Bom dia!

Antes mesmo do anime começar, um de seus primeiros trailers (o primeiro?) já dava o tom:

Em abril de 1241, grande parte da Europa Oriental foi aniquilada durante a guerra.

Uma guerra que ficou conhecida como “Batalha de Legnica”.

Anos depois, de acordo com os estudiosos nas Profecias de Nostradamus, foi dito:

Mongólia. Essa seria a terra natal do “Rei Destruidor do Mundo”.

A quantidade de imprecisões históricas nisso é adequada para quem usa Nostradamus como referência histórica, mas antes de entrar no artigo preciso apontar uma: reduzir as invasões mongóis à Batalha de Legnica é uma indescritível ignorância. Essa não foi sequer a maior ou a última batalha da primeira invasão mongol à Europa, muito menos a única. Por outro lado, durante a primeira invasão mongol essa foi a grande batalha mais à oeste, marcando uma espécie de limite ocidental para a expansão mongol.

O Japão sofreu grandes baixas mas nunca foi conquistado pelos mongóis, servindo como a fronteira oriental às conquistas mongóis. Essa é a conexão entre Legnica e o Japão. Ainda assim, sinto que a Batalha de Mohi seria uma referência melhor, mas bem, até agora só estou comentando do trailer, não é? De todo modo, isso marca o tom e cria expectativas de que Angolmois seja mais uma fantasia de história alternativa do que uma ficção histórica. A diferença é sutil, mas existe.

Para ficar bem claro o que eu quero passar: Kingdom é ficção histórica. Vinland Saga também. Os dois contam a história de personagens que viveram eventos históricos reais, ainda que esses eventos sejam, para efeito estético, modificados (mas não completamente alterados). Youjo Senki e Shuumatsu no Izetta são história alternativa. Se passam em cenários inspirados por eventos históricos reais mas contam uma história diferente, ainda que possam em alguns momentos se aproximar um pouco mais da história real. Essa diferença interessa muito mais a quem gosta de estudar a história, o que é o meu caso e sei que é o caso de alguns dos meus leitores. Angolmois, a princípio, tem tudo para ser ficção histórica. Até a gente considerar que a Batalha de Tsushima de 1274 foi um massacre mongol.

Não que derrotas não rendam boas histórias também. 300 de Esparta está aí para não me deixar mentir. Mas enquanto 300 pode ter sido uma derrota local, elevada historicamente à vitória moral, na prática a Batalha das Termópilas foi decisiva para a futura vitória grega na guerra. Sobre Tsushima definitivamente não se pode dizer isso. A pergunta que fica é: o que Angolmois vai fazer para transformar uma derrota acachapante e irrelevante em uma história interessante? Não há solução histórica para isso. O máximo que podem fazer é levar os protagonistas recuando de ilha em ilha até finalmente a vitória em Kyushu, na Batalha de Akasaka. Isso já seria um exagero mas ok, eu poderia aceitar.

No começo, Teruhi se escondia por trás da fachada do sarcasmo

E aí voltamos para Nostradamus. Algo que começa com Nostradamus não inspira confiança, no sentido de ser historicamente preciso, não é? E essa desconfiança não ficou só no trailer. Nesse primeiro episódio é mencionado que Jinzaburou, o protagonista, usa uma técnica de espada criada por Minamoto no Yoshitsune. E até aí sem problemas. Mas então ele luta contra quem parece ser o capitão da unidade avançada dos mongóis e o adversário loiro (isso é possível, de verdade, ok) afirma usar o mesmo estilo de esgrima que ele. Como é possível??

Pois veja você, no século 19 surgiu uma lenda que diz que Genghis Khan, o líder mongol que unificou as tribos e deu início às invasões por toda a Eurásia, na verdade não era outro senão o próprio Minamoto no Yoshitsune! A tese é absurda, não perca seu tempo com ela. Ou perca, é divertido. Mas ela em si é pura história alternativa. E isso não é problema nenhum! História alternativa pode ser tão divertido quanto ficção histórica (adoro Youjo Senki, embora minhas primeiras impressões sobre o anime tenham sido muito negativas, o que você vai perceber se tiver lido o artigo que linkei acima, hehe). Mas é importante saber com o que estamos nos metendo para calibrar corretamente nossas expectativas, e ajudar os leitores a fazer isso é um dos objetivos de um artigo de primeiras impressões, afinal.

