Você, caro(a) leitor(a), gosta de animes que exploram o tema viagem no tempo? Se sim, esse anime (ainda) não é para você. E por que afirmo isso? Porque nesse “big combo” que saiu na Crunchyroll houve bem pouco disso. Mas se você procura um “sci-fi” que flerta com a distopia, RErideD pode ser uma opção. Dá até para fazer uma regra dos 4, não dos 3, primeiros episódios com esse lançamento adiantado ao início da temporada de outono de 2018. Vamos viajar no tempo com Derrida e Mage?

Sinto que já vi esse rosto em algum lugar….

Antes de mais nada, preciso comentar que anime original é sempre um problema quando o assunto é sinopse, porque é bem comum que ela esteja errada – caso da que está no Myanimelist do anime. Então vou usar a do Anichart como base – praticamente um resumo do que foi a estreia de RErideD.

O ano é 2050. O engenheiro Derrida Yvain ganhou notoriedade por trabalhar no desenvolvimento dos DZs, máquinas autônomas construídas pela Rebuild, empresa fundada por seu pai. Um dia ele e seu amigo, Nathan, descobrem uma bug na produção dos DZs e tentam alertar seus chefes, mas são ignorados e, ao tentar continuar normalmente com suas vidas enquanto resolviam o problema, acabam se envolvendo em uma armadilha que põe em risco a segurança deles e de Mage, a filha de Nathan pela qual Derrida nutre profundo carinho. Derrida consegue escapar de um ataque, mas acaba congelado e acorda 10 anos depois com o objetivo de cumprir a promessa de proteger Mage que fez ao amigo. Além do tempo nos reunimos, essa é a história de uma jornada pela esperança.

Os últimos momentos de felicidade antes da tragédia.

Meu interesse por esse anime surgiu quando eu soube que o diretor de Steins;Gate estaria à frente dele e que o character designer do clássico cult Serial Experiments Lain daria rosto aos personagens.

Sendo assim, dava para esperar um anime bem dirigido e visualmente interessante? Sim, mas não foi isso que ocorreu, pois, a direção até não é ruim, mas os designs são genéricos para os padrões atuais.

Enfim, agora é hora de comentar os episódios em si. A estreia serviu apenas para esmiuçar a sinopse, fazendo a história avançar até um ponto futuro no qual a trama será desenvolvida. A maneira como o protagonista saltou no tempo foi bastante conveniente – mas esse foi um dos menores problemas.

Viajar no tempo, ou algo parecido, deve ser um troço bem mágico mesmo, né?

A forma como toda a trama é apresentada não foi ruim, pois logo nos primeiros minutos fica claro o carinho que o Derrida tem pela Mage – tanto que cheguei a imaginar que ele fosse tio da menina – e isso vai ser importante ao longo da trama, pois um dos desejos dele é proteger e cuidar dessa garota.

O outro tem a ver com o bug que ele e o amigo descobriram, algo que depois é revelado como sendo um grande plano conspiratório envolvendo a Rebuild e o governo – explicação lógica para justificar o sucesso da empresa mesmo com os problemas resultantes desse bug. Derrida foi usado e enganado, e agora deseja consertar essas máquinas defeituosas, o que mudaria o estado da guerra que assola o país, só que para isso ele precisa do que deixou com a Mage antes de hibernar, o que achei uma boa sacada para interligar seu desejo de cuidar da garota com a necessidade de encontrá-la para resolver o problema desse futuro. E onde está a Mage? Morta, ou era isso o que queriam que pensássemos…

Um adulto inteligente protege a sua filha loli!

Antes de tocar no assunto, não poderia deixar de fazer um breve elogio aos personagens que passam a integrar o anime no segundo episódio: o aparentemente ambicioso, mas bastante sensato e gentil, Vidaux, e sua filha fofa e alegre, Mayuka. Eles ajudam Derrida a sobreviver a um ataque dos DZs que ele próprios ajudou a construir e acompanham o engenheiro em suas ações cada vez mais arriscadas.

Vidaux quer uma compensação financeira por tudo o que faz, mas fica claro que ele também deseja construir um futuro melhor para a filha, e para isso apostar suas fichas em alguém que pode acabar com a guerra não parece mau negócio. Mas não duvido nada que ele, infelizmente, acabe morrendo.

