Ninguém faz slice of life melhor do que Isao Takahata (de Túmulo dos Vagalumes). Esse animê é apenas mais uma prova disso. Ele consegue captar a essência do japonês normal, sem cabelo colorido, sem hobbys especiais, sem habilidades grandiosas. São pessoas normais vivendo vidas normais e cometendo erros normais.

Chie é uma menina que tem um pai vagabundo, arruaceiro, sem-noção e, o pior, viciado em apostar dinheiro. O movie conta a história dela, que tenta sobreviver em meio às confusões do pai, e das pessoas ao redor dela.

 

 

A mãe, Yoshie, cansada das burradas do pai, Tetsu, foge de casa e só planeja voltar quando ele tomar vergonha cara, arrumar um emprego e se tornar uma pessoa decente. O problema é que ela deixa a Chie com Tetsu, o que obriga a filha a tomar as rédeas da casa e do bar, de que a família é proprietária, porque não é possível contar com Tetsu.

Chie não tem uma postura infantil, ela é uma adulta. Ela trabalha no bar a noite, sozinha, atende os clientes, cobra, utiliza a “churrasqueira” para fazer os espetinhos, serve as bebidas alcóolicas. Ela vive em um universo que é completamente o oposto do esperado para uma criança.

 

 

Na escola acontecem conflitos interessantes, afinal, o trabalho atrapalha o estudo, o que resulta em notas baixas, o que culmina em bullying. As outras crianças conhecem a situação dela, mas caem em cima sem pena. Ela se irrita com isso, obviamente, mas tem uma postura muito madura, buscando respostas e confrontando os que a atacam. E, mesmo com isso, ela adora a escola, afinal, é o momento em que ela pode ser/se sente como uma criança normal.

 

 

Takahata não oferece o riso fácil, o choro forçado, a raiva óbvia. As emoções que ele passa com a obra são muito naturais, algo que flui, como o cotidiano. O animê transcorre como a nossa vida: tem momentos bons, momentos ruins, mas sem dramalhão, afinal, a vida não permite que você faça isso.

O que mais cativa em todo obra do Takahata são os detalhes, aquele momento sutil, que parece irrelevante, mas que é lotado de significado. Ele tem um olhar tão apurado, tão penetrante, que consegue absorver isso e colocar em seus animês de forma natural. Ele não precisa inserir uma seta gigante com o letreiro “olha como isso é doloroso, agora é para você chorar”.

Um bom exemplo, em Jarinko Chie, é quando Chie tem seu primeiro encontro com a mãe. Elas estão passeando de barco em um lago e, por duas vezes, o barco delas colide com o de outras pessoas. Sem precisar de exposição grosseira, com apenas esses dois momentos, ele demonstra como esse é um momento importante para ambas, ao ponto que não se importam com mais nada a sua volta (lembrando que estamos no Japão, onde atrapalhar o outro é um crime gravíssimo). Também é uma analogia a vontade da mãe (Yoshie que estava remando o barco) de voltar para a casa, mas ao mesmo tempo o receio de que o marido continue a mesma porcaria.

 

 

Outra cena para ilustrar: quando a mãe volta para casa, logo a família vai ao parque de diversões comemorar. No caminho, dentro do trem, fica um clima bem pesado, afinal, a ruptura não foi simples. Percebendo isso, Chie fica em pé e começa a cantar alto, gerando uma quebra na situação e relaxando os ânimos. Com uma cena, Takahata mostra a dualidade da Chie: ela é muito madura por perceber a situação e buscar uma solução e, ao mesmo tempo, ela é uma criança, porque a resposta que encontra é infantil.

 

 

Todos os personagens são muito humanos, mas o que tem essa característica mais acentuada é o Tetsu. Ele tem infinitos problemas, mas ainda assim ama a família. Ele faz uma coisa boa e, logo em seguida, compensa com mil ruins. Ele é o contraponto de Chie: enquanto ela é a criança com maturidade de adulto, ele é o adulto com maturidade de criança. E Takahata, mais uma vez, mostra isso no detalhe: Tetsu estava muito incomodado quando estava com a família no parque porque ele é o errado da história e, de certa forma, sentia que não merecia aquilo. Ele só consegue se sentir melhor quando vai nas brincadeiras do parque e tem ótimos resultados. É um adulto que precisa de brincadeiras de criança para ganhar confiança.

