Bom dia!

Tenho escrito muito sobre o blog em si, o que também é próprio dessa coluna, mas meus artigos preferidos da coluna, não vou mentir, são os sobre gêneros e coisas do tipo, como aquele sobre Alta Fantasia e Isekai, por exemplo.

Ainda assim, publiquei um punhado de artigos sobre a indústria e o hobby em geral. Só quê, adivinhe só: a maioria desses artigos são tapa-buracos quando não tenho tempo de pesquisar outras coisas.

Não são todos, é claro. Aquele sobre o Kyoto Animation foi totalmente planejado, embora eu preferisse jamais ter motivos para planejar algo do tipo. Esse é o caso mais uma vez, em que decidi tratar de um tema que nas últimas semanas vem, digamos, pegando fogo.

 

Desnecessauro

 

É claro que me refiro ao tal do “ecchi desnecessário”.

O gatilho para o ressurgimento dessa discussão foi o terceiro episódio de Fire Force.

Se você não assistiu, não está assistindo, não sabe do que se trata, Fire Force é um anime adaptado de mangá homônimo, e do mesmo autor de Soul Eater – isso é muito claro na estética, cenário, character design e mais ou menos até mesmo no espírito da história.

Na história de Fire Force há um problema: com alguma frequência, pessoas aleatórias entram em combustão espontânea e se transformam em infernais, que espalham as chamas e podem causar danos massivos. Para combatê-los existem os Fire Soldiers (vou escrever assim porque não tem tradução oficial para português e não acho que “Soldado de Fogo” fique legal), que são essencialmente bombeiros especializados em infernais.

Alguns fire soldiers têm poderes especiais para controlar ou produzir fogo. É o caso do protagonista, Shinra, que solta fogo pelos pés e usa isso para se impulsionar como se fosse um foguete.

Pois bem, no fatídico terceiro episódio Shinra tenta conversar com o capitão de uma unidade de fire soldiers diferente da sua, porque acredita que ele pode ajudá-lo a esclarecer questões pessoais. O capitão se esquiva, encerra a discussão e quando Shinra faz menção de insistir uma fire soldier chamada Tamaki daquela outra unidade o impede.

Assim que ela se coloca no caminho do Shinra, que estava esticando o braço e fazendo menção de perseguir o capitão, eis que a mão do protagonista escorrega por baixo do top que praticamente é só um biquíni que ela veste, e ele agarra em cheio, embora acidentalmente, o seio da Tamaki.

 

Shinra mete a mão no peito da Tamaki

 

Tem mais. Tamaki fica constrangida, furiosa e tanta acertar um tapa na cara do Shinra. Ele dá um passo para trás, para desviar, e ela escorrega. Ele a segura, impedindo que caia. Mas ele a segura colocando as mãos por dentro das calças dela, segurando dessa vez as nádegas da garota.

 

Shinra segura Tamaki pelas nádegas

 

Foi a isso que alguns chamaram de “ecchi desnecessário” nos primeiros dias e estão desde então sendo malhados com memes. Foi mesmo desnecessário?

Em primeiro lugar, o que “necessário” quer dizer no contexto de uma obra de ficção? Quero dizer, nenhum anime é necessário para começo de conversa, nem nada do que acontece em nenhum deles. Se for para ser rigoroso, necessário é água, alimento, oxigênio e abrigo, não é? Nada mais é “necessário”.

Mas eu entendo o que querem dizer. Quem diz que algo é “desnecessário” em um anime está dizendo que um elemento seu qualquer do qual não gostou poderia ser substituído por outro, mais de seu gosto, ou que é totalmente sem relevância, podendo ser removido que nada se perderia.

Sobre a substituição, dizer o quê? No reino das possibilidades, tudo poderia acontecer mesmo. É ficção. Poderia ter aparecido o Tiririca, sei lá. A escolha do autor foi essa e não foi por “necessidade”, foi por preferência criativa.

 

"Se (a arma) não vai ser disparada ela não deveria estar pendurada ali"

“Se não vai ser disparada não deveria estar pendurada ali”

 

A segunda alternativa (irrelevância) é muito mais interessante. É algo que eu mesmo critico em minhas análises e resenhas, e costumo usar o termo “consequência” ou similares. Pode pesquisar aí no blog por “consequência”, “inconsequência”, “consequente” e outros termos com a mesma raiz que vai ver.

Quando escrevo que algo é inconsequente estou querendo dizer que não faz diferença nenhuma para a história ou sequer para os personagens. Em termos literários, essa é uma variação do conceito da Pistola de Chekhov.

Chekhov foi um dramaturgo e escritor russo, e sua Pistola foi formulada assim: “Se no primeiro ato você tem uma pistola pendurada na parede, então no último ato você deve dispará-la.”

O que isso quer dizer é, justamente, que uma boa obra não deve ter elementos (veja só…) desnecessários. Ou irrelevantes. Mas essa necessidade ou relevância é definida no contexto da própria obra.

Não se trata de dizer que algo é desnecessário porque poderia ser outra coisa no lugar, mas sim que algo é desnecessário por não ter função, não contribuir em nada.

