A segunda temporada de Amanchu!, adaptação do mangá de Kozue Amano (autora também de Aria) acrescenta à temporada que foi ao ar em 2016 novas personagens e elementos de fantasia, com alguns toques sobrenaturais. Com direção de Junichi Sato e Kiyoko Sayama, composição de série a cargo de Deko Akao e Hiroku Fukuda e produção do estúdio J.C.Staff, Amanchu! Advance mantém em alta as qualidades da primeira temporada, como a incrível e emocionante ligação entre suas protagonistas, Teko e Pikari, e o seu design de personagens equilibrando beleza e comédia na forma que os apresenta (os rostos que lembram os bonecos da franquia Muppet, olhinhos de botão etc.), além das deslumbrantes sequências no oceano.

Porém, a introdução do realismo fantástico parece fora do lugar e abrupta em um anime (aqui, não se leva em consideração o mangá de Amano que recorre em Amanchu! à fantasia, como o faz em Aria. Afinal, é uma marca da mangaká) que se destaca pelo modo realista em desenvolver suas protagonistas e os seus conflitos na busca por amadurecimento e autoconfiança. E algumas das personagens que ganham luz nessa segunda sessão têm pouco tempo para justificar plenamente sua presença, ou melhor, para ir além de uma progressão mínima que não os limitem a uma função determinada. Sendo a principal Kokoro, que inicialmente surge como uma tomboy, a partir do equívoco de todos pensarem se tratar de uma menina e, mais tarde demonstra um interesse romântico por Pikari, quando sua identidade é, enfim, revelada, só que de Kokoro conhecemos apenas o seu desejo de mostrar-se corajoso e forte enquanto compete com Teko pela atenção de Pikari.

A beleza de Teko deslumbrando Pikari: mais uma vez.

Amanchu! Advance começa no ponto em que se encerra a primeira temporada. Ainda são as férias de Verão e Teko e Pikari estão mais dispostas a criar memórias inesquecíveis. Futaba Ooki, a Teko, tem um desejo e um desafio antes do início de um novo ano letivo: tornar-se parceira de Hikari Kohinata, a Pikari, ao obter sua certificação avançada para mergulho. A personalidade de Teko sempre foi um ponto a se explorar em Amanchu! O modo como Pikari a inspira a superar sua ansiedade social e solidão conectando-a à atividade do mergulho e aos membros do clube – a professora Mato Katori e os irmãos Ninomiya, Ai e Makoto – e a estar aberta às surpresas da vida e à diversão por mais que seja sua fonte de alívio e coragem, deixa um feixe de preocupação que a consome em boa parte desta temporada, já que a dependência em relação à amiga para se aventurar, assim, não sendo capaz de se encontrar as maravilhas do mundo por conta própria, assustam-na de uma maneira que a leva, muitas vezes, a se sentir paralisada e temendo o dia que se verá obrigada a se separar de Pikari.

Kokoro, um personagem rodeado por polêmicas que, no fim, contribui para fortalecer a conexão entre Pikari e Teko.

A busca de Teko pela autoafirmação – lembrando que ela, apesar de seus entraves, é um tipo de pessoa que se incomoda com suas fraquezas e se fortalecer é algo que a impulsiona para frente – passa pelo modo como Pikari se vê, já que seu jeito espevitado e sua empolgação causam estranhamentos e muitas das vezes dissintonia com o Outro. Insegurança e o medo da rejeição acompanham as duas garotas. Então a amizade entre elas não é uma rua de mão única, mas um aprender constante com os desafios que vencem em colaboração mútua, mesmo com Teko sendo tímida e Pikari, extrovertida. Das diferenças surge a identificação entre elas. O laço que faz de Amanchu! o slice of life bonito e relaxante que é.

A segunda temporada explora a fantasia nos sonhos lúcidos de Teko e no arco Peter (Pan), envolvendo Katori-sensei, Ai e o professor Mamoru Towano, que tem a clássica peça de J. M. Barrie como inspiração. Os sonhos de Teko, que são compartilhados com Kotori, irmã de Kokoro, e Pikari, ajudam-na em seu processo de autoafirmação, já que proporciona a ela um território no qual tem domínio total sobre suas ações. A fronteira entre realidade e imaginação fica nebulosa em vários momentos, confundindo-se, tornando-as praticamente indiscernível uma da outra. O absoluto controle de Futaba desse mundo constrói pontes com o real para que possa mostrar-se mais forte perante os obstáculos da realidade.

Dia de se transformar em príncipe e princesa. Os sonhos lúcidos de Teko a ajudam a se tornar mais segura no mundo real.

