O episódio 10 é um dos mais claustrofóbicos de Happy Sugar Life. Não por ser totalmente passado no apartamento de Satou, mas pelo fato das mentes da garota e de Shio comandarem os acontecimentos. Memória, consciência e angústias as empurram em direção ao limite, ao drama, à resistência e a às resoluções. As lembranças da criança permitem, enfim, conhecer quem é Yuuna, a sua mãe, e também o seu primeiro encontro com Satou. A vida de Yuuna pode ser classificada como um verdadeiro inferno, com um marido abusivo e imensas sensações de perda. O que restou a essa jovem mãe foram o apego aos filhos e o desejo de protegê-los. Contudo, Yuuna era uma pessoa quebrada, incapaz de cuidar de si mesma. Porém, para Shio, a mãe é a representação do abandono e Satou a esperança do amor resplandecer em sua plenitude. Essas histórias, de mulheres que tentam (ou tentaram) sobreviver sob escombros emocionais, têm em Shio seu vínculo crucial: a chance de felicidade ou a fuga de seus tormentos. O episódio é impactante, doloroso e criativo em suas arte e metáforas propostas.

Com dois episódios para a sua conclusão, duas questões assombram Happy Sugar Life: até que ponto Shio compreende a confissão de Satou, o peso dos crimes que cometeu? E quando os atos de Satou voltarem-se contra ela, a criança permanecerá firme em seu juramento de cumplicidade, ou a psicopatia de sua protetora é um fardo moral, humano, insustentável? As ações de Asahi e o despertar da consciência de Shio são os prováveis catalisadores da tragédia. Shio bloqueou o abandono de Yuuna e não tem memórias de Asahi, mas o garoto não deixará de confrontar Satou. Asahi também margeia pela perigosa fronteira da felicidade existente em algo exterior, uma pessoa que complete o vazio. Para ele, reunir-se com a mãe e Shio é a realização máxima.

Poderia ser remorso, mas Satou chama Shouko de “algo sujo”.

Nessa equação, ainda têm outros agentes: Mitsuboshi, Kitaumekawa (que é o mais ridículo e por isso o mais nocivo) e a tia de Satou. Deixar o castelo em busca de um lugar tranquilo para continuar em sua feliz vida de açúcar não será uma tarefa fácil. E tem o fantasma de Shouko, que pode alimentar a raiva de Asahi. Difícil apostar em que cedo ou tarde, Satou terá remorso de seu crime brutal – ainda mais por ela se referir a ex-amiga como uma “sujeira que entrou na casa”.

O episódio começa com Satou deitada no colo de Shio, o seu estado é de abatimento, ela não responde a nenhum estímulo. Imediatamente, Shio se recorda de Shouko, e chega a se questionar se a garota não tem algo a ver com o esgotamento de Satou. A imagem de sua protetora no chão, encolhida e desalentada, desperta à memória da criança, fazendo-a se lembrar de Yuuna, sua mãe. Uma vez, Yuuna já esteve deitada na mesma posição de Satou. A visão ativa as lembranças e sentimentos reprimidos por Shio. Essa correlação traduz uma passagem instigante, já que, por mais que bloqueemos uma má recordação, o nosso inferno íntimo não pode ser totalmente soterrado pelo esquecimento.

Shio consola a sua mãe: boa garota destruída pelos sucessivos abusos e pela falta de amparo.

Enquanto tenta cuidar do cotidiano do apartamento, inclusive, preparando curry para Satou, Shio encontra evidências do que aconteceu no apartamento – sangue seco no piso e roupas ensanguentadas na máquina de lavar – e tem a experiência de uma memória involuntária que lhe dá vestígios de seu passado com Yuuna.

Vítima de um marido abusivo – de todas as formas possíveis, física e psicologicamente violento –, Yuuna é uma mulher frágil, vulnerável, que tenta se manter forte pelos filhos. Um dia, por iniciativa de Asahi, ela foge com Shio, mas a vida delas não é fácil, com o medo de ser descoberta pelo marido, a preocupação com a segurança de Shio e o isolamento. Porém, a criança quer fazer a mãe feliz, e vê-la em frangalhos machuca-a imensamente. Há uma bela metáfora do coração como um jarro (ou pote) que precisa ser preenchido para não se quebrar. Shio consegue enxergar o coração das pessoas e o jarro de Yuuna está se partindo, tem rachaduras. Ela quer resgatar sua mãe, e nesse afã, convence a mulher a sair de casa, pois decide procurar algo para ajudá-la, só que quase Shio é atropelada.

O fato faz com que Yuuna repreenda ferozmente a filha, de um modo inescapável a respeito de seu transtorno, de suas inúmeras fragilidades. Shio não aceita, pois não quer ver a mãe cair, ao desferir um tapa na criança, por algo que julga como uma insolência, Yuuna se percebe transformando-se no marido.

Yuuna e suas fissuras: tormentos que a perseguem até quando sorri para Shio.

