Nem só de comédia, drama e romance vive o slice of life. O subgênero, entre os iyashikei (animes ‘curativos’) e as estórias de vida escolar (outro subgênero), pode estar atrelado a animes que encontram no sobrenatural elementos instigantes para entreter o espectador – encantando ou gerando tensão –, seja como parte fundamental da narrativa, seja como subtrama.

O sobrenatural é um gênero que comporta estórias cujos limites da natureza são transcendidos. As personagens convivem com demônios, deuses ou os próprios são divindades ou se tornam uma, ao receber algum dom ou poder especial. Quando o sobrenatural cruza com o slice of life, o bizarro, o inusitado, a magia e o mistério estão no pacote, mas apresentados – e explorados – a favor do cotidiano de seus protagonistas.

O foco central desses animes ainda é o dia a dia, no entanto, enigmas, fantasmas, youkais, maldições etc. se fazem presentes para divertir ou atormentar heróis e heroínas da vida real, ou melhor, de uma “fatia de vida”.

 

Natsu-iro Kiseki (2012)

Natsu-iro Kiseki

Quatro amigas estão para viver suas últimas férias de verão juntas, mas há um problema: uma delas, Saki, está de mudança, e não sabe como lidar com a situação, o que causa desentendimentos com Natsumi e uma alta tensão no grupo. Yuki e Rinko criam um plano para juntá-las. O local da reunião é em volta de uma rocha localizada em um santuário frequentado por elas desde a infância. Em sintonia, as meninas voam, literalmente.  A descoberta causa fascínio, mas também as colocam em situações arriscadas, em que manter o segredo é o grande desafio. Uma rocha que concede desejos pode ser um acontecimento até simples, mas em Natsu-iro Kiseki dá ensejo a um estudo de personagens bem elaborado, com conflitos críveis que não permitem que as amigas se aproximem dos estereótipos comuns ao slice of life.

 

Kyoukai no Kanata (2013)

Kyoukai no Kanata

Mirai Kuriyama é uma guerreira do Mundo Espiritual que deve caçar e matar Youmus, criaturas demoníacas que têm como origem as emoções humanas negativas. Akihito Kanbara é um jovem meio-homem, meio-youme. Mirai tenta matar Akihito, que tem o dom da imortalidade. O encontro entre esses dois seres traumatizados leva-os a se identificar um com o outro e a um inevitável romance.

O anime equilibra perfeitamente cenas de ação – com coreografias empolgantes – e momentos “garotas fofas fazendo coisas fofas”. Afinal, é um slice of life. Seus personagens são o ponto forte da série, em especial os protagonistas, cuja inteiração e afetividade constroem um romance emocionante.

 

Spice and Wolf (2008/ 2009)

Spice and Wolf

O anime tem duas temporadas, tendo um total de 25 episódios. Nele, Kraft Lawrence, um mercador viajante, envolve-se com Holo, uma divindade em forma de lobo. Holo propõe a Lawrence ser seu parceiro de negócios se ele a levar até sua terra natal, Yoitsu, que fica no extremo norte gelado.

As habilidades da deusa lobo para o comércio são impressionantes, o que ajuda e coloca em risco o mercado. Além disso, o poder divino de Holo assusta Lawrence, que faz de tudo para que a identidade dela não seja descoberta.

Holo é uma das melhores personagens femininas dos animes, e Spice and Wolf privilegia o desenvolvimento de seus protagonistas e apresenta ainda uma galeria de personagens secundários instigantes em meio ao comércio medieval.

 

Kokoro Connect (2012)

Kokoro Connect

Cinco estudantes do ensino médio – três garotas e dois rapazes –, que formam a Sociedade Cultural da Academia Yamaboshi Academy, veem-se envolvidos em estranhos fenômenos, como troca aleatória de corpos e o retorno à infância, com os membros do clube regredindo para as mais diferentes idades. Uma entidade se apresenta como causador desse tumulto: Heartseed, ou Semente Coração, que parece testar os jovens.

Kokoro Connection investe nos problemas que cada situação causa. Ainda que force um pouco a mão no melodrama, o anime tem um drama muito bem arquitetado, que envolve o espectador nos inevitáveis conflitos que os “jogos” de Semente Coração geram.

Os fenômenos revelam a verdadeira natureza dos estudantes – em especial Iori Nagase, que talvez seja a melhor personagem –, trazem à tona fatos/ traumas esquecidos no fundo da memória e obrigam os jovens a lidar com sentimentos até então sufocados.

Leia a resenha de Kokoro Connect.

 

Little Busters! (2012/ 2013)

Little Busters!

A adaptação da visual novel tem duas temporadas, sendo que o sobrenatural ganha corpo e uma função mais contundente na trama no segundo período do anime. A personagem central é Riki Naoe, um garoto que se preocupa se terá sempre a companhia de seus amigos. Essa dúvida movimenta a série, já que o líder do grupo, Kyousuke Natsume quer passar o bastão para ele e, ainda por cima, fortalecê-lo, para que cuide de sua irmã Rin, uma menina antissocial.

A ideia de Kyousuke de formar um time de beisebol, colocando Riki e Rin como responsáveis por procurar membros para a equipe, dá ensejo ao surgimento de novos personagens – todas garotas – com problemas a serem resolvidos por Riki e que criam laços com Rin. O que parece ser uma época ideal começa a sofrer drásticos reveses, com alterações no mundo natural, mudança de personalidade e desaparecimento de algumas personagens. Riki e Rin precisam se unir para enfrentar as vicissitudes que os atingem.

