O ladrão mais famoso da história dos mangás e animes está de volta. Ao lado dos seus inseparáveis companheiros de trambicagens e aventuras Daisuke Jigen e Ishikawa Goemon (além da estonteante ladra Fujiiko Mine), Lupin III agora está na França e, sinal dos tempos, não está atrás de nenhum tesouro físico, e sim de criptomoedas guardadas num site encravado na Deep Web especializado em vender produtos e entregá-los em qualquer parte do mundo (e quando falo “produtos” não estou falando de livros, discos ou aparelhos eletrônicos e sim de armas e drogas). Porém, se antes precisava se preocupar apenas com seu eterno nêmesis Zenigata, Lupin e seus amigos serão jogados no olho do furacão de um jogo de gato-e-rato envolvendo não apenas redes sociais, mas toda a internet. Numa era onde todos observam e são observados o tempo todo, conseguirá o notório gatuno manter a aura de mistério que sempre o envolveu e virar o jogo contra seus novos inimigos?

Lupin III é mais dentre muitos casos de franquia extremamente popular no Japão, mas relativamente desconhecida em boa parte do mundo ocidental (com a exceção de países como França e especialmente Itália, onde ainda hoje é extremamente popular). Originalmente um mangá escrito e ilustrado por Monkey Punch (pseudônimo usado pelo mangaká Kazuhiko Kato) e publicado na revista Weekly Manga Action a partir de 1967, a obra já foi adaptada para 4 séries de TV exibidas desde 1971, além de filmes, OVAs, dezenas de especiais para TV, radionovelas e até mesmo um longa em live action, além de uma série protagonizada por Fujiko escrita por Mari Okada (Anohana, Gundam Orphans) e dirigida por Sayo Yamamoto (Michiko to Hatchim, Yuri on Ice).

No Brasil, a primeira série para televisão foi exibida dublada no extinto canal Locomotion com o título “Cliffhanger” devido a questões envolvendo direitos autorais a respeito do nome do protagonista, além de dois dos seus filmes em VHS e DVD. A quarta adaptação televisiva havia sido disponibilizada no país pelo serviço de streaming Crunchyroll, que também licenciou esta quinta série que, assim como quase todas encarnações animadas da franquia, ficou a cargo do estúdio TMS Entertainment, desta vez através da sua subsidiária Telecom Animation Film. Vale destacar que vários profissionais de renome trabalharam nos vários animes produzidos ao longo dos anos, com destaque para Hayao Miyazaki e o recém-falecido Isao Takahata. Sem mais delongas, falemos sobre o primeiro episódio desta nova temporada.

O episódio começa com um pouco de fanservice para os fãs de longa data numa cena onde dois homens misteriosos discorrem sobre o currículo de Lupin (ou seria melhor dizer ficha corrida?) enquanto cenas das séries anteriores são exibidas na tela de computador. Os dois homens comentam como ninguém sabe ao certo nada sobre a vida do protagonista, seu nome verdadeiro, quem são ou foram seus pais, sua nacionalidade, data de nascimento ou parentes. Diante da espantosa ausência de informações precisas a respeito de alguém que é considerado um dos criminosos mais procurados do mundo, um dos comentaristas conclui que alguém assim só pode ser chamado de uma coisa: herói.

Na cena seguinte vemos Lupin e Jigen assistindo a uma partida de futebol quando alguém entrega um envelope no apartamento onde eles estão. Dentro do envelope estão diversos papelotes contendo o que parece ser cocaína, numa das raríssimas cenas em que drogas ilícitas são apresentadas numa anime de forma neutra, sem sermões ou histeria. Logo o famoso ladrão explica que elas foram compradas de um site chamado Marco Polo, uma loja eletrônica estabelecida nas profundezas da internet e especializada em entregar qualquer tipo de produto ou serviço ilegal para qualquer parte do mundo sem ser rastreada. Lupin explica a Jigen numa outra cena que o site trabalha apenas com pagamentos via moedas eletrônicas e é este dinheiro que ele pretende roubar.

Nossos heróis vão até um local onde uma imensa torre se ergue numa plataforma marítima. Lupin explica que os servidores do site estão divididos em duas partes, uma na torre em que eles estão e outra numa instalação que fica a 128 metros de profundidade. Após passarem com bastante dificuldade pela única passagem que leva até o local onde está o gerenciador de Marco Polo, Lupin vai até um quarto onde uma garota vestindo apenas uma blusa observa vários monitores. Lupin se aproxima dela disfarçado com barba e peruca loira e lhe dá um abraço fingindo conhecê-la, mas ao errar a pronúncia do seu nome ela saca uma arma da parte de trás da sua calcinha e aciona a segurança.

Lupin diz que a garota não quer matá-lo apesar dos disparos, e quando as balas acabam, nosso herói consegue convencer a garota a escapar com ele. Quando os guardas que estavam sendo detidos pelos disparos de Jigen estão prestes a alcançá-los, um deles revela ser ninguém menos que um infiltrado Goemon que derrota os inimigos com golpes de espada. Após a escapada, os administradores do Marco Polo percebem atônitos que o dinheiro do site some rapidamente rumo a uma conta desconhecida. O maior larápio do mundo finalmente conseguiu o que queria.

No seu esconderijo, Lupin está tentando lidar com a garota quando descobre o local está cercado de viaturas policiais sob o comando de um velho conhecido seu, inspetor Zenigata. Lupin tenta escapar através de um lago, mas é cercado por corrente de metal. Tudo, porém, não passava de mais um truque do nosso querido ladrão, que foge por outro caminho enquanto é perseguido por diversas viaturas policiais naquela que é a melhor sequência do episódio. Quando finalmente a trupe chega a um aeroporto acreditando ter despistado seus perseguidores, Lupin percebe que todos no local o estão filmando e fotografando. Neste momento é revelado o plano dos administradores do Marco Polo: eles criaram um jogo chamado de “Jogo do Lupin” que consiste em fotografar e/ou filmar nosso protagonista e seus amigos e compartilhar em redes sociais. O ladrão mais famoso do planeta, mestre dos disfarces e que sempre conseguiu escapar de todas as armadilhas postas no seu caminho, percebe que o mundo se tornou uma imensa ratoeira pronta para atacar a qualquer momento. Que poderá ele fazer contra inimigos tão poderosos?

Lupin III Part V é, sem dúvidas, uma das melhores estreias da temporada até agora. Mesmo aqueles que nunca assistiram a nenhuma das séries e filmes anteriores (eu mesmo só conheço alguns episódios das obras mais antigas) conseguem se familiarizar facilmente com os personagens e o universo em que eles atuam. A abertura e o encerramento são dignos de nota (especialmente o primeiro, com um bom uso de acordeão para acentuar a atmosfera francesa desta versão), a animação é acima da média, a direção é dinâmica e estilosa e a revelação sobre o “Jogo do Lupin” estabelece um empolgante gancho para os próximos capítulos da narrativa. Quem gosta de uma boa aventura com boas doses de humor, ação e imprevisibilidade vai ter um prato cheio pela frente. Recomendadíssimo.

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