Esculachei esse anime no meu artigo de primeiras impressões. Não retiro nada do que eu disse – 18if realmente não me causou uma boa impressão inicial. Por suas qualidades técnicas e pura criatividade, a nota que dei (3,5 de 5) acabou sendo boa, ainda que as palavras parecessem não acompanhar.

Os outros dois episódios que assisti em seguida foram incríveis. Não incríveis apenas para eu pensar “nossa, que episódios legais”, mas o bastante para eu mudar minha expectativa com relação ao anime como um todo – a ponto de eu ter escolhido escrever sobre 18if nessa temporada. Se eu fosse reescrever hoje minhas primeiras impressões, não mudaria o sentido de nada do que eu disse, mas talvez escolhesse palavras e expressões menos duras e acrescentasse uma observação de que o episódio inicial não representa adequadamente a série como um todo.

Não vou repetir tudo o que eu disse sobre o primeiro episódio, mas acho necessário recapitular para comparar e deixar claro como os episódios seguintes são diferentes. Em primeiro lugar, o tema. Enquanto os episódios 2 e 3 lidam com um crime bárbaro e uma doença terminal, respectivamente, o primeiro trata de assédio moral e pressão em ambiente escolar. É sim um tema importante, não tenha dúvida! Mas para desenvolver em apenas um episódio, e da forma como foi, pareceu bastante raso. Pior: fiquei com medo que toda a série, ou quase toda, fosse ser composta por episódios rasos sobre temas morais. O protagonista é um herói, um mocinho que salvará donzelas-bruxas que fugiram para dentro de seus sonhos e mostrará o caminho do bem e da esperança para elas? Consegui descrever de forma suficientemente entediante o que eu temi que pudesse se tornar 18if após assistir o primeiro episódio?

O segundo episódio respondeu isso com um enorme e chocante não. Uma garota que teve a família brutalmente assassinada por razões fúteis finalmente buscava vingança contra seus algozes. Logo pensei: “Iih, ok, agora ele tem que convencer ela do que é certo e errado ao mesmo tempo em que a ajuda a superar o trauma a zzz…”. Nota: eu não acho que ele fez a coisa certa. Eu não acho que ela estava fazendo a coisa certa. Eu não acho que vingança seja a coisa certa. Mas o que não falta na vida são injustiças, não é? Pessoas são imperfeitas. E ele escolheu o caminho da imperfeição. Por mais que eu discorde da decisão do protagonista, não pude deixar de achar o episódio em si incrível. Ele disse bem alto para quem quisesse ouvir: 18if não se trata de justiça.

Ela não é boazinha, não tem que ser boazinha e não é intenção do Haruto convencê-la a ser boazinha

Nem poderia, não é? Como falar em “justiça” no episódio 3, por exemplo? Claro que, racionalizando, não tem como achar de qualquer forma razoável ou minimamente aceitável que uma garota tão jovem, que nem começou a viver ainda, tão cheia de sonhos, esperanças, futuro, tenha que morrer. Mas não há justiça na vida e na morte. A garota era doente, ela perdeu muitas coisas boas da vida porque a doença a impediu, e quando estava apenas começando o que muitos consideram o auge de suas vidas (principalmente no Japão), o final de sua adolescência, a doença a derrubou de vez. A confinou a uma solitária, fria, triste cama de hospital. Não é justo. Nem era para ser. E nem o protagonista podia fazer algo a respeito. Ou melhor, podia: ao levá-la para passear, renovar-lhe pela última vez a esperança, coloriu os últimos dias de sua vida. Era o melhor que ele podia fazer, e ele fez, mesmo que isso fosse estilhaçar o seu coração quando tudo estivesse terminado.

Viva pela primeira vez, à beira da morte

Ao contrário do primeiro episódio, o segundo e o terceiro exploraram temas muito mais interessantes e deram a eles tratamento muito melhor. Em segundo lugar, o primeiro episódio passou-se quase totalmente no mundo dos sonhos, e um mundo com leis físicas particularmente malucas. Surrealismo é belo e transmite uma mensagem quando em oposição à realidade, mas o cenário no mais das vezes abstrato do primeiro episódio não me permitiu ter a menor ideia do que estava acontecendo ou do que eu devia enxergar ali. Os outros dois episódios foram muito mais “realistas”.

