John Carpenter, cineasta estadunidense que deu ao mundo Halloween – A Noite do Terror (1978), divide as histórias de horror em dois tipos. No primeiro, isolamento e/ou distância colaboram para o efeito e as ações do monstro, em lugares como castelos, florestas e mesmo oceanos. Já o segundo é caracterizado pela proximidade, com o monstro, inclusive, podendo fazer parte do dia a dia da vítima. Happy Sugar Life pertence ao segundo grupo. Algo que a pobre Shoko sente na carne, com o seu sangue a pintar de vermelho o horror da existência. Acredito que esse seja um spoiler inevitável. E também o letreiro: Satou é o monstro. O monstro em que a transformaram, e que a garota abraça com determinação para preservar sua “doce vida feliz” ao lado de Shio. Satou é uma assassina, não há surpresa nisso. Mas a morte de Shoko é a mais brutal e gráfica, a única que testemunhamos em detalhes até a última lágrima. Um episódio estarrecedor, que nos recorda o quão perto está o monstro, e do que a criatura humana, perigosamente humana, é capaz de fazer para manter seu quinhão de felicidade.

Shoko tem um fim tão violento por desejar ardentemente entender, aceitar e ajudar. O seu senso de justiça e o amor por Satou – em seu momento derradeiro – são sentimentos irreconciliáveis. Impossível equilibrá-los, já que, para Satou, não há lugar para Shoko. A afeição e os valores da garota não lhe interessam mais. Por isso, a lucidez, em meio aos distúrbios emocionais que inundam o universo de Happy Sugar Life, encontra seu trágico desaparecimento nesse mundo ordinário.

O episódio começa com Taiyo Mitsuboshi colocando em prática o plano de Satou de passar uma falsa pista sobre o paradeiro de Shio a Asahi, para fazê-lo ir a outra cidade, afastando-o, desse modo, do epicentro, do rastro da criança.

Asahi já comeu o pão que o diabo amassou, então qualquer pista sobre a irmã tem validade.

Asahi e Taiyo têm um encontro tenso. A história de Mitsuboshi é forçada. Um lenço, com o nome de Shio bordado nele, deixado por alguém em uma estação. Asahi resiste em acreditar. Algo não combina. Ele reconhece Taiyo de quando o salvou de dois delinquentes no parque, porém o rapaz não faz alusão ao fato até ser confrontado por Asahi. A situação se complicada quando o irmão de Shio acusa Taiyo de ser um mentiroso nojento como qualquer adulto. Imediatamente, a lembrança do abuso que sofreu de sua chefe vem a sua mente, o que o leva a uma reação violenta. Asahi se desvencilha de Taiyo e foge. Mais à frente, arrepende-se e volta, contudo Taiyo já não está na ponte.

O plano de Satou tem suas fragilidades, no entanto, o desespero faz Asahi se apegar a qualquer indicio que o leve até Shio, mesmo um vestígio tão pouco confiável como o apresentado por Mitsuboshi.

Mitsuboshi é um dos personagens mais patéticos de Happy Sugar Life: entre a piedade e a repulsa.

E o jovem traumatizado, que não suporta que mulheres adultas se aproximem dele, permanece encantado pela promessa de Satou de deixá-lo ver Shio. A manipulação da jovem tem força graças a sua falta de escrúpulos. Ela não se furta em usar Shio como isca, ainda que tudo indique que a traição e a morte façam parte do futuro de Taiyo.

Asahi se despede de Shoko. Ele decide verificar a pista passada por Mitsuboshi. A cena entre eles tem uma informação sonegada, que poderia talvez fazer diferença para ambos. Shoko, depois de Asahi fornecer a descrição, sabe que Taiyo é a pessoa que conversou com o menino. Porém, Shoko quer evitar sofrimento a Asahi, entende que ele precisa encontrar a felicidade. A garota deseja proteger a todos, o máximo possível.

A jovem mostra preocupação por Asahi, que explode, não suportando mais os dias terríveis de desaparecimento de Shio. O que ele quer, a única felicidade que conhece é junto a mãe e Shio, e é esse reencontro que almeja. O seu futuro é trazer o passado à vida, reconstruí-lo.

Shoko confessa seus sentimentos por Asahi, que tem relação com admiração e respeito pela sua determinação. Ela o beija para demonstrar o que sente, e para revelar que ele não está sozinho. Trocam telefones. O último ato de um vínculo que já nasceu sob as bençãos da tragédia.

Um momento romântico belo e triste. Um pouco de felicidade antes da jornada sem volta.

Agora é Shoko que decide ir à luta, tentar se reaproximar de Satou. A tempestade está por vir. Bons sentimentos podem acarretar efeitos catastróficos, e nessa espiral, a inocência pode ser a principal vítima.