Little Busters! é um slice of life com mistério, romance e uma mensagem sobre vínculos afetivos.

 

Inari, Konkon, Koi Iroha (2014)

Inari, Konkon, Koi Iroha

O anime tem um mote interessante – além de ser baseada no xintoísmo: uma deusa concede um pouco de seu poder divino a uma menina de quem deseja ser amiga. Inari, Konkon, Koi Iroha não trata da jovem Inari tentando esconder seu poder – há situações que a colocam em confusões e dramas –, mas sim do vínculo de amizade entre a menina e a deusa Uka-no-Mitama-no-Kami e o modo que Inari lida com o poder recebido, tendo que o controlar, enquanto busca ajudar aqueles que a cercam, como Kouji, o rapaz pelo qual é apaixonada, e suas três melhores amigas, Keiko, Maru-chan e Akemi Sumizome.

A série equilibra de modo delicioso a comédia, o romance, o sobrenatural e a ‘fatia de vida’. E as protagonistas são bastantes especiais, com personalidade cativante (vacilando e aprendendo com suas escolhas) e ótimo desenvolvimento. Inari e Uka-sama nos apresentam um mundo fantástico em que o encorajamento é peça fundamental.

 

Kamichu! (2005)

Kamichu!

Em Kamichu!, a estudante de ensino médio Yurie Hitotsubashi se torna deusa. E, com o poder, ela passa a ter a responsabilidade de ajudar os seus devotos e a sua comunidade. Enquanto lida com a sua nova vida, ela pensa em como confessar seus sentimentos a Kenji, um amigo de escola.

O realismo mágico proporciona ao anime o seu encanto, mesmo que o fato de Yurie ser uma deusa e a presença de espíritos fiquem em segundo plano em relação ao cotidiano da garota. Então, o sobrenatural está mais em função dos problemas que a protagonista precisa resolver em seu papel social de divindade e a sua vida particular, com as cobranças, descobertas e decepções que a ajudam a formar a sua identidade.

Vale destacar a interação de Yuri com os moradores de sua cidade e com o mundo espiritual.

 

Re-kan! (2015)

Re-kan!

Hibiki Amami é uma jovem que pode ver fantasmas. Como é um dom que tem desde a infância, ela não se assusta com o contato com o mundo dos espíritos e dos mortos. Hibiki está para começar o ano letivo em uma nova escola. No caminho, encontra a tsundere Narumi Inoue. Re-kan! é sobre o sexto sentido de uma garota simpática, que busca fazer amizades com os vivos e os fantasmas.

Re-kan! é uma série divertida, principalmente pela dinâmica entre a protagonista e Narumi, que abomina tudo relacionado ao mundo sobrenatural. Além disso, a interação de Amami com os fantasmas, que têm algo pendente e que precisam resolver. Hibiki é a esperança deles, por causa de seu destemor e generosidade.

Leia as primeiras impressões de Re-Kan!.

 

Girls’ Last Tour (2017)

Girls' Last Tour

O cotidiano em uma sociedade pós-apocalíptica. Yuuri e Chito vivem nos escombros de cidades destruídas de uma civilização perto da extinção. O anime se desenvolve de modo lento, valorizando a relação entre as jovens e as suas reflexões. Amizade e sobrevivência estão em primeiro plano.

Aos poucos, outros personagens surgem, além de indicações que a realidade em que vivem esconde algum segredo. Nesse sentido, a jornada delas – a exploração de um mundo distópico – é dramática, emocionante e misteriosa, com as suas personalidades sendo essenciais para resolver os impasses e lidar com as situações em que se metem.

Leia as primeiras impressões de Girls’ Last Tour.

Leia a resenha do mangá de Girls’ Last Tour.

 

Haruhi Suzumiya (2006-2009)

Haruhi Suzumiya

A abusiva, arrogante, egoísta, entediada e excêntrica Haruhi Suzumiya é uma deusa? A pergunta e os fatos que envolvem a garota mudam a vida do estudante Kyon. Extraterrestres, paranormais e viajantes do tempo são o desejo e o universo de Haruhi. Kyon, apesar de seu ceticismo, encanta-se pela personalidade da garota. Ao montar um clube com ela, a Brigada SOS, Yuki Nagato, Mikuru Asahina e Itsuki Koizumi entram em cena.

Aos poucos, situações inusitadas começam a acontecer, aumentando as suspeitas sobre a capacidade de Haruki ter poderes para interferir e modificar o mundo. Nagato, Koizume e Asahina podem ser a realização da garota em ter ligação com o mundo extrafísico.

Suzumiya Haruki no Yuutsu mistura vários gêneros, ficção científica, comédia, vida escolar, sobrenatural e slice of life, não sendo capaz de ser feliz em todos eles. E a série é o famoso caso de “deixar perguntas sem respostas” (principalmente no que tange aos coadjuvantes). Melancólico e enigmático ao longo dos seus 28 episódios, o anime testa a paciência e resistência do espectador em oito deles, que são essencialmente o mesmo episódio graças a um loop temporal.

Leia as primeiras impressões da light novel de Haruhi Suzumiya.

 

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