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“Tudo deveria ser destruído”

Tokyo Magnitude 8.0 é um anime de 2009, dirigido por Masaki Tachibana (Koi to UsoPrincess Principal) no estúdio Bones. Meros dois anos antes do Grande Terremoto de Tohoku, que atingiu o nordeste do Japão e devastou Sendai.

Para quem vive em um país que não sabe o que são terremotos ou desastres naturais de grande escala, soa coincidência macabra. Enquanto obviamente foi uma coincidência, era uma que seus autores sabiam que ia acontecer. Terremotos fazem parte da história do Japão. Aprender a conviver com eles moldou toda a filosofia de um povo. O que não torna menos dramático quando acontece, é claro.

 

O desmoronamento de uma via expressa

 

Esse comentário é importante porque explica um pouco as escolhas criativas de Tokyo Magnitude 8.0. Em sua primeira metade, o anime parece uma história de sobrevivência durante um desastre, enquanto a segunda é muito mais intimista e, com as personagens já fora de perigo, tem a ver com a angústia por não saber o destino de entes queridos e formas de lidar com toda a dor que há ao seu redor.

Assim, o terremoto que destrói a maior cidade do mundo é reduzido a mero instrumento de roteiro para explorar a psiquê das pessoas afligidas por ele. Os avôs que perderam os netos, crianças ainda, que vieram do interior para visitar. A colega de classe que perdeu a mãe.

Tragédias diferentes mas que compõem um mesmo mosaico. O avô diz que ele é que deveria ter morrido. Já viveu bastante, os jovens deveriam sobreviver. Mas seria insensível perguntar para aquela garotinha de 12 anos se ela concorda.

 

 

Tanto a história de sobrevivência da primeira metade quanto a história humana da segunda metade são excelentes. A transição entre elas, por sua vez, deixa muito a desejar – em particular por causa da reviravolta que começa a se armar ali e se efetiva apenas nos episódios finais.

Mas isso sou eu, brasileiro, que quando o chão treme é porque estou dentro de um ônibus em uma rua esburacada. Para um japonês talvez fosse um anime humano desde o começo. E sendo totalmente honesto, todos os elementos já estavam ali desde o começo, eu é que me deixei fascinar pelas cenas deslumbrantes da catástrofe.

 

Mirai, Yuuki e Mari

 

Mirai e Yuuki são irmãos. Ela é uma pré-adolescente de 12 anos, e ele uma criança de 8. Na prática, os dois ainda são crianças, ela é só um pouquinho mais velha, o suficiente para entender melhor o mundo e conseguir assumir responsabilidades. E ela detesta isso.

Sua família parece ter um nível razoável de vida, mas para tanto pai e mãe precisam trabalhar. Como resultado, Mirai frequentemente precisa buscar o irmão na escola ou sair com ele ou de qualquer outra forma cuidar dele.

Não ajuda que seus pais vivam uma relação desgastada e, por causa do estresse do dia a dia, travem pequenas discussões mesquinhas (bem longe de brigas, a família ainda é, mais ou menos, saudável) na frente dos filhos. Isso tem efeitos profundos nas duas crianças.

Mirai é uma típica adolescente rebelde, reclama muito de tudo, responde os pais, faz as coisas com má vontade e, no geral, ainda que goste de verdade do irmão, o maltrata ou destrata só porque sim.

Yuuki é uma criança super-positiva, e a forma como ele se preocupa com os demais membros da família me faz pensar imediatamente em crianças que começam a carregar um fardo muito maior do que são capazes, que são boazinhas demais, ou positivas demais, porque essa é a forma que elas encontram de manter unida a família que do seu ponto de vista parece que pode se desmanchar a qualquer momento.

E foi isso que ele fez no começo da história, antes do terremoto. Se lembrando de um dia que foi com a família toda se divertir em Odaiba, perto da Rainbow Bridge. Yuuki inventa um pretexto para ir para lá (uma feira de robôs), mas sua mãe não pode ir e diz que vá apenas ele e Mirai, que obviamente protesta, mas acaba levando o irmão. Está tudo bem porque era Mirai mesmo quem Yuuki mais queria levar.

Naquele dia o terremoto aconteceu. Magnitude 8 na escala Richter, catastrófico. Os irmãos estavam separados, pois Yuuki havia ido ao banheiro dentro de um shopping e Mirai já havia saído, e o estava esperando na passarela. A garota se desespera.

