O penúltimo episódio de Chio-chan no Tsuugakuro tem seus dois segmentos focados em suas personagens e em assuntos cotidianos, ambos ligados, de alguma maneira, à saúde, já que tanto a privação de sono, quanto os odores corporais podem acarretar mal-estar (físico e psicólogo) e até significar doenças. Como se trata de uma comédia, o que não falta é humor a respeito dessas condições. Nesse episódio, o absurdo não é algo tão presente, a sua comicidade é extraída das ações e reações das personagens a partir de uma situação comum – que não deixa de ser extrapolada ao máximo – e dos monólogos internos. Os esquetes são engraçados, valendo-se do carisma de Chio-chan, e da química poderosa que a garota tem com Manana. Porém, é notável que falta o tempero do exagero, uma loucura a mais. Ainda assim, o resultado é satisfatório, com alguns momentos inspirados.

A respeito do primeiro esquete, pesa sobre ele dois problemas: a) é um tanto longo, desse modo, arrasta-se um pouco além da conta, o que leva a uma conclusão que desperta risos, porém sem alcançar o potencial que a sequência poderia atingir; b) o abuso de planos reveladores – com close-ups – para mostrar o corpo da protagonista, principalmente a sua calcinha. Nada contra a exibição de corpos, até há muitos elementos a favor. A questão é a maneira gratuita que o corpo adolescente é desnudado para atender um fanservice desnecessário. O ecchi é bem-vindo, mas as perguntas “que corpo é esse”, “como mostrá-lo” e “por que mostrá-lo” são essenciais para que o erotismo, a sensualidade e a nudez estejam no lugar e na hora certas, para que não ressoem como uma mera exploração do corpo feminino ou uma exigência mercadológica para atender os desejos de fãs que não dispensam as oportunidades de ver a roupa íntima ou os seios de suas waifus. Só que em Chio-chan no Tsuugakuro o fanservice parece algo despropositado, realmente dispensável.

Chio-chan excitada com o jogo: vitória, traição e enriquecimento virtual. Na vida real, sono e artimanhas para enganar a mãe.

O esquete traz Chio-chan e sua obsessão por jogos online, o que tem como consequência a dificuldade de dormir. É ótimo ver novamente o lado gamer de Chio, e o quanto ela perde a noção das coisas e do tempo. Jogando Payday, ela executa um assalto a banco com outros três participantes da quadrilha. Com a tarefa já finalizada, a garota trai seus companheiros, alvejando-os sem dó nem piedade e ficando com o produto do roubo. Uma ação condizente com seu lado competitivo – que não tem reflexo no seu cotidiano. Excitada com o sucesso de sua estratégia, ela começa a imaginar o que poderia fazer com a grana (não, Chio, você não pode – e nem deve – assaltar um banco).

E o sono não vem. Será que Morfeu não gosta de gamers?

Por causa da distração, a adolescente é quase flagrada pela sua mãe, que entra de maneira repentina no quarto. Chio consegue fingir que está dormindo, revertendo para si a situação.

No entanto, o sono necessário, providencial para recuperar-se da fadiga não surgi, e ela apenas cochila, e desperta suspeitando estar atrasada para escola. Porém são 4 da manhã. A dúvida se dorme ou permanece acordada exige todo o seu poder de raciocínio, levando em consideração os prós e os contras, já que aproveitar o resto da madrugada para ter um bom período de sono pode significar chegar atraso para as aulas, enquanto aguardar o dia amanhecer terá como consequência um cansaço colossal. Nessa decisão, está em jogo sua teoria de permanecer socialmente abaixo do medíocre, já que qualquer deslize pode chamar a atenção e conduzir a uma má interpretação dos fatos.

O dilema de uma vida: dormir e correr o risco de chegar atrasada à escola ou não dormir e ficar parecendo um zumbi o resto do dia.

Chio-chan é arguta e meticulosa, então encontra uma saída para seu dilema no próprio jogo online que a manteve acordada. Ela cobre o rosto com uma sacola de loja e dorme no ponto de encontro à espera de Manana, que a desperta à base de algumas pauladas na cabeça.

O segmento diverte na medida em que o prazer de jogar de Chio-chan entra em colisão com a necessidade de dormir, com a sua mãe apresentando-se como um risco para o seu sucesso (o que só reforça o quanto ela é competitiva). E a sua reflexão para decidir se deve dormir ou esperar amanhecer também é um ponto alto. Se a sequência fosse um pouco mais curta e o seu final menos trivial (acertar Chio com um pedaço de madeira é algo a se esperar de Manana), o resultado seria mais surpreendente.

