O que esperar de um anime japonês com duração de 15 minutos que adapta um mangá criado por um autor chinês e é lançado via internet por uma editora taiwanesa? Jikken-hin Kazoku: Creatures Family Days (ou Shiyan Pin Jiating para os íntimos) é o nome dessa obra, agora multimídia, detentora de características tão peculiares e que está sendo lançada simultaneamente nas TVs japonesas e taiwanesas na temporada de abril de 2018. A história é um slice of life relativamente bem animado, agradável e com um bom potencial para o drama – e quem sabe para a comédia? – cuja estreia foi boa, apesar de ter apresentados alguns probleminhas. Vamos conhecer essa família bem diferente?

Tanis é um garoto normal considerado um gênio pelos pais e que por isso não foi geneticamente modificado por eles, mas os seus quatro irmãos não tiveram a mesma sorte e sofreram mutações provocadas pelos pais cientistas que criavam essas crianças em algum tipo de instituto. Eles foram descobertos e presos e seus filhos fugiram para o mundo de fora. A partir daí elas passaram a viver em uma casa e estão tentando, na medida do possível, viver uma vida normal de um jeito normal.

Snow tem genes de cachorro e consegue se transformar em um, Ashise tem genes de planta e até faz fotossíntese(?), Aisley tem genes de aranha e até patas nas costas, e Suishi consegue ler mentes. Os quatro são irmãos de Tanis e encontram nele o sustentáculo para o ambiente familiar no qual eles vivem. Até aí tudo bem, pois a história consegue passar a impressão de ser um slice of life que deve puxar a trama mais para o drama com o quão mais for sendo revelado sobre o passado deles, assim como dificuldades forem aparecendo – as opiniões alheias que provocaram um momento mais tenso foram um exemplo disso – e a vida cotidiana que eles têm agora vier a ser ameaçada. Porém, um dos problemas dessa estreia foi ter explicado pouco – e de forma confusa – as origens dos cinco irmãos.

Se família grande já é um desafio, imagina se for (quase) toda modificada geneticamente…

Como os pais deles foram presos e o governo não deu apoio ou não fez experimentos com os filhos “peculiares” deles? Tudo bem, não daria para o governo usar eles para novos experimentos porque a opinião pública – os direitos humanos, etc – iriam cair em cima, mas deixá-los vivendo no mundo normal sem assistência ou vigia também não me parece uma coisa que qualquer governo sensato de um país deveria fazer. Pode até haver isso, pode ser que eles estejam tentando viver uma vida normal juntos com o apoio financeiro do governo, mas a cena em que no restaurante comentam que o cosplay deles é muito bom aponta que esse fato não é de conhecimento da opinião pública e deixar pessoas geneticamente modificadas a tal ponto sem supervisão me pareceu algo bastante inconsistente, assim como eles terem fugido e viverem por conta – é algo meio difícil de acreditar. Faltou haver um ambiente propicio para que eles estivessem “soltos” e “livres” nessa sociedade ou explicações plausíveis de como conseguem viver escondidos do governo ou de outras organizações.

Sim, pode não ser impossível que o Tanis e/ou a Suishi tenham juntos dado um jeito nesses detalhes – conseguindo se virar mesmo sem ajuda governamental e até evitando “cair nas mãos” do governo –, mas não foi o que pareceu nesse primeiro episódio. Talvez com o prosseguimento do anime isso seja melhor explicado e faça o mínimo de sentido pedindo o mínimo possível da suspensão de descrença do telespectador, mas por hora me pareceu mais uma história bastante interessante que, infelizmente, não teve uma explicação minuciosa e satisfatória que a justificasse – e talvez nem terá.

Quanto a parte técnica ele até que foi bem, tendo uma boa trilha sonora e animação com um elenco de seiyuus populares, mas pecou na movimentação de algumas cenas ao apresentar uma fluidez quase inexistente e que deixou os personagens um tanto quanto “travados”. Animes chineses muitas vezes têm esse mesmo problema e a produtora desse anime é chinesa então isso não me estranha nenhum pouco. Mas no geral foi algo agradável de ver, com uma arte adequada para um slice of life capaz de mudar o tom e a estrutura visual – como no final do episódio – quando se fizer necessário.

Uma bela cena que me deu mais esperanças de que o anime seja realmente bom.

A interação entre os irmãos foi orgânica e passou a ideia de que aquela é realmente uma família independentemente de que genes um ou outro tenha? Foi, pois a figura mais paterna do Tanis agiu bem enquanto alicerce daquele agrupamento familiar, tentando sempre ajudar os irmãos a agirem e pensarem de uma forma que os permitissem se incluir no que seria o “normal” do mundo, e eles mesmo interagiram entre si de uma forma próxima a como irmãos se relacionariam na vida real.

Entretanto, como bem pergunta a “mulher aranha”, o que seria esse “normal”? Porque eles têm que desesperadamente buscar esse status de “normalidade” para conseguir viver suas vidas? Encontrar um meio termo para isso é um desafio do anime, já que a sinopse indica que o Tanis quer descobrir uma forma de fazer os irmãos voltarem ao normal, mas eles querem voltar a esse “normal”? Será que não pode haver “normalidade” para quem é “diferente”? São questionamentos interessantes.

Infelizmente, 15 minutos foi pouco para desenvolver a história nesse primeiro episódio, mas a cena do almoço fora de casa foi boa no sentido de propor algo a ser discutido e a indicação de que há também um passado dramático a ser explorado ali. Resta sabermos se o anime vai conseguir aproveitar todo o potencial que tem. É possível, mas o histórico já bem negativo de animes que têm envolvimento de produtoras ou estúdios chineses não anima muito. Contudo, se tiver gostado desse primeiro episódio dê uma chance ao anime. Uma chance de tornar a família deles um pouco sua.

Confesso que gostei dos personagens e quero deixar eles me cativarem mais e mais!

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