Boogiepop chega ao fim e apesar de ter sido um final um pouco diferente do que eu esperava minha alma está lavada, não tenho quase nada do que reclamar, além, é claro, de que a adaptação acabou!

Ela deixará saudades? Sem dúvida alguma, mas eu me conformo um pouco, porque Boogiepop é um anime único e obras de arte assim não devem aparecer todo tempo e nem permanecem mais tempo do que deveriam, então Boogiepop dá seu “sayonara” na hora certa, de cabeça erguida. Foi o melhor anime da temporada de inverno? Nem diria tanto, mas o mais instigante e interessante com certeza!

A revelação de que o Shirou era em si o Rei da Distorção, não apenas mais uma ilusão provocada por ele, me pegou de surpresa, mas não foi nada de novo, muito pelo contrário.

Boogiepop e Imaginator são excelentes exemplos de existências atípicas que coexistiam, alternando ou não, como diferentes personalidades. Foi mais ou menos isso que aconteceu com o garoto, mas, “como” ele virou esse Rei nunca saberemos e isso sequer é importante; relevante é observar a causa, a justificativa, o por quê!

O resto é cosplayer.

Quem melhor para instigar as pessoas a botar para fora aquilo que havia de distorcido nelas senão a pessoa com o coração mais distorcido, mais atormentado? Ele era o receptáculo perfeito para o Rei, sendo assim, não acho estranho a sua colaboração com o Teratsuki ou seu experimento.

Quer dizer, não acho incoerente, mas confesso que gostaria de saber com que nível de consciência ele armou o experimento e colaborou com o ricaço. Enfim, o que importa é que alguns dos arcos de personagem haviam sido fechados, como o do Makoto e do Habara – além do arco da Makiko –, e não havia tanto assim a acrescentar sobre a Shizuka ou o papel do Takeda no arco.

Mas e o funcionário que também passou pelo experimento? Sua aparição no episódio 14 foi apenas para ilustrar que outras pessoas – além dos personagens de verdade da história – também estavam sob influência do Rei da Distorção?

Isso não colou comigo, porque não usaram mais casos, pareceu que iam desenvolver algo ali, mas foi completamente esquecido. Achei um erro pouco ou nada relevante, mas, ainda assim, digno de nota.

Boogiepop é Boogiepop e eu sou a Kei tentando entender por que teve aquela parte.

Não é porque adoro o anime que vou deixar de observar quando ele vacila, né? Aliás, confesso que nem todas as subtramas acabaram como eu queria. Mas até foi melhor assim, nem tudo precisa de uma resposta definitiva. Não tinha necessidade de, didaticamente, fechar cada arco de personagem exposto.

Bastava que a ideia geral fosse apresentada, trabalhada e concluída e ela se conectasse ao que aconteceu com as cobaias do experimento. Para deixar a conexão clara a Kei foi imprescindível, aliás, seu fim talvez tenha sido o melhor, pois ela transformou seus sentimentos em ouro para valer.

Sou só eu ou você também adorou a versão protagonista de battle shounen dela?

A Kei foi capaz de entender o que se passava com ela, lidando com isso ao passar por uma mudança e, devido a ela, conseguiu proferir palavras não somente de gentileza, mas, principalmente, palavras de opinião e experiência. Palavras honestas; sem distorção, sem ruído; capazes de tocar um coração.

Mas não foi só a Kei que brilhou nesse final, Boogiepop foi certeiro, como sempre o é, em tudo o que disse, pondo em palavras coisas sobre as quais divaguei, mas não consegui chegar a resposta, porque não percebi que a grande lacuna deixada pela falta de aprofundamento do Shirou precisava mais que do aproveitamento de subtrama.

Aliás, o fim desse arco, e ele em si, se conecta ao início do anime já que algo que aconteceu lá foi crucial para que essa ameaça nascesse e, adverso ao pensado, não era uma ameaça de fato. Não exatamente a humanidade, mas a uma pessoa.

Se um todo não existe sem cada um dos elementos que o compõe, é claro que Boogiepop não poderia ignorar quando alguém – ao menos não sendo alguém com poder para interferir com a vida de outras pessoas, causando certa confusão no mundo – clama por auxílio, como não o fez ao não interpretar Shirou e seu outro eu – o Rei da Distorção – como um inimigo a ser encarado.

Na verdade, a verdadeira luta a ser vencida dizia respeito ao Shirou, a sua mente, aos seus sentimentos. Não à toa há o trecho definitivo em que Kei e Boogiepop entram na mente do rapaz.

Tanto a sua distância das pessoas ao observar tudo de cima – como se não tivesse o direito de fazer parte do mundo embaixo –, quanto o momento em que chove – um simbolismo para seu choro interior – e a hora de sua queda – que é quando ele se dá conta que as duas pessoas a sua frente estavam certas – são provas claras de que o verdadeiro problema estava dentro dele. O “mal” que ele praticou não era mal de fato e a culpa que ele sentia não deveria existir!

