Morte é uma light novel escrita por Keika Hanada e ilustrada por Yone Kazuki. A obra possui apenas três volumes e no seguinte momento está sendo publicada no Brasil pela editora New Pop.

O que posso comentar de Morte sem dar spoilers? Não muita coisa, então sim, em algum momento do texto darei alguns spoilers mais pesados, mas pode ficar tranquilo que avisarei antes.

O que posso adiantar sobre o primeiro volume da série? Ele é ótimo, a escrita de Keika prende o leitor, o que resulta em uma leitura para lá de satisfatória, que não se apoia em vícios de escrita comuns no meio otaku.

Aliás, pelo menos esse primeiro volume, que conclui um arco da história, é uma indicação mais que acertada tanto para quem costuma ler light novels, quanto para quem não tem esse hábito.

Sem mais rodeios, vamos a sinopse de Morte (extraída diretamente da light novel)!

Uma doença rara que atinge uma a cada dezena de milhares de pessoas, inevitavelmente levando-as a cometerem suicídio ainda na adolescência, a armadilha genética, “Morte”; um orfanato cheio de segredos e inquietações, Doceo; e um menino enviado à esta instituição, Sasha.

Sasha vivia seus dias em solidão, carregando ódio pelos adultos, até que um dia, à sua frente, surge uma bela jovem chamada Manon. À medida que vai se aproximando dela, começa a suspeitar se o conselheiro de Manon, Doudou, um padrinho horripilante, não seria a causa de seus ferimentos. E a fim de salvá-la, Sasha toma uma grande decisão. Contudo, uma verdade surpreendente estava escondida por trás de tudo.

Nesse cenário do orfanato, onde eles se encontram, a indesejada “Morte”, instigadora do suicídio inevitável, está à espreita. Uma história sobre laços puros, em desespero… Existirá algum milagre para este mundo?

Até por volta da página cem o leitor acompanha Morte sob o ponto de vista de Sasha, cujo nome verdadeiro é Alan, um garoto que foi vendido pelo próprio pai e acabou parando em Doceo, uma instituição na qual pais de filhos portadores de Morte adotam crianças.

Os pais fazem suas exigências para receber uma criança que atenda aos seus desejos, ainda que estas precisem mudar de nome, de personalidade; fingir ser alguém que não são. Um verdadeiro lar para tráfico humano disfarçado de orfanato.

É aí que o jovem em conflito conhece Manon, uma garota misteriosa pela qual se interessa e com a qual compartilha muitos de seus problemas. Manon é a “existência” central da história nesse primeiro volume, pois tanto é aquela que faz, quando é aquela que sofre, muitas das principais ações.

Isso é contraditório, eu sei, mas faz sentido depois de um certo plot twist que só pode ser visto após a mudança de ponto de vista de Sasha para Doudou, o suposto vilão até então.

Keika é muito feliz nessa empreitada de fazer o leitor pensar uma coisa e depois esmiuçar a situação para fazê-lo perceber que a realidade é bem diferente. E isso sequer é manipulação do narrador, afinal, o livro é todo narrado em primeira pessoa e por isso se torna fácil “comprar” a visão de quem está narrando.

Manon é uma jovem envolvente, enigmática, que diz o que Alan quer ouvir e tem uma relação conturbada com Doudou. O rosto amedrontador do padrinho não ajuda, é verdade, mas não são suas ações, e sim as intenções de Manon, que dão os contornos dos acontecimentos.

Sasha é um garoto muito perspicaz, mas falha em ter autonomia por seus atos e é por isso que o plano de assassinato de Manon se faz possível. Contudo, como julgar Sasha por isso? Ele é um adolescente confuso sobre sua sexualidade, rejeitado pela família e cuja única figura adulta de referência é Giancha, um bêbado que tem aversão a crianças.

Sasha, na realidade Alan, é apenas mais uma vítima de uma tramoia que vai se clareando com a segunda fase do livro, quando o leitor passa a ver as coisas sob o ponto de vista de Doudou.

É até fácil construir um vilão de acordo com as impressões dos outros, rumores espalhados entre crianças que não confiam nos adultos e uma fácil primeira impressão ruim. Difícil é desconstruir esse personagem e fazer ele ir de vilão a mocinho.

Mas, repito, Keika faz essa transição com excelência. Doudou não demonstra uma simpatia forçada quando é aprofundado como personagem, pelo contrário, seu trauma com a Morte e sua dificuldade em se relacionar com o próximo devido a aparência o tornam um alguém palpável, com o qual não é difícil de se sensibilizar.

O preconceito o afastou das relações interpessoais, mas quem melhor para abrir seu coração que uma garota autêntica?

E aqui chegamos aos grandes spoilers que podem estragar a experiência de leitura caso sejam conhecidos de antemão pelo leitor. Se você ainda não leu Morte volte aqui só após terminar a leitura, se já leu, me acompanhe!

Quando a Manon “verdadeira” apareceu pensei que fosse a mesma de Doceo, mas não, os detalhes não batiam, principalmente o fato dela ser portadora de Morte e de se dar bem com Doudou, muito diferente da relação que a falsa tinha com ele.

A forma como os dois se aproximam diz muito sobre ambos, Doudou buscava alguém que o entendesse, com o qual pudesse não ser julgado pelo que externa; Manon descobriu que tinha Morte e também buscava uma conexão verdadeira, algo que não tinha com a mãe, algoz por trás do plano insano de substitui-la.

