A série de mangá 4-koma Comic Girls, de Kaori Hanzawa (atualmente em seu terceiro volume), ganhou na temporada de primavera uma adaptação para anime, em 12 episódios, pelo estúdio Nexus. “Garotas fofas fazendo coisas fofas” envolvidas com o mundo da criação de mangás não é novidade. Doujin Work (2007) e Mangirl! (2013) são animes curtos, de 12 e 3 minutos, respectivamente, que mostram artistas e equipe em busca de seu lugar ao sol ao tempo em que afirmam o amor pelo mangá. Em tese, Comic Girls também caminha nessas estradas do reconhecimento e da paixão pela arte, mas apresenta – até pelo que permitir os 23 minutos por episódio – personagens que marcam pela dinâmica de suas relações, sonhos e entraves psíquicos e questões familiares. Um slice of life cômico que tece momentos surpreendentes, ternos e, concomitantemente, hilários sobre autodepreciação e ansiedade social pela protagonista Kaoruko Moeta, de maneira recorrente sem ser exaustiva, com potencial para diversão e reflexão. Algo que Comic Girls realiza com fluidez e inteligência.

A história gira em torno de quatro garotas que estão no dormitório da revista Bunhousha: Kaoruko, também conhecida como Kaos, uma promissora autora de 4-koma, que tem dificuldades para criar uma história convincente sobre a vida de meninas do ensino médio; Koyume Koizuka, jovem talento do mangá shoujo, que precisa desenvolver personagens masculinos mais convincentes; Ruki Irokawa, que possui uma serialização de mangá erótico/teens love em andamento, de excelente repercussão, e que sofre por causa de seu pseudônimo, Big Boobies Himeko; e a autora de mangá shounen, Tsubasa Katsuki, a Wing V., uma garota que gosta de incorporar seu personagem principal, e demonstra determinação e sabedoria, no entanto, tem crises pelo medo que sente que tanto o público como sua família descubram sua profissão de mangaká (seus leitores pensam que Wing V. é um homem).

Kaos-chan com a encantadora Ruki: entre afetos e crises de ansiedade, uma quase relação de senpai e houkai.

Kaos entra no dormitório abalada por severas críticas que recebe de leitores da revista em uma enquete. O último lugar a faz chegar ao máximo seu autodesprezo e falta de confiança. Porém, sua editora, Mayu Amizawa, acredita em seu potencial e consegue uma vaga no dormitório. E os vínculos que ela criará com as mangakás é um dos alicerces de Comic Girls e que leva a sua qualidade mais evidente, que é o desenvolvimento de suas personagens. As meninas, além das preocupações com a profissão de mangakás, também lidam com transtornos emocionais, questões de identidade, imagem pública e problemas familiares. E esses temas são retratados com um notável equilíbrio entre drama e humor, o que também garante apreço às personagens, que têm uma nas outras não somente apoio para superar o desafio, mas referência para avida pessoal e para o universo de seus mangás.

As pequenas “taradices” do dia a dia. Ou a união faz a força!

Certamente que elos de amizade e suas contínuas demonstrações desse afeto, com os obstáculos a contornar pela união, são o que sustentam (e, geralmente, com situações clichês) slices of life com protagonismo feminino. Mas em Comic Girls, há uma ênfase maior na baixa autoestima e no pessimismo de sua protagonista. Kaos-chan está sempre duvidando de sua capacidade, tem dificuldade em se relacionar com as pessoas (a escola é uma tortura) e deixando afetar pela tristeza. Ainda que seu drama seja sério, o roteiro de Natsuko Takahashi (responsável por Koi to Uso [2017]) consegue imprimir leveza às manifestações de autodesprezo de Kaos. No entanto, algo que Kaoruko é, e o que faz ser especial para suas amigas, ser batalhadora. Seus esforços, quedas e voltas por cima são comoventes. Revelam que mesmo com medo e em dúvida é possível seguir em frente, sem perder de perspectivas um sonho, um grande desejo.

Fuuru-senpai: o terror no sangue. Aquela personagem que proporciona aquele gostinho de “quero mais”.

Contudo, é preciso embarcar na história de Kaos. Talvez sua constante perda de confiança e crises de choro possam afastar telespectadores(as). Aqui, é preciso dizer que muitos desses transtornos não são facilmente superados, no sentido, de serem definitivamente deletados. Kaos representa o sacrifício diário para vencer as pedras no caminho, seja a concorrência, seja nossos medos interiores.

Miharu, a professora otaku. Fã número 1 de Wing V.

