Bom dia!

Para quem está chegando agora, o Café com Anime é um bate-papo sobre alguns animes da temporada entre mim, pelo Anime21,  Vinícius Marino (Finisgeekis), Gato de Ulthar (Dissidência Pop), e Diego (É Só Um Desenho). Cada blog irá hospedar as transcrições das conversas de um anime: ao Anime21 caberá publicar os artigos sobre Violet Evergarden; ao FinisgeekisCardcaptor Sakura Clear Card; ao É Só Um DesenhoKokkoku; e ao Dissidência PopMahou Tsukai no Yome e Junji Ito: Collection.

Sem mais atraso, leia a seguir a conversa que tivemos sobre o episódio 13 e final de Violet Evergarden!

Fábio "Mexicano":
Ok, demorei demais, eu sei, me desculpem, mas vamos terminar com isso então. Não vou escrever textão aqui dessa vez. Ao invés, eu acho que existem três coisas básicas sobre esse episódio, e as três são ruins. Escolham por onde começar:

  1. Mais ação ruim. Adicionalmente, desde quando o Benedict é ninja também?
  2. Esse episódio foi uma bagunça. Ele poderia ter acabado várias vezes. Ele construiu um encerramento várias vezes antes de, bem, finalmente encerrar de vez.
  3. Esse episódio consolida Violet Evergarden como um péssimo anime sobre lidar com a perda.

Vinícius Marino:
Acho que você foi meio duro no item 3. Violet derrapou legal e fraturou algumas vértebras, mas também está longe de ser péssimo. Claro, o fracasso total de seus últimos episódios de fato passa a impressão de que tudo foi uma grande bagunça
Diego:
Que tal começarmos pela possibilidade do major estar vivo ainda? Porque com certeza não fui só eu quem pensou isso daquela cena pós créditos… né? Ah, e Violet foi uma grande bagunça, Vinicius 😛 No mínimo desde que o anime “acabou” no episódio 9.
Vinícius Marino:
Não nego. Mas o Violet que acabou no episódio 9 foi legal. E o episódio 10 foi o melhor entre todos os animes que acompanhamos nessa temporada. Não posso de boa fé chamar um anime assim de “péssimo”. Mas Sim, eu também achei que eles forçaram a barra para que o major esteja vivo. O que deixa de ser irritante e passa quase a ser cômico nessa altura do campeonato
Gato de Ulthar:
Só eu penso que talvez o major não esteja vivo? Aquele sorrisinho da Violet pode ser apenas uma reação ao se deparar com mais um cliente. Antes da porta ser aberta ela estava séria, quando ela abra ela dá um sorriso. Não necessariamente tem que ser o major, por de ser qualquer um, ainda mais pelo fato dela ter se aberto muito mais para expressar sentimentos. Mas, é claro que essa cena despertaria esse tipo de ambiguidade desnecessária. Não foi um final emocionante, mas não desgostei totalmente das últimas cenas, se tivessem apenas tirado a ação já seria um último episódio razoável.

E sim, o anime devia ter acabado no episódio 9 e jogado o episódio 11 para antes. Além disso, deveria ter cortado qualquer questão envolvendo ação e focado exclusivamente no slice-of-life. Se tivessem feito isso, acho que poderíamos chamar Violet Evergarden de um bom anime.

Fábio "Mexicano":
Me expressei mal. É um bom anime, embora seja sim uma bagunça. O que é péssimo é sua abordagem sobre lidar com a perda. Violet Evergarden tem a cara de pau de terminar com um “ah, mas talvez ele esteja vivo??” depois de tudo o que foi dito e feito, apesar da incongruência que seria o Gilbert ter sobrevivido àquele ataque mas desaparecido do mundo.

E aí tem as demais histórias sobre perda do anime. A do soldado não leva a nada e a gente nem conhece sua família e amiga, que terão que aprender a viver em um mundo onde ele não existe mais. O episódio 10 foi fantástico, o melhor do anime, mas foi mais sobre o desespero da perda em si para uma criança tão nova do que sobre lidar com ela, e convenhamos que ficar 50 anos de sua vida recebendo cartas de sua falecida mãe não deve ser exatamente saudável, ainda que seja muito romântico, tocante, e tenha cumprido bem o papel de levar a Violet ao abismo da empatia. A única história boa sobre lidar com a perda foi a da Luculia e seu irmão, que reaprenderam a viver apenas um com o outro, sem os pais. Sintomaticamente, é uma história original do anime, não tem na novel.