Já o arco Peter é mais sobrenatural com a história de um rapaz que se recusa a crescer. Mato conhece-o em sua juventude e entre eles nasce uma história de amor e decepção. Durante o Festival Cultural, Ai tem um misto de alucinação e sonho e vive uma aventura com Peter. Em seguida, há um cruzamento entre o sonho do passado de Mato-sensei e a experiência presente de Ai, em que ajudar Peter a acordar é uma missão que a garota assume. O arco tem duração de três episódios e apresenta o amor a Ai e consolida o vínculo entre Mato e Towano-sensei. Se o sentimento de Peter, preso na tristeza do seu abandono, é manter os sonhadores eternamente em um momento feliz, a sua resolução mostra que o tempo precisa correr, o futuro se constituir para que novas diversões e memórias possam ser criadas, o que é condizente com o drama central de Teko e Pikari em Advance! Infelizmente, por mais bonito que o arco tenha sido, a impressão de que Ai e Mato poderiam ter uma história menos fantasiosa se estabelece. Contudo, as personagens ganham uma caracterização e espaço que está em débito desde a primeira temporada.

O arco Peter: boa história, mas Katori-sensei e Ai mereciam algo mais significativo – e real.

Quanto a Kokoro, a confusão com seu gênero e a rivalidade com Teko pela atenção – ou amor – de Pikari criam momentos engraçados e que contribuem para apresentar sentimentos até então desconhecidos a Futaba, como ciúme e egoísmo. Na desconfiança de que estivesse negando aos outros a oportunidade de conhecer o quanto Pikari é alguém admirável (é um tipo de pessoa que procura contagiar todos a sua volta), ela amadurece, percebendo que não pode/deve colocar seus sentimentos à frente de todos. Kokoro tem 12 anos e quer afirmar sua masculinidade, ainda mais por ser comum, devido a sua aparência, acreditarem que ele é uma menina. Pode-se dizer que Pikari catalisa a vontade de Kokoro fugir de um estigma que o incomoda. Presença polêmica por intervir em um possível romance entre as protagonistas, Kokoro serve à narrativa ao gerar conflitos e novas emoções em Teko, o que mostra que a recepção à personagem foi exagerada, porém há o mínimo de desenvolvimento e o desvendamento da confusão em relação ao seu gênero não resulta em desdobramentos nesta temporada.

A avó de Pikari, Kino e a sua irmã, Kodama, ganham destaque e representam algum estímulo à história principal. Kino, ao contar como Amanchu-ya (pioneira no turismo de mergulho), se estabeleceu, contagia a todos com sua perseverança e revela que o medo não pode ser um motivo para não tentar concretizar um sonho. E Kodoma apresenta mais de Pikari e o seu lugar no mundo, além de também manifestar o desejo de ser independente da irmã, aprendendo a fazer as coisas por conta própria. Um dilema semelhante ao de Futaba. Já Kotori é o olhar de admiração a cada um dos sinais que compõem o amadurecimento de Teko: disposição, coragem diante dos mais profundos receios, elegância e o entusiasmo revelado na diversão. É como a kouhai encantada por sua senpai.

Kotori em um daqueles momentos que atraem o fã de yuri para Amanchu!

Embora se possa contestar a repentina introdução do sobrenatural em Amanchu! e a relevância das novas personagens, a segunda temporada aprofunda a sensação de que a diversão, por mais plena que seja, traz consigo a tristeza (todo elemento tem em si o seu contrário). É o ciclo da vida, o presente fundamentando o passado e preparando o futuro. Apegar-se demais à felicidade que se acredita ter em um determinado momento, impede que novas experiências se apresentem e sejam vividas com intensidade. Assim, de memória em memória compartilhamos conhecimento e tornamos os passatempos inesquecíveis. Lição que Teko e Pikari aprendem e que torna mais sólido o vínculo entre elas (afastando a angústia e o egoísmo que sustentam o medo de que a diversão tenha um fim).

A importância da amizade é o que move Amanchu! Diversão com muito amor, confiança e intimidade.

Amanchu! Advance consagra uma das mais belas amizades dos animes. E ainda que seja relaxante e divertida, trata com seriedade o complexo de inferioridade e a ansiedade social que acompanham Teko, os quais ela procura com todas as suas forças superar. A conexão emocional entre Teko e Pikari revela que a amizade tem, sim, um poder curativo. E não apenas Teko consegue equilibrar o encorajamento que recebe de Pikari com a independência que almeja para descobrir e organizar por si mesma (e dividir com a amiga) o divertimento, como Pikari contém sua impulsividade, tornando-se mais tranquila (ainda que natural e voluntariosa como sempre).

Let’s a go! (KOHINATA, Hikari).

Com um design de produção arrebatador – principalmente as cenas de mergulho –, muita diversão e uma amizade que partilha experiência, intimidade e confiança de maneira extremamente convincente e emocionante, Amanchu! Advance é uma continuação, que, mesmo com as mudanças bruscas a respeito do realismo que marca a primeira temporada, está à altura do seu antecessor e nos proporciona testemunhar uma amizade que se coloca acima das imperfeições e medos, para construir uma ligação profunda de amor e respeito.

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