Bom dia!

Que coincidência legal. Um dos primeiros animes que cobri no blog foi Parasyte, que na época eu chamei de Kiseijuu porque seu mangá não havia sido lançado no Brasil ainda, então achei melhor ir com o nome japonês. De fato, foi meu décimo primeiro artigo na história do blog. O mangá de Parasyte é dos anos 1980 (da virada da década para ser mais preciso, começou em 1989 e terminou em 1995). Banana Fish também é um mangá que começou nos anos 1980 e virou a década (de 1985 à 1994). Ok, talvez tudo isso pareça ser legal apenas para mim, não é?

Em parte sim, sem dúvida. Mas não é só isso. Assim como Parasyte, Banana Fish não está sendo apenas animado décadas depois – ele foi atualizado para os dias de hoje. Isso pode fornecer camadas de análise extra, e com efeito é isso o que acontece, pelo menos nesse primeiro episódio.

Tanto no mangá quanto no anime, o irmão mais velho de Ash, o protagonista, é um veterano de guerra. Não só um veterano, como uma pessoa destruída pela guerra. No mangá, Griffin participara da Guerra do Vietnã. No anime, ele volta da Guerra do Iraque. Não é preciso ser alguém particularmente bem informado para saber que os EUA estão quase constantemente envolvidos em conflitos ao redor do globo, e vez ou outra em guerras abertas, como essas duas citadas. Banana Fish se passa nos EUA. Será que tentará fazer um comentário sobre a beligerância americana? Ou a Pax Americana, se você preferir? Se esse for o caso, será que o comentário feito há três décadas no mangá, sobre a Guerra do Vietnã, também se aplicará para a Guerra do Iraque, no anime? Vale mencionar que durante a publicação do mangá estourou a Guerra do Golfo, outro conflito que opôs EUA e Iraque. Não é fácil fazer um comentário crítico sobre esse tema que não seja apenas superficial, talvez errado mesmo, então a expectativa é tão grande quanto a tensão.

Parece auspicioso que um dos protagonistas seja um japonês, e um repórter ainda por cima. É como se Eiji estivesse ali para revelar para o público japonês algo de fundamental sobre a realidade americana, algo que só um repórter fotográfico poderia contar. Repórteres fotográficos são capazes de fazer mudar sensivelmente a opinião pública em conflitos desde a Guerra Civil Americana, então é definitivamente difícil acreditar que essa escolha criativa tenha sido à toa. Em qualquer caso, mesmo que toda a questão política se revele apenas um pano de fundo, a atualização é muito bem-vinda pois é sem dúvida muito mais fácil para o público atual imergir em Banana Fish dessa forma. Se conseguir ser fiel à mensagem original do mangá, qualquer que tenha sido ela, esse anime se tornará um provocante ensaio sobre como em três décadas (ou mais, considerando que a Guerra do Vietnã começou em 1959) o mundo pode ter mudado, mas a política externa americana ainda é essencialmente a mesma naquilo que tem de pior (ou de melhor, a depender de qual será a conclusão do anime, embora pela primeira impressão não pareça que possa ser o caso).

A inocência de Eiji, o estrangeiro

Quanto à história em si, Ash é um poderoso líder de gangues em Nova Iorque que conta com o apoio (que ele quer acreditar ser uma parceria de negócios entre iguais) da máfia de “Papa” Dino, que o acolheu quando ele era criança. E abusou sexualmente dele, então não espere ver em Dino o clichê do mafioso honrado. No submundo do crime não tem ninguém honrado, mas resta a suspeita de que Ash, que não teve outra escolha, talvez seja alguém menos pior. Inveja e disputas por poder se fazem presentes também, e se no contemporâneo Akira (1982-1990) Kaneda tinha seu Tetsuya, em Banana Fish Ash tem Arthur, mas acredito que o rival não será tão importante assim. Ou talvez seja? Bom, há outra coisa em comum entre Banana Fish e Akira: drogas.

Arthur, o subordinado rebelde

Uma droga misteriosa que é a responsável por ter destruído a vida do irmão de Ash e ressurge no presente coloca em movimento o primeiro conflito da história. A droga empresta seu nome para o próprio anime, atendendo pelo nome de “banana fish”. Diz-se que a própria droga toma seu nome de empréstimo de um peixe ilusório que, aqueles que o veem, passam a pensar apenas em morte. Provavelmente as semelhanças com Akira sejam apenas coisas que estavam no imaginário coletivo nos anos 1980 porque em Banana Fish esses elementos pareceram muito diferentes, apesar de iguais, se é que consegue me entender. De todo modo, ajudam a adensar a atmosfera já opressiva do anime.