Vinícius Marino:
Mas convenhamos, isso é quase o mesmo que dizer que uma adaptação de videogame foi um filme ruim. Luto é uma coisa muito delicada que pouquíssimos animes comerciais, de temporada, conseguem fazer bem. Mesmo animes dedicados a isso, como Orange, pisam na bola feio. E geralmente os que fazem bonito (Made in Abyss, Anohana, Showa Genroku Rakugo Shinjuu) são louvados como obras-primas.

Se Violet tivesse mirado mais baixo – por exemplo, ser apenas um chororô genérico – teria tido mais sucesso. O estado final do anime foi o resultado de um excesso de ambição – em vários sentidos. Devo dizer que prefiro isso a uma falta de ousadia, mas erro é erro.

Fábio "Mexicano":
Sim, e eu estaria perfeitamente ok com isso. Mas me parece que Violet tentou sim fazer isso, e falhou miseravelmente. As histórias individuais, de todos os tipos, que o anime contou, garantiram o bom nível da obra no fim das contas. Teria sido melhor ser 100% episódico.
Gato de Ulthar:
Esse foi o erro de Violet, começar uma coisa e se tornar outra de maneira abrupta. Se essa mudança ainda fizesse sentido, ou fosse uma mudança de tom para melhor, como em Madoka (está certo que a mudança de tom neste anime começou já no terceiro episódio), teria sido muito mais eficiente. Contudo, fazer um salto de um slice-of-life para uma triller de ação mal elaborada foi um tiro no pé super pretensioso. O que dói mais é que Violet tinha muito potencial.
Fábio "Mexicano":
Olha, como era a história da própria Violet, fazia sentido sim. De fato, estávamos esperando por isso desde o primeiro episódio, não é? Mas o resultado…
Gato de Ulthar:
Depende de qual sentido fazer. O anime desde o começo deu uma roupagem de ser apenas um slice-of-life. ninguém que assiste um slice-of-life quer que o anime vire uma obra de ação, é muito incongruente. Tanto é que o maior ódio pela maioria dos episódios foi o fato de ser um anime focado nos relacionamentos humanos, sem ação. Parece que por ter um visual bonito e uma animação bacana, é necessário que tenha ação envolvida, e não podemos usar uma personagem que parece a Saber de Fate sem botar ela lutando, isso é um ultraje!!
Fábio "Mexicano":
Se a ação fosse bem feita e convencesse, seria estranho mas seria ok. Quero dizer, a Violet é uma ex-soldado afinal. Mas o maior problema nem é esse, para mim o maior problema foi ter lidado mal com o tema que se dispôs a tratar mesmo – o luto. Quanto à ação em si, bom, o Benedict se revelou um ninja de salto que corre mais rápido do que trens e dá voadora em bombas. O que eu posso dizer para rebaixar o anime que ele próprio já não tenha feito por si mesmo, muito melhor?
Gato de Ulthar:
Deviam fazer um spin-off do Benedict, o Ninja de Salto Alto. Eu assistiria 😛 Ainda quero saber por que cargas d’água o rapaz usa salto alto na bota. Seria ele apenas 30% crossdresser?
Fábio "Mexicano":
Só para rir né? Eu também assistiria. Falando no Benedict, parece que no final ele arranjou um polígono amoroso, hein? A Erica gostava dele, que gostava do Hodgins, que já estava sonhando em ter filhos com a Cattleya, que parece ter gostado tanto da ideia que não se segurou e contou pra todo mundo só pra envergonhar o chefe.
Gato de Ulthar:
“Polígono amoroso”, coisas que vemos em Violet…
Fábio "Mexicano":
Coisas que não queríamos ver em Violet
Vinícius Marino:
Eu não me incomodaria em ver um polígono amoroso se essa ideia ganhasse pelo menos algum espaço para se desenvolver. Jesus Cristo! Eu só pedi uma versão melhor de Plastic Memories, e eis que mesmo Plastic Memories entregou isso melhor!
Fábio "Mexicano":
Vinicius ficou tão chateado com o anime que preferia que a Violet tivesse morrido, é isso mesmo? 😛
Vinícius Marino:
Falo dos romances de escritório de Plastic Memories, não das mortes melodramáticas. Não acho que o problema seja a Violet ter sobrevivido. A morte dela não aliviaria em nada os problemas do anime.
Fábio "Mexicano":
Eu sei, brincadeirinha ☺️ E nossa, nem me lembre dos “romances” de Plastic Memories. Mas né, pelo menos eles surgiram “naturalmente” ao longo do anime, aqui em Violet Evergarden tudo foi socado de uma vez só no último episódio, estilo novela da Globo.
Diego:
Já que estamos falando de romances, podemos todos concordar então que o amor que o Major sentia pela Violet era um amor paterno? Porque foi isso que eu tirei do anime 😛
Vinícius Marino:
Foi bem… não sexual, de fato. Mas acho que tudo depende da sua sanha por “shippar”. Há quem tenha achado romance até em Girls’ Last Tour
Diego:
Não vejo problema com ships dos mais diversos – quem quiser shippar a Violet com o guarda-chuva que se sinta a vontade. Mas em termos de o que o anime de fato tenta passar, me pareceu que ele quis dar a ideia de um relacionamento pai-filha mesmo.
Fábio "Mexicano":
Violet Evergarden não é contra romance entre jovens adultos e garotinhas – lembrem-se da princesa. Isso dito, sim, com certeza é não sexual, e por vezes é paterno, mas será que era só paterno? Alguém nas circunstâncias dele, independente de como se sentisse pela Violet, seria mesmo obrigado a assumir cuidados paternos. Ela era uma criança!
Gato de Ulthar:
Deixem a VIolet viva, ela não merece morrer! Foi tudo culpa do anime, não dela!
Fábio "Mexicano":
Ah, eu acho que a Violet morrer seria péssimo, também. Crianças não têm que morrer para redimir os erros dos adultos (seja os erros dos adultos dentro da história, seja os meta-erros dos adultos produtores do anime).