 

 

Jarinko Chie não é comédia, não é drama, não é ação. Ele tem tudo isso, mas é “apenas” uma história sobre pessoas, que poderiam ser eu ou você.

 

Sayonara. Bye, bye o/

 

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    O bom desses animes pré meados dos anos 80 (essa obra é de 81) é que eram realmente “roots”, os produtores na hora da venda não tinham em conta “as vendas mundiais” (era de mercado de “nicho”) vai alguma distribuidora local no Brasil ou no Peru trazia isso para um cinema de colônia e tempo em cartaz era curtissimo (como me lembro do Cine Joia e Nitéroi na Liberdade em tempos priscos)…Não existia cultura “otaku” nessa época…Hoje é bem mais fácil vc entender as nuances de um obra dessa com o Google do lado (a cultura de jogos de azar no Japão é interessantíssima..) em 81 vc ficava era boiando mesmo… A não ser que vc trabalhasse para empresa ou em um comércio na colônia…Aí entendia..

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      É uma época de mais liberdade. O mercado ainda não estava com o formato tão definido, algumas experimentações ainda existiam. E foi uma época que o Japão estava com economia em alta. Tudo isso facilitava que animês mais autorais fossem produzidos. Muito por isso que eu prefiro os animês antigos. Os atuais são muito padronizados, forçando muito para conseguir atingir o público e gerar lucro.

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      Não conhecia esse animê. Poderia falar mais sobre essa história do nascimento da cultura otaku?
      Pergunto porque eu pensava que a cultura otaku tinha começado com Urusei Yatsura, que também é de 1981.

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    Grande Muragami!!!Pelo que sei os Daicon eram filmetes produzidos para apresentar em feiras de SF (Science Fiction) no Japão, que misturava tudo e mais um pouco (Jornada nas Estrelas, Star Wars, o universo Marvel – que não era naquela época o Leviatã que é hoje e…Animes e mangas…)…1981 foi um dos primeiros anos da grande explosão da SF no cinema, na moda, no design de tudo (carros, roupas etc…etc…)…Só sabemos a partir do III (o I e o II não se acha mais)…E taca-lhe “Imperio Contra Ataca” (na minha opinião ainda o melhor da série Star Wars)…
    A minha teoria é que o Japão descobriu que tinha uma grande capacidade de produzir media e descobriu o Santo Graal do marketing de distribuição cinematografica americano…Acho que os produtores de Urusei foram os primeiros a olhar para os dólares lá fora , eles descobriram que tinham de ter uma linguagem mais “universal” e menos ‘regional’ tanto é que veio uma penca de anime baseado no que era moda na TV americana. E fora que anime nos anos 80 era um produto barato de entretenimento (visto a baixa artificial do cambio do yen japones nesta epoca) então numa epoca que as TVs tinham muito “air time” (no mundo) e essas mesmas TVs (os canais digo) queriam a melhor relação “custo beneficio” foi aí que o anime conquistou corações e mentes pelo mundo.

    Cara me desculpe se o raciocinio ficou confuso, mas estamos aqui para esclarecer o que quiser será um prazer!

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      Eu vi tudo de Urusei Yatsura, menos a série de TV, e eu não acho que ele tem uma linguagem universal. Tem muita coisa bem específica japonesa, como alguns personagens que são samurais, ninjas e mikos. Tem muita referência que só japonês entende (como a programas de TV). E eu acho que ele tem um humor bem japonês, que é aquele pastelão, escrachado.
      O fato dos animês seguirem as modas americanas é porque, na década de 1980, o Japão queria ser Estados Unidos, o que resultava em muitas cópias e inspirações. E isso foi em todos os setores da sociedade, por exemplo, também aconteceu no vestuário. Eu posso estar enganado, mas acho que foi nessa época que o Japão intensificou o uso de termos americanos no vocabulário (que, na verdade, são palavras que os japoneses mudaram bastante, como “kissu”).