E o medo de reproduzir o ato abominável da violência, de naturalizá-la aos olhos da pessoa mais importante da sua vida, leva Yuuna a drástica decisão de abandonar Shio. O cenário é todo de uma ação cruel: noite, chuva e palavras proferidas para ferir. Shio em prantos promete se dobrar ao “cárcere”, mas a mãe está inflexível. Inflexível, pois quebrada. Inflexível, pois já perdeu a sua liberdade, entregue aos seus demônios. Mas o gesto de Yuuna é desesperadamente consciente. Ela liberta Shio, desobriga-a de viver os demônios que já parecem impossíveis de afastar.

O fato que marca a vida de Shio: abandono, bloqueio e, agora, ressentimento

É complicar julgar a atitude de Yuuna. Com o seu estado mental piorando a cada dia, certamente ela se tornaria um perigo para Shio, que se conforma por não querer o jarro de sua mãe completamente despedaçado.

A revelação que o episódio 10 traz é que Satou não sequestrou Shio. A jovem encontra a criança no beco, no exato momento em que Yuuna deixa a filha e parte, evitando olhar para trás. Satou escuta o choro da criança e a interroga sobre o amor, no que Shio responde querer a mãe sentindo-se bem, que viva, para que ela também possa viver. As palavras da menina fascinam Satou, que tem seu jarro vazio, que logo começa a ser preenchido pelo calor e pureza de Shio.

“Eu não sou uma boneca”: o levante de Shio fazendo sua voz ecoar como um trovão.

Ainda que não se trate de um sequestro, Satou parece ter aproveitado o medo que Shio desenvolveu do “mundo do lado de fora” em benefício próprio. O amor de Satou é egoísta, pois, nessa balança, cabe à menina apenas sorrir e deixar-se se cuidar por ela.

Esse é o motivo para Shio permitir-se, pela primeira vez, ser algo além da figura idealizada em que Satou deposita a própria felicidade. Contando com os indícios que ela encontra no apartamento, Shio sabe que Satou tem segredos, e o tratamento que a jovem a dispensa é de alguém que a quer apenas como um meio e não como um fim. A forte frase que a menina lança sobre Satou é um curto-circuito em sua segurança: “Então, você não precisa de mim aqui”.

O castelo ameaça se desmoronar com o enfrentamento de Shio, provavelmente conduzida pelo medo de que se repita o que ocorreu com a sua mãe. A fúria e determinação de Shio assustam Satou. E a cada instante que passa, com a firmeza da criança, a garota é tomada pelo desespero – Satou, com Shio, experimenta sentimentos e sensações até então desconhecidas. A arte é excepcional ao retratar o estado mental de Satou, com o chão se partindo e estilhaçando-se, com ela sendo engolida, e depois com o seu corpo trincando. O modo como a jovem contesta sua identidade, sendo vencida pela aflição, alinha-se perfeitamente à imagem. Tudo isso ao ouvir dizer que a odeia.

Satou e as rachaduras provocadas pelo desespero: obra de arte.

Mas isso é momentâneo, pois Shio trata de realizar a reconciliação, de devolver a feliz vida açucarada a Satou. No entanto, pelo sentimento e pela vida que levam em harmonia (tendo em mente os sacrifícios que a garota faz para sustentá-la), Shio deseja que haja partilha dos afetos e de proteção. Satou confessa que assassinou alguém e outros diversos crimes. Shio aceita as sombrias revelações. Mas será que a criança sabe o que representa essa confissão, quão tenebrosa ela é? Shio não é tola, mas sua vontade de pertencimento e de cuidado – que ela encontra em Satou – pode levá-la a embarcar em uma viagem perigosa, rumo à uma tragédia anunciada.

O primeiro encontro entre Satou e Shio: seres incompletos em busca de um sentido.

A paz reina entre elas, com Shio, movida pela lembrança do abandono, descartando a mãe de sua vida, e elevando Satou como seu futuro, porém Asahi pode ser ainda o elo com o passado, apesar de ele não aparecer nas memórias da menina.

O episódio mostra uma Shio atuante e determinada, lidando com o seu trauma, enfrentando os seus medos. A crueldade que vivenciou com um pai abusivo e o abandono de uma mãe assustada, triste e gentil, como ela classifica Yuuna, forjam a criança que assistiu ao pior do ser humano e que ainda assim foi protegida, e que agora quer ter participação ativa e cuidar também de quem cuida dela.

Shio ainda pode se recordar de Asahi: rumo ao confronto yandere versus onii-san

Um episódio denso e esclarecedor, com a tristeza e o desespero, toda a sua carga emocional sendo espelhados por uma arte realmente deslumbrante e criativa. Shio é um personagem que avança, afastando-se do símbolo de pureza, sem poder decisório, que lhe atribuem aqueles que querem ser feliz tendo-a como um meio para esse fim. Os últimos episódios de Happy Sugar Life serão de confronto, drama e horror. Qualquer felicidade, o mínimo de felicidade, parece inconcebível.

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    No futuro eu deveria rever esse anime, a história é estranha o suficiente pra tonar desafiador o entendimento de tantos sentimentos, a menininha aqui é incrível apesar do que sofreu :3

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