É a única coisa que crianças podem fazer nesses eventos, não é? Desesperar-se. Ela se desespera e corre para dentro do shopping, na direção oposta à massa, que está procurando o caminho da saída. Uma mulher, chamada Mari, a encontra e a ajuda a procurar Yuuki. Elas encontram.

Crianças sozinhas têm pouca chance de sobreviver, Mari é quase uma enviada divina, e continua cuidando dos irmãos no resto do trajeto até onde pôde (ela também tem sua família, afinal). Sinto que os pais de Mirai não agradeceram Mari o suficiente pelo pequeno milagre que só foi possível graças a ela, mas é compreensível.

 

Mari visita a casa de Mirai ao final do anime

 

Como já adiantei, a primeira metade do anime é sobre sobrevivência. Pessoas desesperadas caminham em longas filas pelas ruas, se perdem no meio da multidão, tropeçam, caem, são pisoteadas. E ainda estão feridas.

Enquanto isso, terremotos secundários continuam acontecendo. Estruturas em ruínas continuam cedendo. É particularmente chocante assistir o colapso da Rainbow Bridge e da Torre de Tóquio – dois marcos na paisagem importantes na cidade, sim, mas também para os irmãos em particular.

Tóquio se transformou em escombros e continua desmoronando. A relação entre Mirai e Yuuki logo atinge esse ponto também. Yuuki é muito novo e obviamente está muito assustado. Como uma criança de sua idade, ele busca se tranquilizar com os mais velhos – com a irmã. Fica perguntando tudo para ela o tempo todo.

Mas acontece que Mirai também está assustada, e infelizmente ela já é velha o bastante para entender que falar não vai mudar nada, e que ela de todo modo é muito fraca para fazer qualquer coisa. O irmão perguntando insistentemente se os pais ainda estão vivos só alimenta o fogo púrpura do medo da própria Mirai, e eventualmente ela estoura com Yuuki. A culpa é dele! Estão separados dos pais porque ele quis vir para aquela exposição estúpida sobre robôs!

Mirai não acha de verdade que a culpa é do irmão. Ela é só uma criança assustada.

 

Mirai e Yuuki brigam

 

E é essa discussão entre os irmãos que dá o sinal para a virada de tom do anime. Depois disso eles logo chegariam em vizinhanças mais seguras. Destruídas sim, mas sem muitas construções muito grandes para desabar, sem massas de pessoas perdidas e machucadas tão grandes.

Lugares mais familiares também, mais perto de casa. Começam a reencontrar conhecidos. Chegam na empresa onde Mari trabalha e encontram uma colega dela morando lá. Ela vive sozinha mesmo, e ficou preocupada com os colegas, então decidiu ficar por ali.

A escola da Mirai. A escola do Yuuki.

A história perde todo o senso de perigo que tinha até então, ainda que mesmo com todos os desastres ocorrendo ao lado deles meio que já se soubesse que seria impossível um dos três, Mirai, Yuuki ou Mari, morrer. Se a Mari não tivesse família e não fosse a única provedora da casa (vive com a mãe aposentada e a filha bebê, o marido morreu há alguns anos) eu até apostaria em uma morte dramática no final, mas isso já era um dado desde o começo do anime, então eu sabia que eles estavam seguros.

Ou será que não? Para todos os efeitos, estavam seguros sim. E depois dessa transição não enfrentaram mais nenhum grande risco, só um punhado de riscos pequenos (que ainda assim podem custar a vida, mas seria ridículo sobreviverem à queda da Torre de Tóquio para depois serem esmagados por um pedaço de laje de um prédio de 5 andares).

Ao invés, começam a encontrar no caminho e ser esmagados por dramas humanos como os que citei no começo do artigo. E a angústia crescente pelo destino das próprias famílias.

 

A vizinhança da Mari foi destruída por um incêndio

 

Em retrospecto, a natureza dupla do anime estava clara desde o começo. Mirai espera pelo irmão voltar do banheiro enquanto está emburrada e mandando mensagens pelo celular. Ela digita “Tudo deveria ser destruído” e envia. O terremoto começa ao mesmo tempo.

O drama humano e o desastre natural começaram, pois, ao mesmo tempo. Estão profundamente conectados, mas são independentes.

E no final, como sempre, a vida volta ao normal e as pessoas precisam seguir em frente. Assim como uma grande metrópole supera e continua a sua “vida” após um grande desastre, as pessoas também não têm escolha senão continuarem vivendo após perturbações, sejam elas incômodos mesquinhos ou grandes tragédias.

 

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