Uma cidade movida por tecnologia, totalmente automatizada e controlada por humanos. Durante um certo período foi uma vivência animadora, tudo parecia estar avançando da melhor maneira. Mas quando os genes terminais de rede são perdidos, esse cenário muda e os humanos passam a ser reféns de sua própria criação, a tecnologia. Agora, sendo obrigados a viverem de uma forma humilhante, escondidos e sem comida, cercados apenas por uma grande estrutura de metal e escadarias sem fim. Esse cenário pós-apocalíptico é o contexto de Blame!

Para quem não sabe, Blame tem um mangá com 10 volumes no total, a história que se passa no filme é original, é uma espécie de momento anterior, algo preparatório para o mangá.

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A história vai se construindo a partir da visão dos humanos sobreviventes, do domínio dos robôs. Eles através de seus discursos vão apresentando o contexto daquele mundo, como era a vida antes de culminar naquela situação horrenda em que eles vivem. Essa estrutura do filme foi criada para facilitar a interação com público, sendo assim, entendido mais rapidamente por todos.

Apesar do enredo se desenvolver a partir do olhar dos humanos sobreviventes, o protagonista é Killy. Um homem, ou melhor dizendo um ciborgue misterioso, cujo objetivo é recuperar os genes terminais de rede, que é aquilo capaz de fazer os humanos retomarem o controle da cidade. Falando mais especificamente de suas características: ele não fala muito e compensa isso em uma habilidade extrema, afinal ele vive naquele mundo de escadarias sem fim, enfrentando robôs atrás de robôs, em prol do seu objetivo.

Killy, a melhor palavra para defini-lo é badass

Um dos problemas que esse filme passa é que todos os personagens humanos são substituíveis, não existe um apego com relação a eles, muito por conta de o grande centro da história original ser Killy em sua jornada. Se alguns personagens daquele círculo fossem melhor desenvolvidos, aumentaria a sensação de apego com a obra.

No entanto,a partir desse problema surge um ponto positivo, pois se não há um destaque individual dos humanos, eles como um todo enaltecem a mensagem da obra. É dada bastante ênfase na comoção de todos ao ver comida, isso poderia ser apenas algo passável, porém se um sentimento de empatia surgir, é possível tentar trocar de lugar com eles, imaginando o quão difícil seria viver dessa forma.

Os robôs que dominam os humanos. Note também a constituição do cenário, primoroso nos detalhes.

Para ser sincero, o que mais me chamou atenção para assistir Blame foi a sua animação. Sem sombra de dúvida, posso dizer que foi a melhor animação em computação gráfica que já vi. O cenário muito bem detalhado, na verdade tudo muito bem detalhado, sem ficar naquele tom robótico que de praxe desqualifica algumas obras do campo de computação gráfica. Em“The city” como é chamada a grande cidade de ferro em que se passa a história, que no mangá é a grande protagonista, somos convidados a conhecer aquele gigantesco mundo, desfrutando através de grandes traços e, em sua animação isso também é passado, o detalhamento da cidade é exuberante.Para um cenário pós-apocalíptico até que se tem cenários bonitos.

Os detalhes ficam impressionantes

Após começar a ver o filme outro aspecto técnico chamou atenção. A trilha sonora é simplesmente muito boa, dando o tom de urgência, ou então passando o espírito de luta e vontade que são tão necessários para construir uma obra chamativa. Principalmente nas cenas em que Killy luta sozinho, por conta de ele ser um personagem que fala muito pouco, a trilha sonora fala pela cena. Um trabalho muito bem feito.

A maioria das grandes obras não se resume apenas ao que está visível, geralmente existe algo sublinear, uma mensagem, algo que posteriormente faça o público lembrar-se da obra. O autor de Blame tem uma grande sacada, e busca passá-la de uma forma bem vistosa.

Atualmente a tecnologia, a dita grande “aliada” do homem, vem ganhando cada vez mais espaço no mundo humano, começou nas indústrias onde o homem fora substituído pela máquina e agora está em tudo, possuindo cada vez mais atribuições lhe dadas pelos seus criadores. São inegáveis os grandes avanços no campo científico, porém seguindo em uma regra de contrapontos, se temos um bom desenvolvimento de um lado, algo ruim na mesma proporção surge do outro. Basicamente o aliado do homem que tanto traz benefícios, acarreta também consigo uma gama de problemas ao construir uma sociedade cada vez mais depressiva, isolada e se vale do termo “conectado” quando na verdade está cada vez mais distante.

Bom, essa contextualização da sociedade atual serve para melhor enxergamos o que Tsutomu Nihei, quis construir em sua obra. Fundamentalmente, ele quer dar o alerta de que hoje o homem domina a tecnologia, mas a longo prazo o dominado pode passar a ser mandatário. No anime é usado o termogenes terminais de rede”, que seria o problema que gerou todo o caos e tornou a tecnologia soberana sobre o homem, esse mesmo termo pode ser enxergado nos problemas que se tem hoje. Sendo assim, no futuro, se os tais genes terminais de rede forem perdidos pela nossa sociedade, pode-se culminar naquele grande e engenhoso mundo abstrato de Blame. Então fica aí a mensagem de Tsutomu Nihei para todos nós.

Esse artigo é uma grande visão panorâmica de Blame, não me ative a acontecimentos do filme, apenas busquei mostrá-lo de uma forma introdutória/interpretativa. Com isso, você leitor, que ainda não viu o filme e que ficou interessado em vê-lo, chegará lá sem grandes spoilers da obra. Para aqueles que já assistiram ao filme, deixe sua opinião sobre, se em sua interpretação geral viu algo mais do que foi mencionado.

Enfim, esse foi o cineclube sobre Blame. Uma obra que apesar de alguns pontos negativos, se faz valer pelos positivos, mostrando pontos técnicos exuberantes e conseguindo passar sua mensagem de uma forma chamativa.

O Aliado de hoje, pode ser o inimigo do amanhã.

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