Se refletirmos um pouco sobre isso fica fácil de ver como na maior parte das vezes as coisas sobre as quais nutrimos culpa, cultivamos remorso, dizem mais respeito a uma impressão errônea que temos do que a outra parte iria pensar de uma coisa que fizemos do que essa outra parte pensa de fato. Ao menos é assim quando se trata de uma pessoa que não vai poder mais confirmar ou desmentir o que o culpado acha.

Nem sempre a culpa não tem razão, mas adianta remoê-la nesse caso? É melhor seguir em frente.

Recentemente, vivenciei uma experiência pela qual poderia ficar me remoendo, mas quando penso que a outra parte nunca me deu motivos para me sentir culpado por nada e que não é desse jeito que a outra parte gostaria de me ver, sei que não tenho por que me afogar em remorso e não precisei passar por nenhum experimento para me dar conta disso. Quanto a isso o anime ajudou, é verdade.

E para finalizar, foi excelente como esse desfecho dialogou bem com o que o anime vinha mostrando. Acho até que não poderia haver final mais condizente, não só sobre o arco, mas o anime como um todo fechar com um vilão que não era vilão e uma resposta que está dentro, não precisava e nem poderia ser encontrada fora, fez todo o sentido.

Mostrou que a jornada até aqui ensinou algo, ainda que eu não tenha percebido antes: que Boogiepop não é uma história de heróis ou vilões, mas de pessoas.

Antes de procurar teu inimigo, derrota o inimigo dentro de ti mesmo.”

E as pessoas têm ao menos um pouco de cada dentro de si, o que importa é como lidam com isso. Exaltar a culpa por achar que se devia ter feito mais, se lamentar por não ser mais possível fazer, se aproxima mais de uma distorção da gentileza que da agravação. Assim foi o caso da Makiko.

No final das contas, a resposta já tinha sido dada antes no próprio arco, cabia apenas as duas pessoas mais conscientes sobre ela deporem o teimoso Rei na base de argumentos. Conseguiram tanto que o tema dele não tocou nesse episódio. Nem a abertura ou o encerramento dos quais sentirei saudades.

Como último adendo, gostei que a participação do Takeda serviu mais para ajudar a Kei a mudar que reforçar que Boogiepop tem um amigo, mas, ainda assim, destacou bem isso. Até Boogiepop – a mais deslocada das existências da obra – tem alguém para chamar de “tomodachi”.

Então é como o Rei da Distorção diz, há muita coisa a se preocupar na vida para ficar pensando na solidão, se olharmos mais a nossa volta devemos perceber isso, e se percebemos isso não teremos porque dar luz às distorções.

Mas, sei que para esse punhado de personagens foi importante fazer parte desse processo alquímico, apesar de que sempre existiu ouro em seus sentimentos, não foi gerado da pedra, eles só precisavam perceber isso. Esse sempre foi o tipo de ajuda que Boogiepop está disposto a dar a humanidade e ela foi dada.

Boogiepop terminou mais próximo de como começou, mas, ainda assim, tão longe de como era no início, porque promoveu bem o que era a sua mensagem, que precisamos pensar e pensar e…

Se nunca é um adeus, então este sorriso eu considero um “Até mais ver”!

Considerações finais

Foi uma jornada interessante essa, não foi? Em uma vindoura resenha organizarei meus sentimentos e, claro, meus pensamentos para decorrer um pouco sobre minha experiência do anime, o que achei dele e porque achei o que achei. Imagino que você já saiba o que devo escrever, né…

De toda forma, Boogiepop nos deixa a lição de que pensar, ter mais atenção; deveria eu ter tido mais do segundo ao longo da série; é preciso e isso é algo que podemos todos levar para nossas vidas. Se isso é um adeus que esse adeus se refira a animação e não ao que ela foi capaz de nos apresentar, ensinar, cativar de uma maneira ou de outra.

Sentirei saudades? Sentirei, mas se sentirei é porque foi bom, e é isso que a gente deve cultivar em nossas vidas. E caso sintam saudades demais tentem ler os livros. Farei isso!

Nunca é um adeus; não para a percepção, a reflexão e, principalmente, para o ouro dos sentimentos.

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    Ei fiquei bem surpresa quando descobre quem era o rei da distorção O.O! Em suma, para mim esse anime foi uma experiência única, sempre gostei de histórias que tem simbologia e nos permite momento de reflexo, mas boogiepop fez isso de forma que eu montasse um quebra-cabeça. Era basicamente um quebra-cabeça terapêutico. Gostei tanto, que já estou lendo a light novel. Ademais, digo que Boogiepop virou meu herói favorito, porque, além do estilo (não se pode esquecer da roupa e expressões faciais) Boogie nos ensina a refletir e resolvermos as coisas por nós mesmos, sendo as palavras ditas por essa personalidade mais poderosas que qualquer soco .

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