Depois de todo esse longo ensaio sobre história alternativa e ficção histórica e em que categoria Angolmois se encaixaria, o que eu posso comentar sobre o episódio em si, sua estreia, personagens, etc? Eu gostei. Detestei o filtro de papel amassado que tem durante o episódio inteiro, mas tirando isso acho a animação competente. As cenas de ação foram bem coreografadas e o anime não precisou apelar para super close-up e ângulos bizarros que tornam as lutas confusas. Espero muito do Jinzaburou, do pirata Onitakemaru, da princesa Teruhi e, quem sabe, da ninja Kano. Essa última só apareceu no final, mas uma personagem feminina, e com habilidade de luta, no meio de uma guerra, sempre tem potencial de surpreender. Além de talvez ocupar o lugar sentimental que a aia da Teruhi, morta, deixou em seu coração.

A princesa se lava durante o episódio, mas não consegue remover a insegurança que a cobre da cabeça aos pés

É importante notar que o anime traça uma linha muito clara entre o “bem” e o “mal”. É verdade que os mongóis eram os invasores, mas categorizá-los simplesmente como “monstros” não faz sentido histórico. Em primeiro lugar, aquela era apenas a forma de “fazer política” da época. Os mongóis enviaram embaixadores para o Japão nos anos anteriores solicitando que o país aceitasse pacificamente a vassalagem – e não aceitaram. O Japão mesmo tentaria invadir a Coreia alguns séculos mais tarde. E mais outros séculos, conseguiria invadir Coreia, China, e boa parte da Ásia e Pacífico, em um evento bem conhecido, não é mesmo? Não estou dizendo que uma coisa anula a outra, de forma alguma. Quem faz isso são os japoneses ultra-nacionalistas que negam as atrocidades japonesas na Segunda Guerra e quando alguém argumenta que o Japão sequer pediu desculpas pelos seus crimes de guerra responde, entre outras bonitezas, que a China nunca se desculpou pela invasão mongol de 1274. Essa mesma retratada no anime.

É praticamente o Darth Vader da Mongólia

Os vilões estão sempre mascarados, assim podemos esquecer, ignorar ou fingir que não são humanos. Nesse aspecto, Angolmois é parecido com 300 de Esparta (e tantas outras obras de guerra, incluindo animes recentes como Kujira no Kora e sucessos de bilheteria mundial como Guerra nas Estrelas). Enquanto isso, nossos heróis não são oprimidos apenas pelos inimigos, mas são oprimidos em sua própria terra, pela qual, contudo, decidem lutar. Mais azarão impossível. A princesa Teruhi, a representante dos poderes locais, mantém uma fachada forte mas na verdade é frágil. Em dada altura do anime ela está literalmente nua, confessando para nós, expectadores, toda a sua fraqueza e insegurança. Isso também não é uma característica negativa em si, mas sim apenas algo que precisamos estar conscientes ao assistir: independente do quê, os japoneses serão pintados como heróis. Mas isso pode funcionar para o bem do anime, no final das contas. A caracterização da princesa, por exemplo, ficou muito mais interessante justamente porque ela não é uma personagem rasa. No final do episódio Jinzaburou a força a encarar suas fraquezas de frente, e essa cena não teria sido tão impactante se qualquer detalhe de sua caracterização prévia tivesse sido removido.

A verdadeira determinação, no final. Esse episódio foi basicamente a transformação da Teruhi.

Na Batalha de Tsushima real, mil mongóis derrotaram a ridícula guarnição de 80 guerreiros, liderados pelo administrador local (que seria o pai da Teruhi) e saquearam a ilha. Fizeram o mesmo nas três ilhas seguintes, até chegar em Kyushu, onde foram enfrentados pelas forças principais reunidas pelo xogunato Kamakura. As péssimas condições climáticas forçaram a maioria dos mongóis a retornar para os navios, sob o risco de ficarem presos no Japão sem conseguir retornar, e um tufão afundou a maior parte da frota – essa é a origem do termo Kamikaze, que significa “vento divino”. Os que restaram em terra foram derrotados em duas batalhas cruciais e recuaram, marcando o fim da primeira invasão mongol ao Japão. Que papel Jinzaburou, Teruhi e companhia terão nessa série de batalhas? Ou o anime ficará restrito a Tsushima? E por favor, vão retirar esse filtro da frente do vídeo nos próximos episódios?