A relação que começa a distância acaba se tornando física quando a garota decide a hora de morrer, quando decide contrariar o destino imposto pela Morte e confidenciar esse momento ao homem que ama e com o qual se sente bem, no qual confia.

Doudou não é portador de Morte, mas sua irmã era e é justamente a perda de Joel o ponto de virada para ele, quando ele mesmo decide terminar com sua vida.

Percebe como é trágico, mas também poético? Uma garota jovem condenada a morte de antemão, um homem jovem que se condenou por achar que viver, dada a sua aparência e personalidade retraída, seria injusto.

Os dois querendo acabar com suas vidas, apaixonados um pelo outro sem saber o que o outro sentia e no caso de Doudou, sem se dar conta de colocar isso em palavras.

O grande barato do encontro dos dois na Itália é que o leitor é levado a gostar da ideia desse casal ser formado. Parece impossível dada a condição de Manon, mais ainda pelo que ocorre a seguir, mas um livro é igual a um jogo de futebol, só acaba quando a última página for lida; quando o juiz apita.

Sendo assim, é compreensível o leitor ficar dividido entre o desespero pela situação excruciante na qual Doudou e Manon são postos, ao mesmo tempo que esperançoso pela realização desse amor, mesmo com o atentado a vida dele.

Enfim, a rápida inserção de Amiya na trama não ocorre apenas para esclarecer um dos muitos pontos nebulosos sobre a persona criada em torno de Doudou, mas também para animar o leitor pela sua continuação, ainda que a trama de Doudou e da Manon verdadeira se finde.

Afinal, como não se interessar pelo destino de uma personagem tão simpática feito a Amiya? Além disso, como não reforçar essa esperança de um final feliz acompanhando os breves momentos de brilho da garota?

Seu destino, como o de Manon, pode parecer trágico a priori, mas ela persevera e se torna um ponto de sanidade para o protagonista, um apoio em meio a dura realidade de ter que roubar a privacidade daquela que ele ama ao mesmo tempo em que não pode “vê-la”.

Aqui entro em um ponto que me descontenta, mas, ainda assim, não me faria dar uma nota menor para o romance: as conveniências de roteiro.

Não era necessário que a família de Alan estivesse envolvida com a da verdadeira Manon, enquanto a substituta fazia a cabeça dele, mas pior mesmo é Amiya ser uma moradora de Doceo e de repente se tornar uma portadora de Morte.

Além disso, como não torcer o nariz para a conveniência do Milagre da Morte? Dá uma alegria se pensarmos que pode acontecer com a Amiya, não é de todo desagradável porque permite que Doudou e Manon fiquem juntos, mas será que era mesmo o melhor caminho?

Eu aceitaria melhor se fosse um tratamento experimental aquilo que a libertasse de seu infortúnio ou quem sabe uma conspiração ainda maior que tivesse forjado o resultado do exame que a diagnosticou.

De toda forma, mesmo com esses deslizes do autor, acho que ele consegue conduzir bem a trama e tocar em assuntos delicados como o suicídio, a invasão de privacidade, o tráfico humano, e até mesmo o estupro, com seriedade.

A escrita de Keika passa longe de ser pobre e, ainda que não seja rica em detalhes ou profundidade, basta para apresentar o leitor a personagens interessantes, palpáveis, com os quais ele é capaz de se sensibilizar, até mesmo de odiar, mais facilmente.

Porque, cá para nós, como não sentir raiva da grande vilã, e ao mesmo tempo achar maravilhoso ela ser quem é e ter a motivação que tem?

Um monstro cuja criação só foi possível devido a obsessão doentia da mãe com a ideia de trocar a filha por uma farsante, uma ludibriadora de homens, manipuladora sagaz.

A Manon falsa é uma vilã cuja malícia e más intenções se tornam cada vez mais claras quando você relembra as cem primeiras páginas e pensa em tudo que é exposto nas duzentas e pouco últimas.

Doudou é o verdadeiro herói de Morte. A verdadeira Manon a heroína. Alan apenas uma vítima. Giancha um criminoso que tem o final que merece. Amiya uma luz de esperança. A falsa Manon uma incógnita que não duvido nada que apareça no segundo volume para atormentar mais alguém.

Só para fechar, gosto muito da personalidade da verdadeira Manon, uma garota que sabe o que quer ao mesmo tempo que carrega consigo várias inseguranças e passa por algo tão horrível como o estupro de cabeça erguida.

Não é fácil ser uma mulher na sociedade em que vivemos, seja aqui no Brasil ou até mesmo na Europa, e eu vejo um pouco dessa realidade dura em Manon que, mesmo com riquezas materiais, vinha de uma família pobre de amor, uma mentira.

Mesmo assim a garota se encontra, é autêntica até o final e se torna uma personagem da qual o leitor pode gostar, ainda que tenha participado por pouco tempo do primeiro plano da história.

O Doudou eu nem preciso comentar, ele é cativante não por ser divertido ou um pobre coitado digno de pena, mas por mostrar força e personalidade quando é preciso.

Doudou ser um personagem “bem-sucedido” não desqualifica Alan como um personagem bom, e o mesmo serve para as duas Manon. Aliás, é justamente por causa delas que Morte é uma leitura tão interessante, é pelo amor que sente por Manon que Doudou brilha ao seu próprio modo.

Mal posso esperar pela continuação.

Nos vemos no próximo artigo!

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