Uma das principais forças de Asobi Asobase é o trabalho de suas seiyuus. E não apenas das que dão voz às protagonistas, mas também aquelas que proporcionam vida ao elenco secundário. E agora junta-se ao grupo a dubladora Shuu Uchida, ou melhor, Fujiwara, uma excelente aluna em inglês, cuja imagem está associada à literatura clássica japonesa por causa de sua aparência, que lembra ilustrações antigas. Uma ação da garota, incluindo uma chantagem, ajuda a criar a situação que domina o décimo episódio: a suspeita quase obsessiva – com evidente desejo – de Kasumi a respeito de Aozora-san. Kasumi, aliás, domina os segmentos, com sua ansiedade nervosa, incompreensão de sentimentos e delírio criativo. Um episódio hilário, em que muita coisa acontece: um beijo, a volta da inquisidora Hanako, a produção de um filme tosco e as meninas tentando descobrir o gênero de Aozora-san.

E Aozora é o X do problema que há no episódio. Porém, a atribuição do deslize (caso assim se entenda) fica a cargo do(a) espectador(a). A comédia, sabemos, é subjetiva, por isso a forma como a travestilidade ou cross-dressing é mostrada na série pode incomodar alguns, outros podem apenas embarcar nas estripulias insanas, ignorância e tolices das passatempeiras, por entender que há nelas um desconhecimento e uma estupidez legítimos e não maledicentes.

O episódio começa com Fujiwara, a estudante que substitui Olivia na competição de discurso em língua inglesa, refém de um dilema idêntico ao da loira. Todos pensam que ela tem domínio da literatura clássica japonesa por causa de sua aparência, que remete às mulheres do Japão feudal, mas, na verdade, a jovem detesta a disciplina. Cansada do equívoco, Fujiwara deseja manter conversação em inglês com Olivia, já que se sente confortável com o idioma. Apavorada, a passatempeira foge, e ao conversar com Hanako no corredor, não percebe a presença de Fujiwara, que passa a tomar ciência de seu segredo.

No desespero, Kasumi apela para um kabedon. Fujiwara tem uma queda pela passatempeira.

Atordoada pela descoberta, Fujiwara procura Kasumi, a quem interroga. Depois disso, a situação segue um rumo inesperado. Kasumi apresenta o kabedon a Fujiwara. A atitude é mais fruto do desespero que uma tentativa de intimidação, tanto que implora a estudante que não revele o que sabe sobre Olivia para a escola.

Fujiwara fica impressionada com o kabedon e com a ação de Kasumi, e impõe uma condição ao silêncio: que elas saiam para um encontro. Kasumi recebe com surpresa a chantagem da colega, contudo, encabulada e querendo proteger Olivia, está disposta a aceitar a proposta, entretanto, é salva por Aozora-san. Fujiwara é obrigada a recuar. Kasumi agradece Aozora-san, para, em seguida, ser surpreendida por um beijo.

O contato de Aozora-san com os lábios de Kasumi é do tipo “beijo roubado”, não consentido. E isso é algo comum em mangás e animes yuris, como para transmitir o nascimento de algo inesperado, talvez nunca imaginado. Pode-se entender como um clichê, que auxilia na criação de um duelo íntimo entre a atração e a negação (um ideário sobre relação, paixão, sua gênese e fortalecimento que pode ser analisado, contestado e reavaliado).

O momento que antecede o beijo: novos sentimentos para Kasumi.

Só que Kasumi não consegue se abstrair do fato, sentindo-se confusa e intrigada. O segundo esquete traz um desdobramento do gesto de Aozora-san. Hanako cria um jogo para levar Olivia e Kasumi a falar a palavra cocô. Como sempre, a garota eleva o índice de loucura à estratosfera. Ela frauda o passatempo para que não haja escapatória e a palavra surja durante a realização do jogo. Mas a primeira rodada é um fracasso. Porém, Kasumi compreende mal as dicas de Olivia e acaba por entregar que foi beijada no corredor.

Instala-se a crise. Hanako, considerando o beijo uma traição, julga Kasumi como se ela fosse uma bruxa. É impagável a indumentária de inquisidora de Hanako, assim como seu descontrole e inveja. A sessão de insanidade só termina quando Olivia chama a atenção que o beijo deve ter sido entre duas garotas. O que deixa Hanako aliviada, propalando como é indestrutível o laço de amizade. entre duas garotas.