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      No começo eu achei que fosse só em flashback, mas depois passou por cima da abertura, do episódio inteiro, do encerramento…

      É feio e distrai. Muito ruim. Parece marca d’água pra não “copiarem”.

  1. Eu fiquei perplexo com a estreia de Algolmois, foi boa demais!!!! Que historia mais interessante, que abertura linda, que personagens mais carismáticos, Princesa Teruhi e o vassalo zinzabou que já estou fazendo casal dos 2! A aula de historia foi interessante, mais agora vamos partir para a ficção onde o autor tem a liberdade criativa para fazer uma boa série com seus protagonistas triufando no final da guerra, episódio 5 estrelas, superou as expectativas da estreia. O filtro de tela não me incomodou em nenhum momento do episódio.

  2. Este primeiro episódio de Angolmois, me surpreendeu. Pelo trailer eu tinha ficado com a ideia, que Angolmois iria ser meio raso em termos históricos e iria forçar a barra a favor dos japoneses, mas este primeiro episódio não foi assim e isso foi muito bom.
    Depois de ler o artigo várias vezes e de ler o conteúdo de todos os links, eu aprendi muita coisa nova (obrigado pelos links Fábio). Eu não sei muito sobre a história do Japão do século XIII, com a excepção da área das tácticas militares e poder bélico em geral (a minha área de especialização histórica) e ler todos o dados históricos que colocaste foi muito bom. O uso do exemplo do senhor Nostradamus, para criar ligação entre os acontecimentos históricos referidos foi muito bom. E por falar em Nostradamus, o velho não era doido, como muita gente o pintava na sua época, mas não dá para utilizar as suas previsões como ferramenta de pesquisa histórica.
    Essa história boba do Grande Genghis Khan, unificador supremo de todas as tribos da Mongólia, ser o Minamoto no Yoshitsune, não faz sentido algum. Segundo o Heike Monogatari, o Yoshitsune, depois de finda a Guerra Genpei (que era entre os Minamoto e os Taira, com os Fujiwara como observadores), ele foi muito bem recompensado pelos seu serviços, mas acabou por ser traído e assassinado por um membro do clã Fujiwara. Se mais de 90% dos historiadores japoneses consideram os acontecimentos contados no Heike Monogatari verdadeiros, não tem como acreditar que o Yoshitsune era o Genghis Khan.
    Quanto aos animes que referiste como ficção histórica, eu ainda terei que ver Kingdom, tu já me disseste que ele é bom, tenho que o ver (se bem que não gosto muito da história da China). Vinlad Saga, mesmo sendo uma ficção histórica, acredito que se o anime for como o mangá, a maioria dos aspectos históricos estarão bons.
    Passando ao parágrafo que achei mais interessante, os mongóis não eram os monstros na Invasão ao Japão em 1274. Anos antes, o Kublai Khan, descendente directo do Grande Genghis Kan enviou três corpos de embaixadores ao Japão para negociar uma possível vassalagem pacifica, mas o que o Xógum e o Imperador fizeram, maltrataram e zombaram de esses 3 corpos de embaixadores, chegando mesmo a matar e mutilar alguns desses embaixadores mongóis. Claro com uma atitude execrável dessas, por parte dos dois líderes do Japão da altura, o Kublain Khan ficou furioso e decidiu reunir a maior frota naval da época, com o único intuito de dar uma lição ao orgulho e soberba dos japoneses. O Império Mongol tentou fazer tudo a bem, por meio político com o Japão, como mandava as políticas de guerra da altura, por isso no meu ponto de vista, o Japão mereceu muito ser invadido, os 80 anos de paz após a Guerra Genpei, deixaram os líderes e generais japoneses cheios de si mesmos e por isso apanharam bastante na primeira invasão mongol (na segunda invasão, a história foi outra).
    Referiste dois exemplos da atitude de memória curta dos líderes japoneses, sendo que vou começar pela tentativa de Invasão da Coreia por parte do sucessor de Oda Nobunaga, Toyotomi Hideyoshi. A frota naval japonesa enviada por Toyotomi para conquistar a Coreia (ou pelo menos invadir), era composta por 130 barcos, muitos deles barcos mercantes, contra 12 barcos Tartaruga Coreanos, a frota japonesa levou uma surra, já que não esperavam que os 12 barcos Coreanos fossem os primeiros couraçados do mundo e também não esperavam que esses couraçados estivessem armados com canhões de bronze. Após essa batalha naval, só cerca de 30 barcos japoneses conseguiram fugir, enquanto os Coreanos não perderam um único barco.
