Bom dia!

O Jinzaburou acredita que é importante lutar na hora de lutar mesmo se não quiser lutar, ou algo assim. Estou brincando, eu realmente não entendi qual é a moral dele. Eu entendi que há duas alternativas: lutar até o fim, sem ceder jamais, versus saber a hora de ceder. Mas não entendi qual foi a escolha dele, afinal. Entendi, porém, que ele aprendeu a respeitar a escolha dos outros, e isso é uma coisa elogiável.

O episódio dá exemplos de quem escolhe lutar e de quem escolhe não lutar, bons exemplos inclusive, mas há que se considerar que os mongóis realmente querem matar todo mundo, e isso meio que reduz as escolhas possíveis. Talvez essa seja a moral? De todo modo, o episódio teve um flashback muito interessante do Jinzaburou que me fez explorar mais esse período histórico em que o anime se passa, então senta que lá vem história!

Ou pode pular essa parte se achar chato, mas eu prometo tentar ser o mais sintético e objetivo possível, ok? Pode vir a ser importante para o anime.

Curso rápido sobre a Guerra Genpei (ou Guerras Genpei) e o estabelecimento do Xogunato Kamakura

No final do século 12, dois eram os clãs mais poderosos junto à Casa Imperial Japonesa: o Clã Taira e o Clã Minamoto. Então os dois entraram em guerra pelos motivos que essas guerras sempre começam: havia dois candidatos a imperador, o Clã Taira apoiava um sucessor ao trono (Antoku – com dois anos na época que foi indicado para imperador) e o clã Minamoto inicialmente apoiava outro, Mochihito, mas ele morreu no começo da guerra e eventualmente se aliaram ao seu pai, o ex-imperador Go-Shirakawa (que era avô de Antoku, por sua vez sobrinho de Mochihito), mas entre uma criança, um ex-imperador e um país em guerra civil, que importa quem é que era o imperador da vez, não é? Esse conflito ficaria conhecido como Guerra Genpei.

A guerra terminaria com a vitória do Clã Minamoto, que sob a liderança de Minamoto no Yoritomo estabeleceu o primeiro xogunato da história do Japão, na que é considerada a transição para o feudalismo no país: o Xogunato Kamakura (em referência à cidade de Kamakura, de onde governavam). Com isso, a Casa Imperial perdeu efetivamente o poder para o Xogum, o generalíssimo japonês – e só o recuperaria com a Restauração Meiji, mais de seis séculos anos depois. Mas esse não é o final feliz para o Clã Minamoto que se poderia esperar.

Desentendimentos entre Go-Shirakawa e Minamoto no Yoritomo levaram à morte de Minamoto no Yoshitsune, que, se você leu e se lembra do meu artigo de primeiras impressões, é, no anime, mestre do estilo marcial de Jinzaburou e, aparentemente, não morreu, tendo ao invés fugido do Japão, o que parece estar de acordo com uma lenda do século 19 que diz que Genghis Khan era na verdade Yoshitsune. Teorias conspiratórias à parte, depois da morte de Yoshitsune a coisa piorou ainda mais para o Clã Minamoto.

Durante a Guerra Genpei o Clã Houjou, um ramo do Clã Taira, debandou e aliou-se ao Clã Minamoto. Foram recompensados com influência no novo governo e Yoritomo até mesmo se casou com Houjou Masako, filha de Houjou Tokimasa. Após a morte de Yoritomo, Tokimasa se tornou regente (shikken). Os Houjou, regentes, se tornaram os governantes de fato do Japão durante o Xogunato Kamakura, em lugar da Casa Imperial e do Clã Minamoto, xoguns.

Nagoe Tokiaki e Jinzaburou

É nesse ponto que entra o flashback do Jinzaburou: Houjou Tokimune era o oitavo regente e teve arquitetado contra ele um plano para depô-lo em favor de Houjou Tokisuke, seu irmão. Nagoe Tokiaki, o careca gentil que joga shogi com Jinzaburou, e seu irmão Nagoe Noritoki, fariam parte dessa conspiração e todos foram executados. A história sobre a conspiração é controversa, e parece que o anime está do lado de quem acredita que ela não existiu de fato. Ufa!