Em relação à surpresa, o segundo esquete é hilário, com Manana preocupada com o cheiro de sua axila, enquanto descobre um terrível odor vindo da cavidade debaixo do ombro de sua melhor amiga.

Ao obrigar Chio a cheirar a sua axila, Manana tem a ideia de sentir também a fragrância exalada pelas axilas da garota. O que ela encontra ao entrar em contato com as glândulas sudoríparas de Chio-chan é um odor tão forte, que o classifica como selvagem, “uma carne selvagem”.

Asobi Asobase no caminho de Chio-chan. Se fosse a Olivia, com certeza, mataria uma na primeira fungada.

Há um verdadeiro tumulto no que concerne aos sentimentos de Manana. Da paranoia inicial com o próprio cheiro, ela passa a se solidarizar com Chio-chan, até culpando-se por não ter notado o mau cheiro da amiga, o quanto isso a afetou, a ponto de Chio sentir-se constrangida e querer viver abaixo do medíocre para não ser percebida. Logo em seguida, ao se lembrar de um garoto pelo qual nutria sentimentos românticos, ela responsabiliza Chio pelo desfecho infeliz com o colega de classe e outros insucessos, pois o odor desagradável da amiga tornou-se uma sentença de morte social também para ela.

A sinceridade genuína e sem maldade é uma foice afiada a atravessar o peito. Hosokawa da foice da morte.

O esquete é valorizado pela variação do estado emocional de Manana, que após a compaixão e a acusação, passa para uma declaração de amizade eterna a Chio. O seu monólogo interior é impagável, e o modo como seu rosto e gestos refletem seus doidos pensamentos faz Chio se preocupar, o que coloca em cena Yuki. A chegada da popular estudante é comemorada por Manana, já que ela é famosa pela sua sinceridade (sendo apelidada de Hosokawa da foice da morte por Manana). O fedor de Chio não é detectado por Yuki, que cheira uma das axilas dela. Porém, a própria Chio ao farejar a outra axila sente o tal odor selvagem, que logo informa ser resultado das lambidas de seu cachorro.

“Olhos nos olhos/ Quero ver o que você faz”. Poderia ser um momento yuri, mas… estranho ver Manana confessar que esteve a fim de um garoto (alô, episódio 9).

A razão para o mau cheiro emanado da axila de Chio não é tão criativa, mas mantém a qualidade do segmento. E o visual criado para o efeito produzido pelo seu odor, aliado as frases como “cheiro de cair o nariz”, é bastante eficiente. Além disso, o design de som chama a atenção com os rosnados que acompanham a ideia de carne selvagem em um dos diálogos do esquete.

A segunda parte se encerra com a sinceridade de Yuki sobre o motivo da paquera de Manana não ter evoluído: simplesmente porquê o rapaz é superficial, sendo muito apegado à beleza. Um golpe duro para a jovem. Mas a Hosokawa da foice da morte é tão gentil em sua brutal franqueza, que não se torna desagradável ou insensível. Manana consegue manter o equilíbrio, até encena uma plena aceitação do desenlace de seu flerte malsucedido. E tem certo sabor de novidade essa Yuki sincera, demolidora em seu hábito de nunca mentir.

A famosa sinceridade demolidora de Yuki atinge Manana à queima-roupa. Mas Manana é bem bonitinha, Hosokawa-san!

O episódio 11 de Chio-chan no Tsuugakuro concentra-se em suas personagens, permitindo que suas ações e reações guiem e criem à comicidade dos segmentos em vez de apostar no absurdo de situações que saem do controle. Chio-chan e Manana realmente são uma das melhores duplas de 2018, funcionando em praticamente todas as loucuras que se envolvem. Apesar da falta de ousadia, dos esquetes com duração extensa e do abuso de fanservice, o episódio tem seus momentos e mantém a série na rota dos bons desempenhos.

Se o absurdo retornar com força total no último episódio e o programa conseguir sustentar esse olhar mais atencioso às personagens, o desfecho tem tudo para ser satisfatório, conquistando um lugar honroso para Chio-chan no Tsuugakuro no coração dos(as) espectadores(as).

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