Falta pouquíssimo tempo para a primeira luta da fase classificatória do Megalonia e Joe está sem gear. Sem tempo e sem dinheiro para conseguir um novo equipamento, Nanbu acaba pondo em prática uma ideia extremamente arriscada: fazer seu pupilo subir ao ringue sem o gear. Em último lugar na Associação Oficial de Megalobox, completamente desconhecido e sem nada a perder, JD se prepara para enfrentar seu primeiro adversário apostando não apenas seu futuro como megaloboxer, mas também a própria vida e a dos seus amigos. O mundo parece estar a prestes a esmagar de vez mais um zé-ninguém.

Normalmente, pelo menos até o momento, eu costumo resenhar episódios das séries a mim designadas comentando os fatos mais relevantes que aconteceram nos 20 e poucos minutos semanais, com alguns comentários aqui e ali, e no último parágrafo eu faço comentários gerais a respeito do desenvolvimento da trama, roteiro, trilha sonora e animação. Desta vez, porém, gostaria de falar sobre os aspectos técnicos de Megalo Box até o momento, em especial a respeito do episódio mais recente.

Como todos aqueles que acompanham o anime sabem, Megalo Box faz parte da comemoração de 50 anos da publicação do mangá Ashita no Joe, uma das obras mais influentes da história do meio. AnJ teve duas adaptações para anime, uma em 1970 produzida pela Mushi Production, estúdio fundado por ninguém menos que Osamu Tezuka. A outra em 1979, desta vez pelo estúdio TMS. Ambas as séries, porém, tiveram o mesmo diretor, um homem também chamado Osamu, mas de sobrenome Dezaki.

É difícil mensurar em poucas linhas a importância que Dezaki teve para a animação japonesa feita para TV. O animador, infelizmente já falecido, dirigiu dezenas de séries e filmes nos quais desenvolveu técnicas e estilos de narrativa visual que são imitados até hoje (para mais informações, recomendo que assistam esse vídeo). Por que estou dizendo isso? Porque por ser um projeto de aniversário de uma das propriedades mais reverenciadas dos quadrinhos pop nipônicos, cujas adaptações foram dirigidas por um dos maiores diretores de animação da história do país, Megalo Box, tem um longo caminho a percorrer se não quiser fazer feio diante de um legado tão formidável. A boa notícia, excelente até, é que, até o momento, Megalo Box é um sucessor mais do que digno para a grandeza de Ashita no Joe.

A equipe responsável pelo anime é uma mescla de veteranos e iniciantes lideradas por Yoh Moriyama em sua estreia como diretor. Chamá-lo de “calouro” é pouco: não penas Moriyama nunca havia trabalhado como diretor antes, como sequer havia produzido algum storyboard até então. Para alguém tão inexperiente, seu trabalho até o momento é tão notável que chega a assustar. Decisões controversas à parte (cada vez mais acredito ter sido um erro usar uma resolução de imagem que parece ter saído de 2003), Moriyama acertou em cheio ao privilegiar pequenos momentos de fluidez intercalados com passagens mas econômicas sem nunca descuidar dos detalhes e nuances das cenas. A sensação de perigo e de peso nos golpes desferidos por Joe e seus adversários é fantástica. A expressividade dos personagens é digna de nota: medo, raiva, dor, surpresa, alegria, alívio, cada um desses sentimentos e sensações e mais tantas outras são entregues aos olhos e ouvidos dos telespectadores de maneira direta e clara.

O roteiro da série também merece os parabéns. Megalo Box nunca prometeu ser nada além do que foi mostrado até agora: a história do “underdog”, o sujeito que veio do nada e que, graças a um talento inato e a ajuda dos amigos, começa a buscar seus sonhos. Nada que foi contado na história é original: o jovem promissor vítima das circunstâncias numa sociedade desigual que tem sua vida transformada graças a um encontro fortuito com aquele que será seu adversário especial, o “frenemy”. Um companheiro de jornada cujos erros do passado lhe valeram uma vida no ostracismo. Um órfão jogado ao relento cuja paixão por uma atividade (no caso, o boxe) lhe abrirá portas para um novo futuro. Todos de temperamento irascível, incapazes de demonstrar carinho e afeto, mas que possuem um bom coração tentando fazer a coisas certa ainda que acabem escolhendo o caminho mais difícil para isso.