      P.S. Desculpe demorar a responder, é que estou muito sem tempo, por conta de trabalho e estudo. Quase não tenho conseguido fazer os artigos 🙁

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    Fora que os filmetes dos DAICON eram feitos praticamente por estudantes em tempo livre de suas faculdades…O Satoshi Kon foi um deles pelo que sei…

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    Não tem problema em demorar a responder…Sabemos que o povo aqui toca pelo prazer da troca de ideias…Mas como lembrado parecia que o Japão queria ser o 51º estado americano por osmose…Lá nos anos 80…E me lembro que as gerações anteriores resistiam a isso…

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      Aconteceu que o povo japonês estava extremamente cansado e devastado pela guerra mas, mesmo assim, os líderes insistiram em continuar. Então, quando os EUA vem e ocupa, existia um terreno muito propício para que se estabelecesse uma admiração, chegando as raias da vontade de ser igual.
      No pós-guerra, o nacionalismo no Japão estava muito em baixa, e é muito provável que existia uma dose de raiva por conta de tudo que aconteceu. Também existia um desejo muito grande pelo novo, pelas inovações, pelo diferente. Acabou que os EUA ocupou todos esses espaços. Foi uma ocupação não apenas territorial, mas também mental.

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    E me lembrei de uma coisa engraçada no DAICON IV (tem no U-Tube ainda) eles usaram a maravilhosa Twilight do Electric Light Orchestra (ELO) só se esqueceram de uma coisinha…Pagar os direitos de uso da música aos autores…Pelo que sei o Jeff Lynne (o líder da banda) viu o anime e falou “deixa quieto tá bom isso aí”…
    E recomendo ver os Anime Mirai e Tamago…Ainda gostaria de uma resenha deles por aqui…

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      Mirai é o Mirai no Mirai?
      E Tamago é o Tenshi no Tamago?

      Se for, o primeiro eu ainda não vi. E, como estou numa fase old school, devo assisti-lo só daqui um tempo.
      Tenshi no Tamago eu já vi e é fantástico. A parte técnica é perfeita, com uma história super aberta para interpretações. Mas eu precisaria rever para poder fazer o artigo e, infelizmente, ando muito sem tempo para rever as obras.

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    Neste filmete teve todas as referências (as arvores nascendo em um planeta é clara a referência a Jornada nas Estrelas a ira de Khan – que alias foi registrado como o primeiro CGI em filme comercial), mas não tem algo que nos anos 80 foi “gobsmacking” que foi o SEGUNDO filme a utilizar CGI massivamente…TRON aquele de 1982 que parece que o mundo esqueceu…

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    E o Anime Mirai é um festival concurso para pescar os proximos animadores e futuros diretores se transformou no Tamago Festival para que animadores apresentassem seus projetos de animação. Alguns são belissímos como este:

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      Nossa, passei longe de acertar. Kkkkkkkk.
      Já tinha ouvido falar dele. Inclusive, um tempo atrás, eu tinha salvo a página da wikipedia que fala sobre ele, para poder colher mais informações. Mas sabe como é, né? O tempo não deixou e acabou que nunca fui lá para ler.

      Eu gosto muito desse tipo de festival porque é onde existe mais espaço para ousar. Vou dar uma pesquisada melhor depois. Obrigado pela dica o/

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    Otona Joshi no Anime Time é um dos josei mais maduros que já vi, os seus quatro especiais são muito interessantes. O primeiro especial considero um dos melhores, só sendo superado pelo quarto especial, esse mexe com os sentimentos do espectador. O terceiro especial além de ser muito bom, é engraçado, a protagonista levou o especial todo às costas, gerando momentos de profunda risada e um pouco de vergonha alheia.

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