Quanto às outras personagens, Koyume é a extrovertida do grupo, a que faz amizade facilmente. A sua dificuldade para escrever romances que traduzam com exatidão o amor – a sua editora defende que, por nunca ter se apaixonado, Koyume não compreende a paixão –, faz-na procurar pelo sentimento, e Tsubasa (com sua generosidade, charme e jeito de moleque) quem desperta nela sentimentos nunca experenciados. Já Ruki, é a mais madura do quarteto de mangakás. Ainda assim, ela sente enorme vergonha de seus desenhos (em um episódio chegará a aprender a valorizá-los) e se assusta facilmente. Ruki não se sente satisfeita com o seu corpo, principalmente por não atender aos atributos de seu pseudônimo: Peituda Himeko-sensei. Ela também se ressente por não ter vivenciado o amor, já que escreve histórias românticas. Em Ruki, há dois conflitos comuns às mulheres no dia hoje: a relação com o próprio corpo e a dificuldade de conciliar (ou ter tempo para isso) vida amorosa com vida profissional. Tsubasa é a mais aventureira, esportista e traz em si muito do que há em um herói shounen: determinação, coragem e senso de proteção. Mas Tsubasta tem dois dilemas que a afetam seriamente: o temor do público descobrir a sua identidade, e não aceitar uma garota em um âmbito de autores masculinos, e a falta de apoio e incentivo de sua família, que é abastada e possui negócio próprio. Um ponto a se destacar é como o mangá que cada uma produz está vinculado à personalidade de cada uma delas.

O clube de mangá formado por Miharu, Mayu e Ririko. Os melhores momentos da juventude.

As personagens secundárias também têm bom desenvolvimento e obtêm bom tempo em cena. Entre elas, a mais divertida e enigmática moradora do dormitório, Suzu Fuura, autora de mangá de terror, que possui aparência aterrorizante, que, na verdade, esconde a formosura de alguém bastante delicada. No entanto, Fuura-senpai tem paixão em assustar as pessoas, o que faz com que seja julgada como estranha. Kaos, apesar do jeito medo e da palidez de Suzu, compreende-a (além de admirar a sua beleza). As amigas, ex-mangakás e com ligações com as garotas do dormitório, Ririka Hanazono, Mayu Amisawa e Miharu Nijino também têm importantes momentos e espaço para além da compreensão de mera figurção. Ririka é a zeladora do dormitório, extremamente carinhosa e dedicada; como ex-autora de mangá yuri, experimentou o sucesso repentino e a pressão de responder às expectativas de editores e do público. Mayu é a editora de Kaos-chan, com quem se identifica, apesar de ter o ingrato trabalho de recusar seus manuscritos, porém sempre dando um jeito de incentivá-la. Miharu é professora de ensino médio e uma otaku que esconde seus hobbies. Nessas três mulheres, a revelação (já que o mangá é a escolha número um na vida das garotas do dormitório) de que, ainda que os sonhos de se sustentar financeiramente (e com reconhecimento) com a arte não se concretize, há outros caminhos a seguir, que proporcionem igualmente senso de realização e prazer.

Koyume, a extrovertida, apaixonada e devoradora de doces do grupo de mangakás.

Outro aspecto a ser ressaltado é que, mesmo que Comic Girls não seja uma série declaradamente yuri, muito do que pode ser apreendido leva à consideração de que o sentimento romântico de Koyume por Tsubasa é tratado com sensibilidade, mostrando o desabrochar do amor e a coragem e êxtase em aceitá-lo plenamente. Enquanto Kaos é franca a respeito do seu amor por mulheres bonitas (principalmente por Ruki, Fuura-senpai e em alguns de seus delírios), há uma ambiguidade latente no que concerne à sexualidade de algumas das personagens (o trio Ririka, Mayu e Miharu).

Quando, enfim, explode o talento para o moe de Kaos-chan.

E por falar em personagens, Comic Girls tem design admirável, em que beleza e movimentos criam um efeito agradável. Além de sua inspiração no mangá 4-koma com quadros que realçam algumas reações e a atenção aos cenários (a destacar o dormitório), seus detalhes e cores. Algo que talvez esteja além da medida é o fanservice – mesmo que em poucos episódios – que serve só ao humor e não contribui para o desenvolvimento das personagens ou dos arcos (considerando que são meninas de 15 anos).

O maravilhoso efeito da amizade e da autoconfiança.

Comic Girls tem muita dedicação ao mangá, mas, acima do sucesso profissional, está a amizade e o modo como as mangakás encorajam umas às outras a superar seus problemas (reais, de qualquer menina ou profissão) e temores. E, em Kaos, encontramos a representação exata da frase de autoajuda, “Se estiver com medo, vá assim mesmo”. A tímida, autodepreciativa e ansiosa social (quase que compulsiva) que permanece na batalha, não permitindo sua autodestruição e ciente de que possui uma rede de segurança no que costumamos chamar de amigas(os). E como é divertido (em Comic Girls triunfa os sorrisos e as risadas) e tocante o percurso que Kaos, Ruki, Koyume e Tsubasa percorrem.

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