Ser humano não tá com nada, sinceramente…

A outra personagem que aparece no final do segundo episódio e tem mais tempo de tela no terceiro é Yuri, amiga de infância da Mage e que também esteve presente no aniversário de oito anos dela – a cena que introduziu a heroína da história. É ela quem dá a notícia de que a Mage morreu e parece esconder alguma coisa, o que é revelado tanto ao público quando ao Derrida nesse terceiro ato: sua adorada Mage não morreu, só está desaparecida. Eu deveria ficar feliz com isso, né? Não, não fiquei.

Antes de comentar o quanto os antagonistas de RErideD são qualquer coisa menos bons, primeiro se faz preciso que eu volte no tempo para tocar em outro ponto que me incomodou bastante no anime: a viagem no tempo. A citam logo no primeiro episódio e é dito que a Mage fez um experimento com ela, mas por que é que eu tenho a sensação de que tudo relacionado a esse tema é fantástico e nada científico? Será que é porque uma menina, que tem a mesma aparência da Mage de 8 anos, surge na frente do Derrida em momentos convenientes e faz isso como se estivesse se materializando a partir de um feitiço? Ou será que é porque muito é falado sobre ciência na série, mas nada é explicado? Ou será que é porque no final do quarto episódio o Derrida percebe que ele viajou no tempo congelado?

Quando você diz que não é lolicon, mas a loli é precavida.

É por tudo isso! Um sci-fi que se preze deveria se dar ao trabalho de explicar como as coisas ocorrem, mas esse anime não gastou qualquer tempo com isso. Nem vou questionar como uma criança fez uns experimentos com uma máquina do tempo, mas é quase certo que ela viajou no tempo ou se dividiu em duas(?) dando vida a tal de Ange – que mais parece um espectro que viaja entre linhas do tempo.

Quanto ao fato dele ter vindo de uma linha do tempo diferente, só posso questionar como foi que o salto temporal se deu enquanto ele estava congelado. Dá para inferir que a Mage deixou seu relógio lá onde ele estava como uma pista e que ela tem envolvimento nisso, mas ainda não deram nada que ligasse as coisas. Além disso, foi uma baita trollagem fazer a gente acompanhar o Derrida que era da mesma linha do tempo da Yuri atual, mas o que acordou 10 anos após ser um que veio de outra. Foi como se tivessem trocado o protagonista. Na verdade, fizeram isso, ainda que sendo por ele mesmo. Ou ele mudou mesmo o passado, mas não vejo como isso seria possível e temo por uma explicação…

Quando a onee-san nem pergunta nada e quer logo é te matar de amor.

Para piorar, o manda-chuva da Rebuild, que é tipo um vilãozinho do anime, não passa de um ridículo que era para fazer o público sentir raiva – as atitudes dele são bem maléficas –, mas acabo é sendo o alivio cômico do anime. Não fui com a cara dele já no primeiro episódio, mas depois que ele contrata a assassina isso só piorou, porque ela também não tem qualquer carisma e só reforça o quanto ele é um vilãozinho de quinta categoria. Era para ele ser engraçado? Acabou foi causando o efeito oposto.

Eu acho muito triste o Derrida perder o pai, o nome, e boa parte da vida por causa dos planos de um cara atrapalhado e tapado como o Andrei. Não que o herói da história seja fantástico, mas se falta a ele carisma e uma personalidade aprazível, pelo menos ele foi razoavelmente consistente até então.

Posso ter esperanças de que a sua versão mais velha vai salvar o anime, Mage-chan?

O quarto episódio serviu para os personagens conseguirem mais informações sobre a sumida Mage, o que foi a primeira missão do grupo estabelecido de fato, e de quebra revelou mais detalhes que a trama precisava mesmo revelar para dar o tom de mistério que esse tipo de anime costuma ter. Só acho que a falta de tentativa de explicação atrapalha, pois a confusão nos primeiros episódios não é um problema, mas se as coisas acontecem quando é ideal e há somente uma explicação superficial para tanto, fica claro que a premissa é boa, mas a execução do anime não a aproveita devidamente.