Sobre o episódio em si, é lindo ver como Joe, Nanbu e Sachio são o exemplo perfeito da expressão “maior que a soma das partes”. Apesar da pose de durão, JD estava com medo, ele sabia que lutar sem um Gear era um risco enorme, qualquer vacilo poderia lhe custar não apenas a chance de enfrentar Yuri novamente, mas também a sua própria vida. A maneira como Nanbu tentava lhe devolver aos trilhos após um passo mal calculado que quase o levou ao nocaute foi totalmente coerente com sua personalidade. Coube ao pequeno Sachio lembrá-los do principal: nenhum deles estava lutando sozinhos, eram todos parte da mesma equipe. Com a cabeça no lugar e se aproveitando do temperamento explosivo e irritadiço de Shark Samejima, Joe usou sua maior mobilidade para encaixar alguns golpes e, no momento certo, nocautear o oponente com um cruzado de direita. O público, que até aquele momento tratava nossos protagonistas como um bando de palhaços decantes, reconheceu a vitória do desafiante e vibrou como nunca. A equipe de Joe, Sachio e Nanbu superou seu primeiro desafio.

Depois da vitória, Joe subiu centenas de posições no ranking e conseguiu derrotar mais dois adversários lutando novamente sem gear. Particularmente, espero que JD consiga um belo equipamento customizado quando for enfrentar adversários mais fortes. Sua ascensão não passa despercebido pela por Yukiko Shirato, que parece menos surpresa e mais apreensiva. Será que ela teme que as pessoas comecem a questionar a utilidade dos gears produzidos por sua empresa?

Preparando-se para sua próxima luta, Joe ouve de Nanbu que seu próximo adversário será alguém muito mais forte e que investiu bastante para conseguir um lutador desse calibre. Ao se encontrar com o agente responsável pelo próximo embate do seu protegido, Nanbu ouve que esse lutador é alguém que ele conhece bem e que fazia questão de encontrá-lo. Quando o lutar chega ao local de do encontro e Nanbu o vê, sua expressão é de quem viu um fantasma. O lutador diz “Há quanto tempo, Nanbu”. Fim. Ao menos até a próxima quinta-feira. Estou tão ansioso quanto vocês.

  1. Este quarto episódio de Megalo Box foi excelente.
    Eu no artigo anterior teci uma teoria de como o Joe iria fazer o seu combate de estreia e acertei em cheio. Foi preciso coragem e ousadia para que o Joe entrasse no ringue sem um gear, por muito boa que seja o estilo de luta dele, um soco com gear do adversário, poderia até matar o Joe.
    O primeiro combate do episódio, foi excelente, desde da representação do medo do Joe (mostrado através dos tremores e visão turva), os sons dos movimentos dos dois lutadores e a ost foi encaixada na perfeição.
    O Sachio neste episódio provou o porquê de ser uma peça fulcral no trio, ele foi o único a perceber que o Joe não estava bem (eu consegui tolerar bem o facto do Nanbu, estar a ser ignorante com o comportamento estranho do Joe, mas ele se saiu bem, quando explicou que aquilo que o Joe sentia era medo).
    Achei interessante, a escolha do director em mostrar apenas as lutas principais e mostrar apenas trechos das outras lutas, este esquema é perfeito quando o anime vai ter poucos episódios.
    O Joe aos poucos já afirmou a sua posição, o uso de cartazes com um slogan e a imagem do Joe, colocar uma foto do Joe nos jornais, foi excelente para mostrar aquilo que o Joe sem um gear conseguiu apenas com a sua habilidade física (tal como os boxeadores do passado).
    A cena da chefe do concurso da Megalonia, foi intrigante, quando ela viu a posição do ranking do Joe, ela fez uma expressão não muito boa (é aquela típica expressão, de quem irá tirar um inconveniente do caminho).
    A parte final do episódio foi um excelente gancho, aquele lutador que está na décima sétima posição do ranking, tem cara que irá dar sarilhos e trabalhos para o Joe e companhia (a cara de surpreendido do Nanbu nesse momento diz muita coisa).
    Como sempre, mais um excelente artigo de Megalo Box, CrossSylvia.

  2. Excelente resenha!!!
    Há muito tempo não ficava tão perturbado pela espera do próximo episódio!!
    E gostaria de agradecer muiiito pela lembrança deste gigante mooonstro que foi Osamu Dezaki (consegui assistir Space Adventure Cobra num Betamax cansado em 86 que eu recomendo a todos).

    Mas eu acho que a animação meio datada é uma concessão de estilo, uma homenagem ao passado, quando monstros como Dezaki se viravam nos 30 para oferecer ao publico uma obra de excelência.

      • James, a semelhança é pq tanto Cobra quanto O Vingador do Futuro se, digamos, “inspiraram” num conto do autor Philip K. Dick chamado “We Can Remember It for You Wholesale”.

      • Mas é o que digo quem sabe, sabe…
        Dick esse é monstro também…Alias, legal o video (esse é um dos poucos canais de U-Tube que fala de HISTÓRIA do anime) me lembro quando a industria entrou na loucura do Sci-Fi (claro que devido ao fenomeno Star Wars) no final dos anos 70 inicio dos 80.
        Mas se fosse para ficar entre “Total Recall” e Star Adventure, fico com o segundo…O Johnson era menos canastrão do que o Quaid…

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