Um dos animes esportivos desta temporada de verão é Harakuna Receive, que coloca em foco o vôlei de praia. Adaptação do mangá de Jizai Nyoi, serializado desde 2015, Harakuna Receive, produção do estúdio C2C, com direção de Toshiyuki Kubooka e roteiro de Touko Machida, tem como protagonista Haruka Oozora, uma estudante do ensino médio que se muda para Okinawa. O que chama atenção no primeiro episódio é o modo como o esporte é mostrado: menos exploração dos corpos e mais preocupação com a dinâmica e emoção do jogo.

O vôlei de praia é um esporte em que o uniforme deixa em evidência o corpo por fatores relacionados à temperatura no ambiente em que é disputado e para proporcionar maior agilidade aos atletas. Então, esperar um abuso de fanservice ou algo próximo ao ecchi não é de todo absurdo. Porém Harakuna Receive apresenta enquadramentos que nos revelam o quanto o jogo exige de concentração e força, optando por valorizar os movimentos dos corpos e não os seus atributos, e também o fato de ser um esporte praticado em dupla, o que significa confiança e jogo de equipe, não o destaque de um super jogador. O talento é fundamental, mas ter em mente que “uma andorinha não faz verão” é fundamental.

Haruka topa o desafio de Narumie: um jogo empolgante que nos apresenta as principais jogadoras.

No início do episódio acompanhamos o desembarque de Haruka em Okinawa. Ela está de mudança para viver com a avó e a prima Kanata Higa. Como Kanata vai buscá-la no aeroporto, o contraste físico e diferença de personalidade entre elas logo são explicitados. Enquanto Haruka é alta e expansiva, a sua prima é de estatura baixa e mais reservada, tímida. No entanto, ambas têm complexo em relação à altura. Não que a apresentação desse tipo de oposição seja original, mas no que tange ao esporte que está em primeiro plano e ao drama que será desenvolvido, mostra-se bastante adequado, já que altura e temperamento têm relevância no vôlei de praia, ainda que não sejam determinantes.

A empolgação de Haruka com a vida já a faz encarar o mar assim que chega. Ela é uma excelente desportista, por isso o vôlei de praia chama a sua atenção. Logo, a garota está jogando com Narumie Tooi e Ayasa Tachibana – campeãs colegiais da modalidade – mesmo que não tenha conhecimento das regras do esporte. Esse evento promove o que faz da estreia de Harakuna Receive promissora.

Haruka é uma protagonista que promete proporcionar bastante diversão e um pouco de seriedade.

A valorização do trabalho em equipe é um dos pontos a se destacar: em um jogo realizado em dupla, a individualidade – as qualidades da jogadora – deve estar a serviço do conjunto. Traduzindo, e aproveitando o título do episódio, não se precisa de aces. Ainda que eles sejam bem-vindos, não são com eles que se vence um jogo, mas com entrosamento e uma estratégia elaborada para duas pessoas a colocarem em ação. É um esporte que tem sim as suas estrelas, como a tricampeã olímpica Kerri Walsh e a brasileira Jacqueline Silva, contudo sem a confiança mútua entre as parceiras, não há união que resista.

Outro aspecto é a relação ainda não especificada entre Kanata e Narumie, mas que certamente é algo ligado ao vôlei (com elas sendo ex-parceiras) e a desistência de Kanata do esporte em um momento crucial para a dupla. A situação entre as garotas é de tensão e os olhares revelam que há uma forte mágoa, apontando um conflito futuro com raiz em um passado não resolvido, e que reflete na maneira como cada uma delas agora percebe o esporte (que, para Kanata, provavelmente tem a ver com alguma perda).

As primas Haruka e Kanata: futuras parceiras sob o sol?

E, por último, o fanservice, que embora presente, não enche a tela com ângulos que “investigam” os corpos das personagens, chegando praticamente a desnudá-las. Há um cuidado em destacar os movimentos e o modo como o vôlei de praia flui. Se é verdade que a exposição de corpos é inevitável, explorá-lo desavergonhadamente não é uma situação inescapável.

Vale a pena mencionar a protagonista Haruka, que, com o seu entusiasmo, mostra-se ser agradável, otimista e ter muita energia. Pode-se assinalar como infalível que Haruka e Kanata formarão uma dupla (já que enfrentarão novamente Ayasa e Narumie), mas o “clichê” cria as circunstâncias para que os contrastes entre elas sejam uma forma de reforçar o vínculo e venham a mover o relacionamento. Aqui, com o humor que geralmente acompanha os estereótipos a respeito de altura – mulher alta e mulher pequena.

Há alguns bons arcos a se desenvolver, contando aí a rivalidade que pode nascer entre as duplas, e jogos emocionantes a disputar ainda. Ou seja, uma excelente diversão. Agora é esperar que a estreia que soube respeitar o jogo e suas praticantes permaneça nesse trilho até o fim da temporada.

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