Loli gótica. Lolis demônios. Bruxaria. Insanidade. Crueldade. Violência gráfica (ou quase). Humor mórbido, altamente incorreto. Onde encontrar tudo isso? Na série Jashin-chan Dropkick. E o melhor dessa mistura é que a comédia pastelão com toques de gore consegue ser um bom entretimento. Porém, não é para todos os públicos.

Adaptação do web mangá homônimo de Yukiwo, o anime é uma produção do estúdio Nomad e tem como diretor Hikaru Sato (Kitakubu Katsudou Kiroku [2013]) e na composição de série Kazuyuki Fudeyasu (Shoujo Shuumatsu Ryokou [2017], Gochuumon wa Usagi Desu ka? [2014] entre outros), que escreve o roteiro em conjunto com Momoko Murakami (de Pan de Peace! [2016]).

A bizarra comédia gira em torno de Jashin-chan, um demônio que, do dorso para cima, é uma bela garota loira, e na parte inferior do corpo, uma serpente. Jashin-chan está presa na Terra devido à invocação de Yurine Hanazono, uma universitária adepta da subcultura gótica, aficionada por filmes de terror e extremamente sádica. A demônio deseja retornar ao inferno, no entanto, para isso, é preciso que Yurine a envie de volta, algo que ela não sabe como realizar. Sendo essa a situação, a única solução possível é a morte da invocadora. Vivendo com Yurine em seu apartamento (em Jinbouchou, distrito de Chiyoda, localizado em Tóquio), Jashin-chan trama formas de eliminar a sua “mestra”.

Jashin-chan, a demônio loirinha-serpente, em momento de pura fofura.

Na primeira cena já temos a reunião do elenco principal. Yurine, Jashin, Medusa, Minos e Pekora. Elas estão juntas para saborear a carne preparada pela demônio-serpente. A interação entre elas apresenta os dilemas de Pekora (um anjo que perdeu seu halo), que são a sua presença em um sabbath de bruxas – que, para ela, é um rito ou cerimônia de profanação – e a indecisão sobre comer ou não carne. Jashin-chan faz de tudo para impedir que Pekora desfrute de qualquer pedaço de boi grelhado. Diante do posicionamento favorável de todas a Pekora, Jashin-chan decide devorar o alimento, engolindo apressadamente todo o conteúdo da panela. Atitude que tem consequência. E aí conhecemos o sadismo de Yurine, o seu brutal castigo, retalhando o rabo da demônio-serpente e oferecendo as convidadas do banquete – diferentemente de Kobayashi-san Chi no Maid Dragon, em que Kobayashi se recusa a apreciar uma fatia do rabo da empregada dragão Tooru, a iguaria é bem-recebida pelos presentes.

Pekora sendo provocada por Jashin. Primeiro motivo para sentir a ira de Yurine.

Aparentemente, as lolis demônios foram invocadas por Yurine (e Pekora revela ter sido sequestrado pela gótica enquanto passava fome na rua). O primeiro episódio não mostra o conjuro que atraiu Jashin-chan e as outras. A ausência dessa cena (ou cenas) é sentida, e talvez apareça em episódios posteriores, mas não atrapalha a apresentação do plot, que é, basicamente, Jashin tentando matar Yurine, falhando miseravelmente, e, como consequência de sua insolência, sofrendo uma atrocidade inominável como castigo/retaliação.

O sadismo da gótica Yurine não tem limites.

Sobre as outras personagens coadjuvantes: Medusa é gentil e tímida, até por isso é constantemente envolvida por Jashin-chan em seus planos para dar fim a Yurine. Medusa é uma figura da mitologia grega, uma das três górgonas, uma mortal filha dos Titãs do mar, Porcys e Ceto, que acaba sendo amaldiçoada por Athena após ser seduzida pelo deus Poseidon. Como punição, em lugar dos cabelos, serpentes, e o poder de transformar quem a olhasse nos olhos em pedra – não poderia ser mais encarada de frente, tornada monstro devido a beleza arrebatadora que possuía. A Medusa de Jashin-chan Dropkick é diferente, pois tem belos cabelos azuis e se veste como uma rainha egípcia. Já Minos é um minotauro, uma vaca-demônio, que ainda está conhecendo o funcionamento da casa de Yurine. Ela pode ser definida como um misto de indiferença e simpatia. O seu nome também remete à mitologia grega. Minos foi rei de Creta, o da lenda do Minotauro, uma criatura nascida da relação sexual entre Pasifae, esposa de Minos, e o Touro de Creta, fera consagrada por Poseidon a Minos e depois amaldiçoada. Pekora é o anjo que se perdeu na terra e precisa encontrar sua auréola. Mansidão e transtorno a caracterizam. O inusitado está em seu nome. A palavra lembra pécora, que, em português, significa mulher de “má vida”, meretriz.

Mais uma tentativa fracassada de Jashin. Eliminar Yurine será uma tarefa complicada para a demônio.

A dinâmica entre Yurine e Jashin-chan é divertida. No episódio, são três as tentativas fracassadas da demônio-serpente em revogar a imprecação matando a sua mestra. As sequências trazem o amor de Yurine pelo splatter, já que suas punições são sangrentas – moto serra e arma de choque entre elas –, e o mau planejamento de Jashin-chan para executar a garota, o que revela o quanto a criatura é um desastre ambulante. Para sua sorte, a loirinha serpente tem o poder de se regenerar. É uma batalha inglória e, certa maneira, com o resultado antecipado pelo espectador – tentativa/fracasso/mutilação –, contudo não deixa ser engraçado, dado o grau de ingenuidade da fera infernal e o sadismo sem limite da loli gótica.

Sangue em abundância na mistura entre comédia pastelão e gore.

Algo que chama a atenção é a “quebra da quarta parede”. A utilização do recurso, a comunicação direta com o espectador, acaba por transmitir a ideia (ou mesmo denuncia) de que se busca uma forma de amenizar a violência, suavizando o seu impacto. Um lembrete de que se trata de um anime. Uma brincadeira cruel, mas ainda uma brincadeira. Mesmo a metalinguagem parece ter essa intenção (Jashin-chan reclama do diretor de som por ele ignorar que uma determinada passagem se trata de um monólogo interno, também quando Yurine pergunta a Jashin-chan se ela ainda está censurada – a sua imagem está borrada na tela).

Aquele momento descontração do elenco que a rebeldia de Jashin estragou.

No entanto, são elementos que acrescentam qualidade à narrativa do cotidiano de uma jovem desequilibrada e seus demônios – no sentido literal e físico. As personagens são simpáticas e “terríveis”, o que pode garantir uma comédia que se sustente a contento entre a morbidez e as mais variadas cenas de tropelias.

O segundo episódio está por vir, e talvez algumas revelações (sobre as invocações) e desenvolvimento das personagens tornem Jashin-chan Dropkick ainda mais bizarro, jocoso e instigante.

Discussão