Hanako é a personagem inteligente sem noção do grupo, sendo facilmente levada pelas suas emoções. A forma como usa o vínculo entre garotas, negando-o ou o afirmando conforme à conveniência ou à necessidade, revela o lado obscuro dela, ao mesmo tempo mostra o quanto Hanako carrega dos pré-conceitos e expectativas incutidos nas mulheres. A comicidade e a ridicularização são duas maneiras potentes de desvelar as opressões, e, geralmente, Asobi Asobase não perde a oportunidade de explorá-las.

A inquisidora Hanako: o primeiro beijo de Kasumi gerando o retorno As bruxas de Salém.

O terceiro segmento é problemático, mas diverte (como já mencionado, a comédia é subjetiva), com a dúvida de Kasumi sobre o gênero de Aozora-san. Ela sonha com a misteriosa garota, praticando um gesto que expõe o seu órgão genital. Kasumi acorda como se despertasse de um pesadelo.

Na aula de economia doméstica, ela repete a palavra pênis uma porção de vezes, assombrada pelo sonho. Esse é o alerta para quem tenta solucionar o enigma, antes que seja consumido por ele. A sua curiosidade por Aozora-san é uma mescla de desejo e medo, o que parece apavorar ainda mais Kasumi.

Então tem-se o estranho pedido da jovem às amigas: olhar a calcinha de Aozora-san. As tentativas não resultam em nada, tendo um desfecho hilário, com a cabeça de Hanako presa entre as pernas de Olivia.

O pesadelo de Kasumi: o mistério sobre o gênero de Aozora assombra a garota, mas também a fascina.

Aqui, novamente, é possível perceber que o programa mira na estupidez das passatempeiras. Inicialmente, Hanako e Olivia ficam constrangidas com o pedido de Kasumi (que está mais envergonhada que elas), mas aceitam o desafio. Sendo o Japão um dos países líderes em assédio e as gravações de roupas íntimas sem permissão infestando as redes de compartilhamento de vídeo, um esquete sobre olhar calcinha pode ser um duro golpe. Contando ainda com a dúvida concernente a Aozora-san, temos uma sequência polêmica. Mas Asobi Asobase sabe jogar com inteligência sua comédia de humor negro, apostando nas gafes e nas galhofas para que a insensatez flua como uma torrente, e com Aozora-san conduzindo Kasumi até a enfermaria, em um momento quase romântico.

O último segmento é o mais absurdo, com o clube filmando uma ficção científica, em que Hanako interpreta a vilã e Olivia é uma alienígena sexy. O melhor é Kasumi, que dirige o curta-metragem, a partir de uma ideia que teve após assistir Star Trek (Jornada nas Estrelas). Kasumi não tem um olhar crítico para as cenas, lembrando muito o mítico Ed Wood, que chegou a ser eleito o pior cineasta de todos os tempos.

A insana direção de Kasumi para um curta sci-fi: Olivia, a alien envergonhada.

Chisato-sensei tenta chamar as meninas à realidade, questionando que o clube de passatempos precisa se preocupar em promover as suas atividades. O máximo que ela consegue é que Kasumi inclua alguns brinquedos, o que torna o filme ainda mais divertido e esdrúxulo. No final, um cartaz anuncia a segunda temporada da série. Uma brincadeira? Um pedido? Um anúncio?

Uma segunda temporada, por favor! Eu nunca pedi nada, produtores.

O episódio 10 de Asobi Asobase tem as passatempeiras enfrentando seus temores e envolvidas em confusões que movimentam a série para os seus últimos capítulos. A preocupação de Kasumi com a identidade de Aozora-san tem seu peso, certo modo, atenuado porque é nítido que há uma atração e um sentimento a se descobrir entre elas.

Mais um episódio divertido, com uma pitada de sensualidade e a ansiedade e o jeito encabulado de Kasumi proporcionando uma comédia sobre afetos, dúvidas e medo, sem perder de vista o absurdo.

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    Só como referência. A roupa de inquisidora da Olívia, principalmente a toca e os óculos de aviador, são uma referência ao grupo Monty Phynton, que tinha a esquete da inquisição espanhola, onde tinha um inquisidor que usava a mesma toca e óculos de aviador

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