Foi o caso em Fire Force? Lógico que não. A inconveniência criou um clima de animosidade entre os dois personagens que, mesmo amenizado ao final do episódio, com certeza irá definir o tom da relação entre eles no futuro.

 

Mesmo depois de salva pelo Shinra, Tamaki continua nervosa com ele

 

Podemos discutir, isso sim, a qualidade dessa escrita. Mas não sua necessidade.

A essa altura quem é fã de anime já está careca de saber que, em obras do gênero battle shounen (e em outras), o acidente e o personagem desastrado que acaba se envolvendo em situações que criam fanservice ecchi é um clichê comum.

Clichê bom ou clichê ruim? Eu tendo a não avaliar clichês dessa forma, preferindo, ao invés, diferenciar o clichê útil do clichê inútil. Se você sabe ler, vai notar que estou insistindo na mesma coisa: consequente ou inconsequente, útil ou inútil.

Via de regra clichês são úteis porque de entendimento rápido. A repetição têm suas vantagens. Por outro lado, depender muito de clichês é um vício próprio do autor preguiçoso.

Além do fanservice, o episódio 3 também teve outro clichê comuníssimo no gênero battle shounen: o torneio. Já é hora de começarmos a nos preocupar então? Bom, foi anunciado como um tipo torneio, mas na verdade foi só uma prova. Amenizou, de novo.

Mas no mínimo vale a pena ficar atento. Eu não li o mangá, mas já vi mais de uma pessoa que o conhece dizer categoricamente que é pior do que Soul Eater. Eu vou ficar atento.

 

Para ser razoável, a Tamaki parece ser brava desde o começo, então talvez isso tenha sido um pouco inconsequente sim

 

E já que mencionei o clichê “inútil”, a “coisa pela coisa”, “inconsequente”, acho por bem tratar brevemente do fanservice – em particular do fanservice ecchi, mas o que escrevi se aplica a qualquer tipo de fanservice.

Ecchi então é “ruim” e “desnecessário”? Depende. Há gêneros que não fazem sentido sem, não da forma como seu próprio público os consome hoje em dia. O harém me vem à mente e aposto que você também pensou nele.

Não costumo gostar de haréns, mas existem alguns bons. Não sei se você gosta de haréns. Gosta? Em todo caso, por favor, né, não vamos reclamar de fanservice só porque ele existe em um harém.

 

Gotoubun no Hanayome é muito bom

 

Eu sei que não é o caso de Fire Force, mas como já expliquei também não se tratou de fanservice só pelo fanservice. É desenvolvimento e caracterização de personagem, ainda que talvez não do tipo que muita gente preferiria.

Mas acho que alguns casos merecem avaliação mais atenta sempre, e críticas duras quando necessário. Não pretendo esgotar o tema nesse artigo, mas espero que dê para entender por indução.

Há fanservice que remete à abuso ou violência. Absolutamente não insinuo que se deva proibir isso. Não se deve proibir nada (ok, quase nada, mas o que seria impermissível está fora do escopo desse artigo).

É ou não é de muito mal gosto que ao longo dos vários arcos de Sword Art Online o estupro seja usado como ferramenta apenas para provocar repulsa? Bom, menos mal que a intenção é provocar repulsa. Mas é um sinal claro de preguiça criativa, e o próprio autor meio que admitiu isso quando disse, em entrevista, que estava só repetindo o que ele lia em light novels em sua adolescência.

Tem casos em que não é necessariamente preguiça, pois não é algo recorrente para que se possa acusar o autor disso, mas a execução não obstante é problemática. Foi o caso do estupro em Goblin Slayer, por exemplo. Estava lá para causar repulsa, máxima repulsa, mas a composição da cena é reminiscente de hentai.

Ou seja, a cena repulsiva queda fetichizada. Tanto pior porque um clichê comum em hentai de estupro é que a vítima “acabe gostando no final”. Em hentai isso é, vá lá, aceitável. Em uma obra normal não é, e o mais doido é que essa não foi a intenção em Goblin Slayer – daí que eu acuse o erro de execução.

Por fim, há casos em que o problema não é a execução, mas a ideia que é complicada mesmo. A situação abusiva ou violenta é tratada como piada. É o caso de Nanatsu no Taizai. Esse é super famoso e acho que não preciso descrever, certo?

Eu já escrevi antes que não acho que se deva proibir nada (ou quase nada), e não recuo nisso. Gosta? Quer ler ou assistir? Vai fundo! Se você se diverte com isso, quem sou eu para dizer que não deveria, não é?

Só peço que entenda porque esse tipo de coisa é criticada. E que respeite quem critica. Debater é saudável, se tem argumentos para defender esse ou aquele caso de “ecchi desnecessário”, pode discutir com quem disser o contrário – desde que ela queira discutir também. Para algumas pessoas pode ser uma questão bem mais pessoal e podem preferir não discutir.

A internet inteira continua aí para você publicar seus argumentos, porém. Por todos os meios, faça isso, por favor!