Pergunta relevante: será que nesse mundo próteses complexas como as da Violet são tão baratas que ela pode perder e ganhar novas assim? Mas se fosse o caso suponho que o anime não tivesse insistido tanto na repetição da cena em que alguém vê a mão protética da Violet e fica chocado. Devem ser caras, e alguém pagou para ela. As originais foram pagas pelo exército? Pelo governo? Pela família do Gilbert ou o próprio Hodgins? E as novas? Bom, ela aparentemente salvou o mundo, porque embora todas as nações queiram muito a paz, elas querem mais ainda que aquele diplomata em particular sobreviva e a negocie, se ele tivesse morrido teria ido tudo por água abaixo, então a Violet (e o Benedict!) é importante. Se me perguntar, portanto, acho que o que ela fez agora foi mais importante do que o que ela fez antes, na guerra, então se foi o Estado (qualquer um) que a comprou próteses antes e agora, por que agora só a de um braço é funcional o bastante para datilografar cartas? Foi o que o anime deu a entender, não foi? Ou a Violet só estava com preguiça de usar o outro braço? Ou teve um derrame depois de tudo o que passou e perdeu o movimento fino do braço, mesmo com prótese?

Ok, eu estou só sendo chato, talvez não seja tão “relevante” assim, eu sei. Ela pode apenas ter perdido um pedaço do braço vital para que próteses com dedos funcionem direito, sei lá. Mas eu quero ser chato. O que acham?

