Umas das principais qualidades de Asobi Asobase é o modo como trabalha e apresenta as personalidades de suas protagonistas, que são díspares umas das outras. No entanto, a diferença entre elas não atrapalha o entendimento sinistro que chegam a ter em determinadas situações. Se Kasumi é inteligente, tímida, centrada, mas assustadora quando motivada, Hanako é o seu oposto, sendo a extrovertida do grupo, à procura da popularidade, e é a que entra em desespero facilmente, já Olivia é uma hábil manipuladora, que se entendia com regularidade, porém é uma amiga com quem se pode contar (basta observar como luta para manter o clube dos passatempeiros). O terceiro episódio evidencia essas diferenças, mas revela o quão unido o clube está e o que as garotas estão dispostas a fazer para mantê-lo: desde uma chantagem básica à uma disputa de arremesso de sapato. E isso proporciona uma quantidade generosa de risos incontidos.

Algo que Asobi Asobase vem realizando com criatividade é usar clichês da comédia para desafiar o lugar-comum, acertando o alvo com o recurso ao exagero, exorbitando para atingir a sua singularidade. A proposta, até o momento, faz com que a banalidade passe longe dos esquetes. No primeiro segmento, há um clichê, já que Olivia é loira e de descendência europeia, o jeito de ridicularizada (contudo, sem perder a ternura pela personagem) é sinalizando o odor desagradável de suas axilas.  Hanako e Olivia jogam issei no sei, e a loirinha sai triunfante. A penalidade é que Hanako busque suco para ela. A punição, obviamente, aciona Kasumi, que ainda não se livrou do trauma ocasionado pelos castigos que sua irmã (sempre vitoriosa nos jogos) lhe infligia, que consistiam em ordens a serem cumpridas. O protesto acanhado de Kasumi é atendido por uma descontente Olivia, porém a ela concede-se o direito de sugerir uma penalidade, desde que não fosse ligada à realização de alguma tarefa. Então a estudante propõe que o perdedor cheire a axila do vencedor. Hanako é a derrotada da primeira rodada e se depara com o aroma encantador de Kasumi e o mau cheiro de Olivia. Em uma nova rodada, Kasumi é quem perde (o detalhe é que sua derrocada ocorre pela traição de Hanako) e a punição ainda é a de aplicar o olfato na axila da companheira de clube. Entre o tipo de penalidade imposto pela irmã e o castigo inventado por Olivia, Kasumi rende-se ao capricho de quem gosta de dar ordens às pessoas. Afinal, há penas mais severas que a obediência a um explorador/oportunista.

Kasumi e o seu repúdio aos jogos com punição ao derrotado. O que uma onee-san perversa não pode causar.

Outro clichê é o da professora solitária que deseja desesperadamente um namorado (um exemplo dos menos toleráveis é a de Kashimashi: Girl Meets Girl [2006]). A presença de Chisato Higuchi, a professora de inglês, na segunda parte, é hilária e sua aquisição, ou a maneira como foi arrebatada pelas garotas para ser a supervisora do clube de passatempeiros, mostra a inteligência e a ousadia de Hanako, Olivia e Kasumi quando vibram na mesma frequência. Apesar de que usar a solidão e a vontade de Chisato-sensei de encontrar o amor pode ser considerada uma maneira pérfida para alcançar um objetivo.

Tudo começa quando a professora acredita que o clube estuda as pessoas que são viciadas em prazer e que por isso promove encontros arranjados. Um delírio de Chisato, já que se tratam de estudantes do fundamental. O truque dos membros do clube é criar uma conta no Twitter para divulgar as atividades das passatempeiras e para arranjar um namorado para Chisato. Com uma foto comprometedora no perfil, conta e senha nas mãos das meninas, a professora acaba como supervisora e se conformando com a situação.

A solidão de Chisato-sensei. Um olhar triste que irá comover Hanako, Olivia e Kasumi? Não!

O engraçado é como cada uma tem seu interesse na presença de Chisato. Hanako quer um passeio extracurricular a um bairro popular chique e uma supervisora facilitaria a autorização. Kasumi deseja lições de inglês. E Olivia quer ter mais diversão (simplesmente).

Armadilha realizada com sucesso. Chisato-sensei, a supervisora das passatempeiras.

O terceiro segmento traz a disputa entre o clube dos passatempeiros e o clube de shogi pela sala que as meninas ocupam como sede. Porém, o fato delas não terem requisitado permissão de uso, torna o espaço vago, que é reivindicado pela presidente do conselho estudantil para ocupação dos membros de shogi. O que chama a atenção no esquete são as expressões intimidadoras da representante dos estudantes que não combinam com a gentileza e espírito diplomático que ela deseja demonstrar. Cômico também é o desespero das garotas ao saber que estão perdendo o clube. Suas reações descompassadas só terminam com o desafio da presidente do clube de shogi, que quer vencê-las em um passatempo. Hanako propõe o arremesso de sapato para resolver a querela. A disputa ocorre normalmente, até que Olivia usa um balanço para ganhar impulso e a presidente do clube de shogi, em resposta, utiliza uma bicicleta para ter impulso e velocidade. Passatempo é coisa séria e os ossos de nosso corpo, frágeis. A maluquice do clube de passatempeiros é superada pela exigência da presidente de se chegar ao limite.

As fraturas da presidente de shogi ensinam uma valiosa lição: passatempo é coisa séria.

Mais uma vez a comédia sem comedimento exulta. E prova que clichês existem para serem usados, mas desde que seja um bom uso, reelaborados e subvertidos – criatividade em foco e não propriamente a originalidade. O terceiro episódio confirma que Asobi Asobase se comunica com o público sem temer o exagero em suas gags surreais e em expor suas personagens as maiores loucuras (porém, como já assinalado, com muito carinho).

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