Bom dia!

Batman Ninja é uma anime que celebra o Batman? Ou é o Batman celebrando o anime? Pergunta retórica. É claro que é os dois.

Produzido pela Kamikaze Douga e lançado direto online, Batman Ninja não é uma obra ambiciosa no sentido de tentar fazer algo novo, diferente, ou que acrescente uma visão nova sobre o homem morcego. Ao invés, busca apenas responder à pergunta: E se o Batman fosse transportado para o Japão feudal?

E responde muito bem.

O roteiro de Kazuki Nakashima (Gurren Lagann, Kill la Kill) está mais próximo do Batman clássico (com piscadelas para a série dos anos 1960) do que para o Cavaleiro das Trevas, mas usa o panteão de personagens atual. A Bat-Família (além do Batman, Robin e Alfred, também o Asa Noturna, o Robin Vermelho e o Capuz Vermelho), com a ajuda da Mulher-Gato e do Bat-Clan Ninja (é sério, eles se chamam assim) enfrentam Coringa, Duas Caras, Pinguim, Hera Venenosa e o Exterminador. O Gorila Grodd é o responsável pelo conflito todo e atua como “coringa” da história, ora de um lado, ora do outro.

Gorila Grodd, o “coringa” de Batman Ninja

Para um filme que é tão Batman quanto se é possível ser, a escolha de alguns personagens mais recentes soa estranha. Ok, no melhor estilo filme anime battle shounen, o Batman precisava de um time, e isso justifica a Bat-Família, mas por que não escalar uma personagem mais clássica, como a Batgirl, ao invés do Robin Vermelho ou do ainda mais estranho Capuz Vermelho? Não me entenda mal, eu não sou nenhum especialista em Batman mas nem é preciso ser um para conhecer esses personagens, e eu os conheço muito bem, só estou apontando aqui como eles são relativamente pouco conhecidos. E no caso do Capuz Vermelho, ele ficou até mesmo deslocado. O mesmo se pode dizer do Exterminador: por que não o Charada?

Essa escalação não atrapalhou a história nem tornou o filme pior, acabou sendo apenas potencialmente mais hermético mesmo, mais exclusivo para quem já é fã. Se você não é super fã do Batman, um aviso: não é preciso ser. É só um filme e ele se concentra tanto em ser, antes de qualquer coisa, uma overdose de Batman, e em estilo totalmente anime, que nem se tivesse mais tempo ou se sua equipe criativa quisesse alguém casual poderia se sentir deslocado pela presença desses personagens. Eles quase nem falam a maior parte do tempo mesmo.

Mulher-Gato enfrenta Arlequina

Uma crítica possível aliás é justamente essa: tem muito personagem para pouco tempo. O Monkichi, um macaco de estimação que o Robin arranja, deve ter mais falas que o Exterminador e a Hera Venenosa juntos. Ok, talvez eu esteja exagerando um pouco, mas é quase isso. Toda a história que importa é, como não poderia deixar de ser, entre o Batman e o Coringa. E apesar do Coringa ser o Coringa, o “coringa” do filme é, como eu já adiantei, o Gorila Grodd. Ele quem criou a máquina do tempo que, por interferência do Batman logo no começo, acaba transportando todo mundo para o Japão feudal.

A partir de agora haverá spoilers sobre o filme. Se não quiser ler spoilers, pule os próximos parágrafos até a marcação em que encerro os spoilers.

Antes de assistir eu estava com a expectativa de que fosse uma história mais simples, com o Batman lutando contra o Coringa e outros vilões e aliando-se ao Grodd por causa de sei lá, razões. O enredo foi um pouco mais esperto do que isso, com o Grodd inicialmente se aliando ao Batman sim, mas assim que derrotam o Coringa ele trai o Batman. Nesse momento, até mesmo a Mulher-Gato troca de lado – mas ao contrário do Grodd, ela não planejou isso, apenas foi oportunista, afinal, agora era o Grodd quem estava com a máquina e poderia mandá-la de volta para o futuro. Depois o Coringa faz o seu retorno e derruba o Grodd, o Batman o salva e eles voltam a se aliar.