A mão de Papa Dino, que afaga, cobiça, e controla

Visualmente não chega a ser impactante, mas talvez apenas tenha faltado oportunidade para isso no primeiro episódio, porque o storyboard e a fotografia são quase o tempo todo muito bons. Em termos técnicos, foi uma estreia competente, tendo deixado a desejar apenas em uma cena ou outra, como quando Eiji e outro repórter mais velho de quem ele na verdade é apenas o assistente falam com Ash pela primeira vez e ao vê-lo pensam “nossa, como ele é intenso!”, mas o gângster pareceu apenas entediado respondendo-os momentos antes. Mas momentos assim foram raros, não se preocupe, e Banana Fish é uma estreia sólida para um anime que começou com o pé direito e tem todos os elementos técnicos e narrativos para ser não apenas bom, mas um dos melhores da temporada. E eu irei cobri-lo episódio a episódio aqui no Anime21!

  1. Um anime seinen para adultos acima dos 25 anos. tenho 31 anos, mais ainda não me sinto atraído por historias mais densas como esta, estou voltando a minha adolescência reprimida e estou extra-vazando assistindo meus amados animes ecchi com muito fanservice, hentai lolicon, comédias fumadas e isekais que não podem faltar. daqui para o fim de minha breve existência talvez venha a sentir vontade de assistir / ler sobre historias tristes, pesadas e reflexivas.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      E dizem que rola boys love também, pelo seu histórico de comentários aqui imagino que você queira ficar longe disso, hahaha!

      Obrigado pela visita e pelo comentário 😛

  2. Este primeiro episódio de Banana Fish, não foi uma estreia excelente, mas sem dúvida foi uma estreia que despertou o meu interesse.
    Eu por norma dou sempre prioridade a animes mais sérios e Banana Fish logo no seu primeiro episódio, provou ser um seinen com potencial. Eu à uns meses atrás li uns reviews da obra e já especulava que o estúdio Mappa e a Staff responsável fossem dar uma actualização geral na obra (afinal o mangá de banana Fish já tem mais de 30 anos) e isso foi muito bom. Acho que para mostrar o que aconteceu ao irmão do Ash, nem seria preciso colocar o cenário da Guerra do Iraque, bastava colocar como cenário de fundo qualquer conflito que os EUA tenham participado na metade do século XX.
    Ainda na parte da guerra, tanto a fotografia como jornalistas de guerra, revolucionaram a forma como o povo em geral encara uma guerra, tu citaste o excelente exemplo da Guerra Civil Americana, onde a fotografia mostrava para ambos os lados do conflito os resultados de uma guerra dentro de “casa”.
    Quanto à droga que dá nome ao anime, passa-me pela cabeça, o uso de drogas desde do inicio do século XIX até aos dias de hoje, desde do ópio à cocaína, tanto por civis como nos exércitos. A droga de destaque neste anime, parece ser altamente perigosa e experimental ao mesmo tempo, sendo, que pelo que deu a entender, o irmão do Ash foi tratado num hospital no Iraque e um médico (ou falso médico) lhe deu um pouco da droga experimental (Banana Fish). Se o irmão do Ash, com uma pequena dose dessa droga ficou em estado vegetal, imagine-se se uma droga dessas cai nos guetos do EUA. Seria essa droga uma forma do governo, ou mesmo a máfia se verem livres de problemas (no caso do governo) e afrontas (no caso da máfia), posso estar a especular demasiado, mas acredito que Banana Fish nos seus 24 episódios, me mostrará para o que veio.
    Os personagens, eu só simpatizei com o Ash, o restante foi bem ok. Eu senti um pouco de nojo do Arthur e do lacaio do Dino, o Arthur tem todos os sintomas de um vira casaca oportunista e o lacaio do Dino, só tem cobiça por aquilo que o seu chefe Dino fez com o Ash. Já o Dino, ele parece ser um mafioso honrado, mas aquilo que ele fez com o Ash em criança, ele não é assim tão moralmente correcto. O Eiji é tão ingénuo, ele que veio de uma sociedade fechada e bem organizada, imagino que ele sentiu nervosismo quando entrou num gueto, onde se reúnem os restos da sociedade dos EUA (negros, hispânicos asiáticos, etc). Achei tão desnecessária a cena do revólver Magnum . 357 do Ash, o Eiji deve ter crescido dentro de um casulo, lá por ser proibido portar armas de fogo no Japão, não quer dizer que elas não existiam lá.
    Por fim, a animação esteve bem competente, a fotografia e o storyboard estiverem bem competentes (de todos os animes que vi do estúdio Mappa, ele nunca decepciona nesse quesito).
    Com certeza acompanharei os artigos deste anime, e se conseguir comentá-los.
    Excelente artigo, de primeiras impressões de Banana Fish Fábio.

  3. Técnicamente achei o melhor de todos, o character design, os cenários que remetem aos filmes da decada de 80 e 90 q retratam a periferia de nova iorque tudo muito bem feito e bonito e animação muito bem feita, principalmente na cena do bar que é a que mais teve ação, tudo muito fluído e bem animado.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Sim, com certeza. Nem em termos técnicos e nem narrativos eu tenho do que reclamar dessa estreia. Só ficou faltando “alguma coisa” pra ser nota 10, não sei dizer o que, provavelmente já na área da subjetividade. Uma das melhores estreias da temporada.

      Obrigado pela visita e pelo comentário 😁

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