Não me arrependo em nada por ter deixado para assistir Túmulo dos Vagalumes em uma fase um pouco mais madura da minha vida, – acabei vendo ele pela primeira vez apenas no ano passado – pois ele é de fato um filme muito difícil de ser visto. Eu poderia ter passado muito mais tempo sem a mínima vontade de vê-lo, entretanto, depois que vi, passei horas e horas refletindo sobre o filme, e sem dúvidas eu não queria ter que assistir outra vez. Não por ser ruim, pois esta obra está muito longe de ser ruim, mas sim por ter uma carga extremamente pesada e vir acompanhada de uma inevitável e profunda reflexão sobre a vida.

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A história de Túmulo dos Vagalumes (Túmulo dos Pirilampos, em Portugal) acompanha os irmãos Seita e Setsuko, que são crianças japonesas tentando sobreviver no final da Segunda Guerra Mundial. Bom, quando o filme começa você já tem um triste vislumbre do fim do filme, e é inevitável ficar apenas na espera do pior e se emocionar com cada cena das duas crianças brincando e lutando para sobreviver aos bombardeios, à fome e às doenças.

Túmulo dos Vagalumes foi a primeira obra do diretor Isao Takahata que eu tive o “prazer” de assistir, e, apenas por esta obra, eu digo que ele é um dos diretores de animações que eu mais admiro, pois conseguir ter êxito na passagem de um filme tão profundo, de um modo tão sucinto, é um mérito inquestionável.  Hayao Miyazaki teve uma pequena participação no roteiro e deu uma mãozinha na direção, mas, por pedido dele mesmo, acabou não entrando nos créditos.

O pai das crianças não chega a fazer participação no filme, apenas é dito que ele foi lutar na Guerra e no fim ele não volta da mesma. A mãe deles acaba morrendo no início do longa e é exatamente neste ponto que começa o real sofrimento dos irmãos, em que eles vão para a casa de uma tia e são frequentemente humilhados. Em um certo ponto da história, eles acabam, por decorrência da Guerra, perdendo seus pais, a infância, a saúde, a inocência e por último, a vida. Estou apenas escrevendo sobre o filme, e, na medida em que as palavras vão surgindo na minha cabeça, as cenas do filme vão passando e inevitavelmente me vem uma enorme tristeza. Bem, acho que eu terei mais algumas horas de reflexão sobre este filme quando acabar de escrever sobre o mesmo.

O início do real sofrimento.

Paulo Freire dizia que manter a esperança é um ato revolucionário; os mais velhos dizem que a esperança é a última que morre; e eu concordo, mas a questão é: depois de perder a família, a infância, a inocência… Ainda é possível ter esperança? Eu respondo que sim. De fato, você passa o filme inteiro com a esperança de que em algum momento eles sejam felizes de verdade, que algo realmente bom aconteça na vida daquelas crianças. Por momentos, você espera que a guerra acabe e que eles consigam sobreviver, mas no instante em que você percebe que essa mesma esperança é criticada por Hermann Hesse, que disse que só se está intranquilo enquanto se tem esperança, você acaba aceitando que este filme na verdade trata sobre perdas, inclusive sobre a perda da esperança e, com ela, da intranquilidade.

Eu costumo dizer que boas histórias têm que tocar você de alguma forma, e esta virou uma das minhas preferidas, pois eu não paro só em animes e mangás, eu acabo consumindo também séries, livros, filmes e até novelas quando me interesso, e não são muitos os que me tocam de verdade, então Túmulo dos Vagalumes é com toda certeza uma das melhores coisas que eu já vi sobre guerras. O filme não versa sobre soldados lutando nas linhas de frente, não se ocupa de generais montando estratégias para derrubar seu inimigo, mas se trata dos que ficaram, para mostrar que as guerras são tristes não só para quem morre lutando contra pessoas, mas também são igualmente tristes para quem fica e é bombardeado, passa fome e está de mãos atadas, pois o máximo que eles podem fazer é roubar e tentar se proteger, porque a eles não compete lutar e dominar o rival, a luta deles é contra a natureza do ser humano. O homem é egoísta por natureza. Em épocas de vida ou morte, a esmagadora maioria da nossa espécie pensa primeiro em si, é senso básico de sobrevivência, porém estes dois irmãos estão lá para proteger um ao outro, principalmente o Seita, que é o irmão mais velho. Se você tem um irmão mais novo e é apegado a ele, acho que vai entender com mais facilidade o que estou tentando dizer aqui.

A trilha sonora do anime consegue passar as emoções que são exigidas. A animação, bom, esta é sensacional, você não sente a época que o filme foi feito (1988). Arrisco dizer que este filme é atemporal, creio que sempre será um ponto de referência para os novos animadores, diretores e afins, pois é uma maneira muito sutil e eficiente de contar uma história batida, mas por perspectivas diferentes, o que é algo novo ainda para os dias atuais.

Por fim, este filme é lindamente triste e não é para qualquer pessoa em qualquer momento, justamente pelo impacto que ele pode causar no lado emocional, contudo, com toda certeza, é uma pérola da animação japonesa e uma das melhores coisas a que eu assisti sobre Segunda Guerra Mundial.

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