A própria revelação de que a Mage na verdade estava viva foi negativamente surpreendente, porque o normal seria ela estar morta e em algum momento ele viajar no tempo para tentar salvá-la, mas se isso não será preciso, então ela é a viajante do tempo da história ou é ele? Porque viajar inconsciente não vale, né! O subtítulo do anime dá a entender que ele salta no tempo, e duvido que ele vai fazer isso só essa vez, então usar a viagem do tempo dessa forma largada e com uma cara de mágica não foi uma forma proveitosa de estabelecer parâmetros para algo que deveria ter algum método e fim.

Espero que o público não esteja torcendo por esse casal que não deve se concretizar mesmo…

Fim até tem, mas como se chega até ele o público não faz ideia e duvido que isso seja bem explicado em RerideD, que se não foi ótimo na animação e nem no design dos personagens, pelo menos iniciou com certa consistência, mas com o passar dos episódios só foi decaindo. O estúdio do anime é novo, então acho que até estão fazendo um bom trabalho ao não deixar a animação decair, mas os designs são bem genéricos e os próprios personagens não têm tanto “apelo”. Até acho os coadjuvantes mais agradáveis de ver em tela do que o Derrida. Aliás, isso me faz lembrar de mais outro “probleminha”.

No terceiro episódio a Mayuka diz para a Yuri que ela formaria um belo par com o Derrida, mas olha, ele conheceu ela e a Mage quando crianças e parecia mais um tio para as garotas, então será que é mesmo bom deixar no ar um possível romance entre ele e uma delas duas? Porque na sinopse errada do Myanimelist a Mage era tida como namorada dele, o que pode vir a ser, é verdade, mas ninguém vai achar isso estranho ou se incomodar com isso? Não me lembro se no trailer haviam indícios disso.

Lolis, criogenia, viagem no tempo, sinto que já vi isso em algum lugar…

O trecho inicial do anime dá a entender que há algo de romântico entre o Derrida e a garotinha que o seu melhor amigo fez ele jurar que ia proteger. Tudo bem que nesse momento ela aparece adulta, só que eu não consigo assimilar bem isso – ainda mais na temporada seguinte a um anime de viagem no tempo, me refiro a Island, cheio de problemas bem parecidos –, como o adulto muda a forma que ele enxerga a criança. Se o amor que ele sente por ela é fraternal – ao menos até o fim desses episódios esse pareceu ser o caso –, será que não poderiam desenvolver a história mantendo-o nesse sentido?

Não que eles se envolverem amorosamente seja bem um problema, mas eu não vejo razão para isso – tenho a impressão de que a troca desse amor paterno por amor romântico se trata de puro fetiche.

Não comece a shippar desde cedo, e nem mais velho, pois esse é um caminho sem volta.

O futuro do mundo de RerideD é promissor? Não. O futuro do anime é promissor? Também não. Isso significa que estou aconselhando que não continuem a assisti-lo? De forma alguma, mas uma equipe de produção, ao menos parte dela, que tem um bom nome na praça não é garantia de que a obra vai ser boa ou ótima. Então sugiro que você, caro(a) leitor(a), abaixe ou mude as suas expectativas para esse anime – eu estava hypado, mas não estou mais agora –, esperando dele só um entretenimento momentâneo e não algo capaz de marcar a sua geração, como fizeram Steins;Gate e Lain. Até mais!

Não faz mais sentido, e seria mais simples, ele ter ido parar em outra linha do tempo?

  1. Felizmente eu não estava tão hypado pra esse anime. Ainda pretendo assistir pois eu sou um grande fã de histórias de viagem no tempo, mas realmente não imaginava que ele fosse ser algo no nível de Steins;Gate pois, apesar de ter o mesmo diretor, eu acho que o que mais contruibuiu para a qualidade Steins;Gate foi a história do seu material original, ou seja, mesmo RErieD tendo o mesmo diretor eu já achava bem difícil a equipe do anime conseguir criar uma história original que fosse no mesmo nível de S;G.

  2. Verdade. Eu ao menos esperava que ele tivesse aprendido algo com os acertos de Steins;Gate, principalmente no que se refere a criar uma base sólida para o sci-fi, tratando a ciência – seus aparatos e métodos – com mais seriedade. Não vi grande potencial nesse anime, apesar dele ter sido um pouco melhor que Island, mas ele pode ser um bom entretenimento e se for explicando o básico, fazendo sentido, talvez melhore a impressão mediana que esses quatro primeiros episódios deixaram.

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