De volta ao episódio

O desespero na feição de Teruhi

Após a destruição da capital de Tsushima, Abiro Yajirou sobrevive, mas parece mais morto do que já estava antes. Teruhi também se desespera, e não parece haver caminho para além das trevas. Como não canso de me dizer em todos esses artigos de Angolmois, não havia mesmo: Tsushima foi massacrada durante a Primeira Invasão Mongol ao Japão. Mas o anime parece que tem outras ideias, ou pelo menos quer dar alguma esperança para seus personagens e seus expectadores. Bom, a visão da capital em chamas não é um dos momentos de esperança de Angolmois.

Abiro Yajirou está morto e esqueceram de enterrar

Mas uma atitude impensada de Teruhi mudaria tudo: por puro desespero, ódio, vingança, ela atacou um grupo de reconhecimento mongol que entrara nas montanhas. Para evitar que os mongóis fugissem, os japoneses mataram todos ali. Aquela pequena vitória parece ter instilado novo ânimo em boa parte dos sobreviventes. Não em todos, mas o suficiente. Revigorados, decidem sobreviver não importa o quê e tentam chegar a uma praia que talvez ainda não tenha sido dominada pelos mongóis (assumir isso é tolice, os mongóis atacaram pelo mar pontos em dois lados opostos da ilha, mas é o que eles podem fazer por enquanto). No meio do caminho uma velha anônima lembra que a luta não é para todos.

Ela está velha. Ela está cansada. Ela não pode lutar nem que queira. Ela perdeu toda a sua família. Por que deveria viver? Ao invés de andar à esmo pela ilha tentando sobreviver, ela toma a decisão de ficar sozinha em um lugar remoto para morrer. Parece-lhe melhor do que morrer pelas mãos dos mongóis, pelo menos. E quem poderia dizer que ela está errada? E o desespero não colhe apenas ela. Como já dito, Abiro Yajirou está quase se forçando a continuar em frente, sustentado pelo que lhe resta de senso de obrigação, mas sem nenhuma esperança real.

Nem todos querem continuar

E ninguém tem a obrigação de ter esperança. Não nessa situação, pelo menos. Os mongóis cercaram a ilha e estão matando ou capturando todo mundo, destruindo todos os vilarejos e povoados, e eles sobrepujam enormemente as forças japonesas na pequena ilha. Que fundamento há para ter esperança? Jinzaburou, no entando, não pretende parar de lutar. Decerto não é apenas por causa da promessa de reforços em alguns dias – que ele nem sabe se chegarão. Como foi durante o evento que culminou na morte de Nagoe Tokiaki, parece que ele não é capaz de aceitar qualquer perda. Bom, não exatamente. Ele está sim, pronto para aceitar a desistência dos outros, como ele aceitou a do filho de Tokiaki. Mas ele, pessoalmente, não irá desistir de nada nem de ninguém.

É essa a resposta que ele cobra de Yajirou: vai desistir ou vai lutar? Lutar como se já tivesse desistido não adianta. No fundo, talvez Jinzaburou sinta que ele tem alguma obrigação moral simplesmente porque ele é alguém que pode fazer algo. Não é porque ele quer viver, ou porque lhe mandaram, mas porque ele considera essa a coisa certa a fazer. Yajirou tem todo o direito de pensar diferente, mas ao escutar a história de Jinzaburou, algo mudou dentro dele. Abiro Yajirou parece ter entendido que vale sim a pena lutar quando se é para defender os mais fracos em uma guerra justa, ou no mínimo ficou suficientemente impressionado por Jinzaburou para querer segui-lo. E assim os japoneses obtém uma vitória que é sim pequena considerando o tamanho das forças mongóis, mas que pode dar-lhes mais força para continuarem resistindo.

Curiosidade final sobre a Guerra Genpei: um de seus resultados foi o estabelecimento das cores do Japão. Vermelho era a cor do Clã Taira, e branco a do Clã Minamoto.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Muito obrigado!

      Eu me divirto assistindo animes, e sempre acho mais divertido se puder ter algo além da diversão por curtir a obra em si. Bom, alguns não me divertem tanto, alguns até me aborrecem, mas estou me divertindo com Angolmois, mas quando o anime é um porre é procurar tirar algo a mais dele é ainda mais importante, então o que eu disse vale de qualquer jeito =D

      Obrigado pela visita e pelo comentário!

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