O que me incomoda não é o ecchi “desnecessário” ou “necessário”. O que me incomodou nesse caso foi a pobreza de argumentos e a enchente de memes desqualificando o argumento do outro lado – desqualificando as críticas sobre a “desnecessidade”.

Qual é, não estamos mais na quinta série (alguns estão, mas tenho fé que a maioria não está). E até admito que as piadas no começo estavam engraçadas. Foi quando eu percebi que o volume era tamanho que, na prática, o que se estava fazendo era impedir o debate, que fiquei incomodado.

Já se vão duas semanas da transmissão do tal episódio e ainda tem memes novos sendo criados.

 

Paródia feita sobre cartum do Desenhista que Pensa

Desse eu gosto só porque gosto de quase todas as paródias do Desenhista que Pensa

 

Nem é como se alguém criticando o seu anime fosse realmente te atrapalhar. Na pior das hipóteses, você sempre pode continuar assistindo enquanto ignora o que dizem. Em paz.

Ou então engaje-se em discussões acaloradas com quem tiver vontade de discutir acaloradamente. Admito que discutir de vez em quando é divertido por si só também. Mas daí vamos tentar melhorar os argumentos pelo menos, senão não é de uma discussão isso que estamos descrevendo.

Fique em paz e deixe os outros em paz também.

Viva e deixe morrer.

 

  1. Mob

    Realmente “desnecessário” é bem melhor ser trocado por “irrelevância”. Centenas de animes são lançados todos os anos e já está visível que esse tipo de ecchi já não é bem visto pela saturação. Eu mesmo estou cansado da preguiça e falta de criatividade dos autores. Usar isso demasiadamente me faz ter um certo incômodo em relação à obra. Enfim, posso estar bem errado, mas o uso disso para um desenvolvimento ou interação dos personagens é, visivelmente, mais fácil de perder a graça que outros modos.

  2. Avatar

    Velho, parabéns pelo texto, não sei como alguém poderia fazer algo tão mal feito, ruim e ainda ter coragem de postar na internet. Estudar narrativa, que imagina só, vai além de anime de punheteiro. Parabéns,

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Olá … Kiuliano? K. Iuliano? Enfim, tudo certinho?

      Quase metade do meu artigo se dedica não a discutir sobre conteúdo erótico, mas sim sobre respeito entre as partes durante uma discussão e o uso de argumentos objetivos. Você fracassou miseravelmente nas duas coisas.

      Não tenho problema que discordem comigo. Eu gosto de debater! Traga seus argumentos! Se você é um estudante de narrativa como faz supor, com certeza pode nos presentear com um ou dois argumentos, não? Qual é, J., eu me dei ao trabalho de escrever um longo artigo, ponderado, tratando da questão sobre vários pontos de vista diferentes, acho que eu mereço um argumentozinho. Se não, faça isso por consideração, pelo menos. Você é uma boa pessoa, não é? Apenas boas pessoas se preocupam com o que as outras assistem, afinal. Vai que o conteúdo as desvia para o mal caminho?? Então por favor, seja bondoso comigo e compartilhe com nosso pobre blog um argumento objetivo sobre o que quer que você esteja tentando dizer.

      Você vê, K., um dos motivos de eu publicar em meu blog não é por coragem. Muito pelo contrário! É por covardia. Eu tenho medo de gente babaca que só faz ofender, só joga bosta no meio do debate e no final não contribui em nada exceto para exacerbar os extremos. Não digo que você seja um babaca, porque já disse que sei que você é uma boa pessoa, mas o seu comentário com certeza é típico de babacas. Aqui, no meu blog, no meu espaço, eu posso simplesmente apagar essas agressões gratuitas. É libertador, Kiuliano!

      Mas vou deixar seu comentário aqui porque, além de eu confiar na sua bondade e ter certeza que irá me responder com argumentos adequados para expor devidamente a sua posição, no mínimo ele serve de exemplo para o exato tipo de babaquice que eu denunciei nesse próprio artigo.

      Obrigado pela visita e pelo comentário! 😊

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      Depois de coach, J. faz parte da nova tendência profissional: fiscal de punheta.

      Só queria saber de onde vem essa escala que coloca animês com abordagem mais complexa de história/personagens em grau superior aos animês de fanservice.
      Qual teoria embasa isso? Quem desenvolveu? Em que contexto foi criada? Ela serve a quais interesses? Por que ela deve ser levada em conta?

      Cada coisa tem uma finalidade, uma serventia, uma função.
      Ficar assistindo animê complexo atrás de animê complexo é um saco. A melhor coisa é ir alternando os estilos. Lembrando que uma das características mais incríveis dos animês é a diversidade. Para que se limitar?

      Depois de um dia super estressante e cansativo de trabalho, quem quer ver Evangelion?
      O lance é meter um Senran Kagura e ser feliz!

      Meu caro J., não deixe que conceitos estúpidos, que você nem sabe quem inventou, limitem sua vida.

      #PunhetaLivre #FapPresente

  3. Avatar

    boa cara resumio meu pensamento , hoje em dia tem uma porrada de pseudo ditador querendo ditar o que e certo e errado pros autores , usando o moralismo barato deles como desculpa pra mascara seu pensamento autoritário

Comentários