilo que lhes é concedido pela seleção natural.

A alegoria desse conflito, uma metáfora que representa a brutalidade do meio, não expressa qualquer hesitação ao nos expulsar de nosso conforto, e nos convidar a galgar novos horizontes e oportunidades.

Essa é a mensagem que o OVA quer nos transmitir? Talvez. Muito provavelmente é uma leitura válida, mas de modo algum, definitiva.
Entretanto, a história de nosso protagonista ainda não terminou.

 

Voando no vento matutino

Foto de perfil das redes sociais

 

Expulso de seu “ninho” por ser quem ele é, Bacurau confrontou aquilo que ele deveria enfrentar, ele confrontou a si mesmo. Determinado, alçou voo para descobrir qual era o seu lugar, e sem qualquer surpresa, descobriu que o seu lugar era exatamente o seu próprio reflexo. Bacurau era aquilo que deveria ser, e ele, em si mesmo, era o lugar ao qual pertencia. Uma ave, livre e limitada pela sua existência.

Migrar era o impulso de sua natureza, era irresistível, mas por detrás de seu destino, a consciência e autoconsciência pulsavam em seu claro discernimento. Não consuma aquilo que não precisa, não seja mais do que é, não ambicione ser aquilo que não necessita ser.

 

Determinação

Determinação ou arrependimento?

 

A transcendência, no entanto, custa muito caro. Bacurau almeja ser pleno. Ele deseja que sua existência seja consumida em toda a sua potência, mesmo que isso signifique perder a sua forma, morrer ao se eternizar como fluxo perante e junto ao meio. E o único modo de conseguir realizar o seu desejo, é, novamente, ser ele mesmo, existir ao máximo.

 

Fênix?

Será uma digevolução?

 

Deixo o clímax dessa jornada a cargo dos curiosos de plantão, que assim como a pequena ave, busquem em suas existências a plenitude que ela garante. Pesquisem na internet e contemplem essa singela obra da animação japonesa.

Para concluir, confesso aqui minha surpresa, me deparei com uma bela mensagem oculta nas entrelinhas deste breve OVA. Recomendo fortemente que tirem as suas próprias conclusões em relação a essa delicada e bela animação. E por fim, mesmo que não tenha descrito em detalhes os elementos técnicos do anime, já que decidi focar-me em sua mensagem, constato que Yodaka no hoshi possui uma narrativa envolvente, sua trilha sonora é bem empregada em todos os momentos da animação, a qual, provavelmente, é bem fiel às ilustrações originais de Miyazawa, caso não sejam exatamente as mesmas. Tudo isso fecha com chave de ouro uma obra que facilmente pode passar despercebida. A delicadeza de um conto que de infantil só tem a designação, pois, sem sombra de dúvidas, podemos considerá-lo uma preciosidade que satisfaz a qualquer faixa etária.

Vídeo que complementa o debate elaborado na resenha ^^

O céu do zodíaco

Somos todos pó de estrelas

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