Sem dúvida essa ordem de eventos foi bem menos simples do que eu havia suposto, mas talvez o resultado tenha sido menos interessante do que poderia ser. Quero dizer, sejamos francos: o Coringa é muito mais interessante que o Gorila Grodd. Esse vai e vem do símio toma tempo e não acrescenta quase nada. O Coringa até provocou o Batman na luta final falando sobre como ele tem coragem de matar e o Batman não, e boa parte da ladainha que isso acompanha. Mas no trailer isso já tinha aparecido e lá pareceu muito mais interessante. Nada estava em jogo mais quando o Coringa zomba do Batman no final, estavam lutando em um lugar ermo e já era óbvio que era a última luta e, portanto, o palhaço iria perder. Menos traições do Grodd e mais provocações do Coringa talvez tivessem deixado o filme mais interessante.

Fim dos spoilers. Pode começar a ler o texto novamente em segurança.

Todos os personagens tiveram, pelo menos, a chance de “ser eles mesmos” uma vez. O Duas Caras tomou uma decisão jogando sua moeda. A Hera Venenosa pregou contra os homens que destroem a natureza. O Pinguim tinha um exército de pinguins (sim, no Japão). O Exterminador estava lá sendo o Exterminador. Do lado da Bat-Família, só o Robin, mais infantil e pateta (e com seu amigo macaco) e o Capuz Vermelho, violento, se destacaram dos demais. Bom, e o Alfred, claro.

A Bat-Família

E tudo no final das contas é muito anime. Começa pelo formato filme battle shounen que já citei, no qual o herói precisa ter seus companheiros para que todos travem suas lutas em paralelo no final, antes da grande luta final do protagonista. Mas não foi só isso, teve também a cena do duelo de samurais no topo de um castelo, o clã de ninjas (e um trecho narrado no meio do filme cantando as glórias dos ninjas), e robô gigante. Ops, você viu o trailer, né? O robô gigante aparece no trailer, isso não é spoiler. Até porque é ainda melhor do que um simples robô gigante. Se ainda não assistiu, assista e descubra por si mesmo.

Se você é fã, mesmo que apenas casual, do Batman, não perca Batman Ninja. É muito Batman. É Batman pra caramba. Se fosse mais Batman estragava. E é também muito anime. A animação não é exatamente brilhante mas os combates são muito bons – e o filme inteiro é quase só combates. Até o Batman gostou tanto que trouxe um Batmóvel feudal do Japão puxado por cavalos no final do filme.

O melhor Batmóvel que já inventaram

  1. Obrigado por este artigo Fábio, só mesmo tu com um artigo de qualidade, para me convencer a ver este filme.
    O filme foi razoavelmente interessante, não por sua arte, mas sim pelas suas cenas de acção e claro, para ver o Batman.
    A história foi boa, para a sua proposta, sendo que ver castelos fazerem uma fusão e um aglomerado de macacos e morcegos a se fundirem e a formar um batman clássico gigante, foi algo muito doido.
    Quanto à dublagem, tenho que dizer que a versão em inglês foi a melhor, senti que a versão japonesa, teve uma dublagem que não combinou em nada com os personagens (só a voz da Hera venenosa, encaixava bem na personalidade da personagem).
    A parte da animação, tirando as lutas (que até foram bem animadas), não foi muito funcional (o único momento em que a animação foi boa, foi quando o Red Hood encontra o Joker e a Harley Quinn com amnesia, aquele estilo de arte, a imitar as antigas pinturas japonesas, ficou muito boa).
    Bom. não tenho mais nada a comentar, excepto que tenho que concordar, com a legenda da última imagem, aquele batmóvel estilo feudal, foi o melhor Batmóvel já feito.

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Aquela cena com estilo de animação completamente diferente no meio do filme foi bem legal mesmo. A história não foi mesmo grande coisa, foi só competente em ser uma história padrão e divertida do Batman, nem mais, nem menos.

      Quanto à dublagem, acredito que tenham sido os dubladores de sempre em japonês do Batman – portanto, vozes com quem os japoneses já estão acostumados. Uma curiosidade é que as falas são diferentes, não é apenas tradução e adaptação. O sentido geral é o mesmo, mas os americanos acharam que para o público americano (e ocidental) as falas originais, do japonês, não transmitiam exatamente a ideia que eles queriam. Eu achei isso muito interessante.

      E bom, um dos pontos altos do filme foram seus absurdos, como o Batmóvel que é uma carroça estilo japonês altamente modificada e, bem, o Batman (da série dos anos 1960!) gigante formado por macacos e morcegos.

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

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