Satou está feliz. Ela testemunha a partida de Asahi. Decide comprar bolos para comemorar com Shio, no caminho também adquirir anéis – os mesmos vistos no primeiro episódio.

Algo de errado não está certo nesta cena. Os dias perfeitos de Satou podem estar chegando ao fim.

Shio alegra-se com a surpresa. Depois do banquete de doces, elas conversam, é quando a criança manifesta a vontade de fazer um bolo para Satou. A declaração de Shio confirma/revalida o seu paraíso na terra. Ela pensa pela primeira vez no futuro. O momento idílico culmina com a sugestão de casamento proferida pela ingênua Shio a Satou, para que permaneçam, assim, juntas para sempre. Satou, em êxtase, tem a ideia de buscar flores para a celebração de união, e Shio, entusiasmada, atira-se sobre Satou, abraçando-a já fora do apartamento. A cena é presenciada e fotografada por Shoko. Tem-se início uma das cenas mais angustiantes do horror em forma de anime.

O flagrante que conduz à tragédia: Satou ativa o modo assustadora. Pobre Shoko!

A transição do mundo doce, pacífico e colorido em que Satou vive com Shio para cores menos vibrantes e cinza, preto e vermelho é bem executada e cria o clima estarrecedor do que está por vir. O gesto violento de Satou dominando e atirando Shoko para o seu apartamento entra em colisão e se adequa ao mesmo tempo ao triste poema de um pássaro que tenta alcançar o coração de uma garota, a música de fundo e ao som da chuva. A discussão entre elas é silenciosa, somente mais à frente linhas do diálogo são reveladas. Shoko abre seu coração novamente para Satou, deixando claro que não desistirá da amiga. Ela se encaminha até a porta, prepara-se para sair, quando é surpreendida por Satou, que a segura por trás e a esfaqueia no pescoço.

Os bons sentimentos encaram o monstro. Como chamar à razão alguém que já está consumida pelo próprio mundo que criou?

A cena da morte de Shoko é realista, com a jovem lutando pela vida, as unhas arranhando a pele da agressora, o corpo se debatendo, as lágrimas escorrendo. No entanto, também é surreal, como uma tela em vermelho e rosa, que redimensiona o crime, tornando-o a ação maquinal da indiferença. Shoko, a ex-amiga, é um obstáculo a ser removido.

Satou age com um sangue-frio assustador. Transforma-se na quintessência do horror. É a superação do afeto e da repulsa. Já Shoko tenta com todas as suas forças, mas não há lugar para os bons sentimentos, que acabam apenas precipitando o seu próprio fim, o fracasso da generosidade diante da barbárie.

Brutal! Brutal! O horror! O horror! Satou se livra com frieza de Shoko, sua ex melhor amiga.

Shio está presente quando Satou agarra violentamente Shoko e a joga para dentro do apartamento. As atitudes da criança de ir para o quarto, deitar na cama e tampar os ouvidos com as mãos, para não ouvir a discussão, não parecem ser consequência da orientação de Satou, mas lembrança do inferno pessoal que vivia com sua família. Gestos automáticos de quem conhece abusos e agressões.

Um episódio perturbador, com uma direção segura, que não cai no exagero ou no caricato em nenhum momento. A psicopatia de Satou é o horror em sua face mais terrível, e o programa pontua essa asseveração. Satou é o monstro que vive perto de suas potenciais vítimas, que pode alcançá-las por aparentar normalidade.

Com Asahi em posse da foto que Shoko tirou de Satou e Shio, não tem como fechar às portas escancaradas pelo conflito entre os bons sentimentos e o monstro. O futuro está morto!

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    O tom de tragédia cada vez mais alto, cada vez mais esse anime se supera. Em especial nesse episódio a reação do Asahi me pareceu doentia, foi uma única expressão, mas mudou totalmente a visão que tinha dele. No próximo episódio provavelmente teremos um conflito entre ele e a Satou e agora estou imaginando que os dois podem ser mais parecidos do que parecem, ambos projetam sua felicidade em outra pessoa e estarão dispostos a tudo para ter a posse dela. Shoko morreu e o mesmo pode acontecer com o mitsuboshi, eu preferiria que ele conseguisse superar esse trauma e tivesse tal evolução; quando Satou fez sua chantagem, uma parte dele sentia que era cilada e tentou rejeitar, mas cedeu diante do “presente” da meia… Voce se tornando aquilo que você odeia, ele é o mais próximo de perceber isso. Além deles, resta o professor pervertido e a tia que só fez figuração, que papel terão os dois, eu nao consigo imaginar.

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