    Já no século XX, os japoneses Ultra-Nacionalistas que fizeram cada barbárie na China e na Coreia na Segunda Guerra Mundial, usavam argumentos de criança, a China e a Coreia não devem pedido de desculpa algum pelas invasões Mongóis de 1274, já que ambos os países eram controlados pela Mongólia e pelo seu Líder Kublai Khan. Se o Japão queria um pedido de desculpas, que fosse pedir isso à Mongólia, mas isso não tinha geraria uma desculpa para os japoneses Ultra-Nacionalistas invadirem a Manchúria e mais tarde a Coreia e as restantes ilhas do Pacífico.
    A história dos 300 de Esparta e a sua resistência heróica contra os exércitos maciços dos Persas, é muito boa e inspira a imaginação. Claro que os 300 de Esparta não iam todos nus como no filme de Hollywood, eles usavam a melhor armadura Helénica da altura, que era feita de linho, couro e resina especial, tais armaduras aguentavam um tiro de arco à queima roupa e também os golpes de espada. E claro, não posso esquecer do mítico escudo de metal que esses guerreiros usavam, esse escudo era essencial para manter a formação de falange, formação que causaria muitas dores de cabeça aos persas. Eu considero a derrota dos 300 foi a chave para a motivação do povo grego se unir e destruir os invasores na famosa Batalha das Termópilas.
    Passando mesmo ao anime, tirando o filtro feio, eu adorei os detalhes, os guardas da princesa Teruhi, estavam trajados de forma perfeita, todos eles usavam os arcos e as naginatas e claro armaduras samurai de infantaria. A opening já deu uma sensação que uma batalha em grande escala poderá ocorrer, sendo que os famosos escudos de madeira japoneses, estarão presentes (como manda a tradição).
    Os personagens parecem interessantes, sendo que a princesa, mesmo parecendo dura e séria, lá no fundo é fraca contra a violência. Eu não tenho nada contra esse facto, mas acho estranho que uma filha de um samurai de alto escalão, aparente não conhecer nada sobre a guerra e nem parece saber usar bem uma naginata ou até mesmo um punhal (o arco ela deve saber usar, a imagem promocional mostrou ela com um arco). Será que veremos algumas Onna Bugeisha a proteger a princesa e a sua terra, se elas não aparecerem não faz sentido (talvez aquela serva ninha da princesa, tape essa falha).
    Passando ao grupo do Jinzaburou, o que esperar de um samurai que foi para o desterro, um pirata com pavio curto e mais personagens com motivações e índoles diferentes. O Jinzaburou, parece ser alguém bem mais sério, do que apenas um samurai bom de luta, se ele era um general respeitado, ele deve ser inteligente. Tenho muitas expectativas no pirata, quero ver ele a dar uma surra nos mongóis com um Kanabo, não vai haver espada ou escudo que aguentará um golpe dessa arma.
    Aquela luta entre o Jinzaburou e o agente mongol foi bem roubada para o lado japonês, o agente mongol tinha melhor armadura e melhor espada, mas no entanto teve que fugir (os companheiros dele, eram npcs bem fracos, foi tudo derrotado na hora, as armaduras dos mesmos eram cortadas como se fossem manteiga, em vez de couro reforçado).
    A última parte do episódio foi a mais interessante, foi bom e satisfatório (para mim), ver a princesa Teruhi abrir os olhos para as consequências que virão na guerra que se avizinha. Agora basta saber se a Princesa Teruhi e o seu pai, vão mandar evacuar as pessoas e vão andar de ilha em ilha até encontrarem segurança, ou se vão montar uma resistência. Caso a Princesa e o Jinzaburou optarem pela resistência, o final deles não vai ser muito bom (tal como o resultado da verdadeira Batalha de Tsushima).
    Excelente artigo de primeiras impressões de Angolmois Fábio.

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