Vinícius Marino:
Eu duvido muito. Se você parar para pensar no tanto de tecnologia necessária para um treco desses funcionar, não há razão sequer para essa sociedade ser do jeito que é. Na certa seria um mundo futurista ou uma utopia steampunk. É que nem nos dar um mundo hipotético que inventou energia ilimitada, mas só usa para operar torradeiras. É puro “style over substance”.
Diego:
De onde a Violet tirou essas próteses é um dos maiores mistérios do anime. Considerando que aquele soldado, irmão da garota que ela ajuda quando estava na escola, aparentemente não recebeu nenhuma prótese complexa pra perna, eu imagino que foi a família do major quem pagou por elas, e não o Estado ou o Exército. Mas acho que pensar muito sobre isso é além do ponto. As próteses existem para reforçar o paralelo da Violet como uma boneca, e provavelmente ninguém (nem o autor original, nem a equipe do anime) pensou muito sobre a verossimilhança da coisa.
Gato de Ulthar:
Acho mais provável que as próteses tenham sido pagas pela família do Gilbert.
Fábio "Mexicano":
Ok. É irrelevante de todo modo. Palavras finais sobre o anime! Digam tudo o que vem em seus corações quando pensam nesses três meses de Violet Evergarden ❤️
Diego:
No final, eu sinto que Violet Evergarden foi… ok. Certamente não foi tão ruim quanto seus detratores insistem, mas também não é um anime sobre o qual eu irei pensar com lá muita frequência daqui pra frente. Ele fica como um marco em termos de qualidade visual de animações para a TV, e merece esse posto, mas em termos de história, personagens, worldbuilding… Não posso deixar de sair do anime um tanto quanto desapontado.
Vinícius Marino:
Eu tinha pensado em escrever uma defesa de Violet, argumentando porque não era tão terrível quando falavam. Eu mudei de ideia. De fato, não foi uma série ruim. Mas no final é como disse a Kim Morrissy do ANN. Existe dois animes em Violet: um slice of life sobre relações humanas e um dramalhão sobre guerra. Um é muito bom. O outro… poderia não existir.
Gato de Ulthar:
Se eu pudesse, pegaria o anime e o editaria, deixando somente o alice-of-life, retiraria, depois apagaria da minha mente o que eu assisti de Violet e veria minha edição. Eu teria uma boa experiência.
Vinícius Marino:
Não obstante, mesmo assim seria um anime “ok”. Mesmo nos seus melhores momentos, eu não senti o mesmo poder de outros grandes slice-of-life. À exceção do episódio 10, que foi a fórmula em seu ápice. Estou aqui pensando em 3-gatsu no Lion, que nem é um super anime (e que eu nem vi até o fim), mas que no espaço de um arco consegue dar um murro emocional que supera em muito boa parte do que Violet trouxe.
Diego:
Para mim, os dois melhores episódios foram o da princesa e o episódio 10 – e mesmo assim, ambos têm partes que realmente me irritam e incomodam no começo, se tornando realmente bons do meio pro final. Mesmo em seu melhor, Violet consegue quando muito entregar um bom final para um começo morno.
Vinícius Marino:
Eu já mencionei aqui no Café a fórmula do Howard Hawks para um bom filme: três cenas boas e nenhuma ruim. Violet parece ter feito o contrário. Para cada cena boa, parecem ter havido três ruins
Fábio "Mexicano":
De certa forma é o medo que tínhamos desde o começo, não é? Os trailers foram ambíguos, mas o primeiro episódio foi taxativo: isso é um slice of life. Eu gostei muito desde sempre, alguns aprenderam a gostar, e outros continuaram não gostando, até que o anime não mais do que de repente resolveu fazer justiça aos trailers. O resultado foi frustrante. Não porque não houvesse ali a semente de uma boa história, não porque a mistura de gêneros tivesse que necessariamente ser ruim, mas porque o tom dos dois foi completamente diferente. Um drama slice of life episódico e realístico, e um melodrama com ação canastrona, os dois a 80 quilômetros por hora? Um corre pra um lado e o outro pro seu oposto.

É isso aí, adeus Violet Evergarden. Kyoto Animation anunciou que vai ter ainda um especial ou qualquer coisa assim e eu devo assistir, mas de jeito nenhum vou comentar (a não ser que de alguma forma que não consigo vislumbrar agora me surpreendam de verdade), e não deve mais dar as caras aqui no Café com Anime. Foi bom quando foi bom, foi ruim quando foi ruim.

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