Imagine viver anos dentro dessa sala

No segundo, parte considerável da ação de passou no mundo real. E o mundo dos sonhos era bastante realista também. A coisa mais deformada nele eram os criminosos, o que fez todo o sentido do mundo. Também fez bastante sentido que enquanto a garota se via dentro de uma sala o tempo todo, os criminosos se vissem em uma cidade fugindo de uma versão diferente dela, mais adulta e ameaçadora. O terceiro episódio mostrou menos do mundo real, mas o próprio mundo dos sonhos da garota era uma réplica quase idêntica do mundo real com o qual ela estava acostumada – com uma diferença fundamental: tudo parecia sem vida. Os cenários dos mundos dos sonhos dos episódios 2 e 3 não foram apenas insanidade abstrata, como no primeiro, mas uma hiper-realidade bastante expressiva.

Um mundo opressivo de tão vazio, silencioso, sem cor

Em terceiro lugar, o primeiro episódio alternou a ação psicodélica com exposição, narrada ao protagonista por um coelho – o que me remeteu imediatamente a um mundo lisérgico e fantástico como Alice no País das Maravilhas (esse detalhe em particular eu achei positivo). O contraste entre as afirmações do coelho (“se morrer aqui, você morre de verdade”, “se passar pela porta azul, você acorda”) e o que aconteceu em tela (ele foi decapitado mas sobreviveu, ele passou pela porta azul mas continuou naquele mundo – e virou-se para voltar a dormir) tornou a exposição ainda pior do já era, por torná-la além de invasiva, inútil (claro que isso é apenas impressão; as explicações foram necessárias e úteis, de algum modo).

O segundo episódio costurou bem melhor a exposição e a ação, e um não pareceu interferir no outro. Foi muito mais orgânico, fluído, interessante. O terceiro episódio por sua vez praticamente sequer teve qualquer exposição, com exceção de alguns momentos muito breves para pontuar o episódio e não deixar o expectador totalmente no escuro. Narrativamente são episódios muito mais agradáveis que o primeiro. Combine isso com cenários menos abstratos, os quais me permitiram compreender e me relacionar melhor com os episódios, e os temas muito mais empolgantes, e acho que dá para entender porque eu achei esses dois episódios muito melhores do que o primeiro, ainda que, estruturalmente, sejam “idênticos”.

Mas o que é afinal 18if?

O que uma garota pressionada pela sociedade a fazer a única coisa que sabe fazer bem (estudar), ainda que preferisse se divertir como as outras crianças normais, uma garota rebelde que teve a família massacrada diante de seus olhos e uma garota tímida e boazinha que teve a vida interrompida por uma crueldade do destino têm em comum? Eu me esforcei para escolher essas palavras, e espero ter conseguido passar a ideia: todas elas foram, de alguma forma, oprimidas. Todas elas sofreram muito mais do que poderiam aguentar. Lógico que os sofrimentos delas não se comparam, e talvez a primeira pareça “fresca” comparada as outras duas, mas dor é uma coisa muito particular e, agora sim cabe usar o termo, não seria justo compará-las em primeiro lugar.

Para adicionar insulto à injúria, elas ainda são chamadas de bruxas. São consideradas vilãs em potencial, que precisam ser combatidas – mortas, se necessário. E quem diz tudo isso é ninguém menos que um homem que tem uma irmã que sofre da mesma condição que as demais garotas. Justo ele, que quer ajudar a sua irmã e por consequência disso quer entender melhor a Síndrome de Bela Adormecida e ser capaz de ajudar garotas nessa circunstância. Haruto, o protagonista, foi o único que realmente se importou com todas as garotas até agora. Só ele conseguiu salvá-las. Suponho que exista uma boa razão para ele ser o único a enxergar Lily e para o cientista ser incapaz de ajudar a própria irmã.

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