Hakumei to Mikochi é uma série adaptada do mangá (iniciado em 2011) de Takuto Kashiki, produzida pelo estúdio Lerche. É um slice of life de fantasia que exibe um bom timing cômico, apresentando o cotidiano de duas garotas que medem 9 centímetros de altura e vivem em uma casa construída dentro de uma árvore. Entre elas, há uma revigorante amizade, aventuras, as delícias e curiosidade da culinária, o prazer de um trabalho realizado e conhecimentos partilhados. Sem grandes conflitos e com uma divisão de capítulos que lembra os livros infantis (é uma série de antologia, com cada episódio trazendo duas histórias sobre essas jovens minúsculas), Hakumei to Mikochi pertence à “categoria” de animes mais fofos da temporada de inverno de 2018.

Hakumei to Mikochi é, antes de tudo, uma história de amizade, e também como ela flui em relação aos afazeres da casa, à determinação e paixão pelo trabalho e nas inúmeras descobertas quando se trata de passeios pela cidade e proezas e travessuras na floresta. Em um mundo imaginário de humanos com menos de 10 centímetros, menos de 4 polegadas, animais, árvores e montes são presenças gigantescas. O anime trabalha de forma eficiente o contraste entre as pequenas garotas e o ambiente e seres da floresta com seu “tamanho natural”. Algumas aves, como a coruja, pelo seu tamanho, são consideradas mitológicas e perigosas. Mas nesse universo fantástico, o desconhecido é mais uma oportunidade para superar impressões iniciais e temores. O “dramático” e o “grandioso” não geram enfrentamento, e os estranhamentos suscitados logo são “domados” pelo clima de harmonia.

Hakumei em um papo agradável com insetos “gente boa”.

Isso faz de Hakumei to Mikochi um anime de personagens. Não que haja uma grande evolução a respeito da personalidade delas e de sua maneira de agir, mas o trânsito entre aventuras, trabalho e interação com as outras figuras, sejam da floresta ou citadinas, faz com que pequenos traços de Hakumei e Mikochi sejam revelados a cada novo episódio. Se, no primeiro episódio, uma das histórias mostra o encontro das amigas com um pássaro raro, o Kite da Noite (outra ave compreendida como mitológica, pois concede desejos quando avistado ao amanhecer), o último episódio traz Hakumei levando Mikochi para uma saudação aos membros de uma caravana, liderada por Ryokubirou, uma enorme loba, que acolheu Hakumei quando ela passava fome (depois de um assalto em que levaram seus pertences) e buscava encontrar o distrito de Makinata. A diferença entre elas é bem marcante também, assim como o funcionamento da amizade (apesar de que o relacionamento delas lembra vagamente (?) a de um casal). Mikochi é menos afeita à vida na natureza, mais séria, sábia – como uma irmã mais velha ou alguém com um senso de proteção tenta ser – e é popular. Hakumei é impulsiva, determinada, corajosa, conhece bem a floresta e é mais emotiva – ainda que prática – que Mikochi.

Hakumei e Mikochi: uma amizade para se guardar no lado esquerdo do peito.

Esta dinâmica é um fator a se destacar no roteiro de Reiko Yoshida (de Bakuman [2010], Non Non Biyori [2013] e Girls und Panzer [2012]) e na direção de Masaomi Ando (de Kozu no Honkai [2017] e Gakkou Gurashi! [2015]). Outro acerto é na apresentação do estilo rústico, com detalhes bem delineados de árvores, plantas e animais (alguns são antropomorfizados, outros mantêm suas características [aves e peixes permanecem no mundo animal, enquanto os mamíferos e anfíbios comportam-se como humanos]). Não há nada que ameace verdadeiramente a concórdia entre esses seres, e todo desentendimento é resolvido na mais perfeita ordem ou, como em casos especiais, com uma bebida com o poder de desarmar os ânimos e unir as pessoas (como na disputa entre os veteranos e novatos que vivem na Casa de Mel, ocorrida no episódio 8), mas é prazeroso conhecer a vida que se divide entre a pastoral e a metropolitana – de um centro comercial agitado e diversos modos de vida –, que a série equilibra a contento.

A arte de Hakumei to Mikochi, além do já mencionado positivo trabalho no que concerne à forma como minúsculas garotas percebem e vivem em um mundo que não raramente lhes é colossal, evoca algo de medieval, que também está presente em sua trilha sonora. Trilha sonora, aliás, agradável, calma, mas que, em muitos momentos, remete fortemente à natureza.

Um dos pontos negativos – já que não funciona em todas os momentos em que se lança mão do recurso – é o uso de telas múltiplas e do destaque de uma personagem em uma cena, isolando-o em um close-up dentro de um quadro, deixando o resto da ação ao fundo. Apesar de lembrar livros que trazem ilustrações, essa opção de Masaomi Ando (que recorreu ao quadro parado com primazia em Kuzu no Honkai, fazendo de pensamentos poesia), ainda que não afete à narrativa, causa um pouco de incômodo e a sensação de repetição. Compensados, afinal, pela simplicidade das histórias e carisma de suas protagonistas e personagens secundários, como o Mestre de Obra Iwashi, chefe de Hakumei, a cantora Kongu e a cientista Sen. Outros poderiam ser citados, no entanto, os três evidenciam o modus operandi estabelecidos para as relações pessoais no corpo social que forma Makinata. Iwashi reconhece e apoia o dom de Hakumei para a carpintaria e demais serviços manuais, sendo que as discordâncias ocorrem para o melhor entendimento entre eles. Kongu, de possível rival na arte do canto para Mikochi – que não deseja a fama nesse aspecto –, passa a ser amiga da dupla. E Sen apresenta a Hakumei e Mikochi uma de suas invenções: uma lâmpada sonora capaz de fazer esqueletos reviverem. É um reflexo da curiosidade e afã por conhecimento das amigas. Assim, o anime reúne sentimentos reconfortantes e ações que conseguem envolver o espectador.

Hakumei to Mikochi, apesar dos elementos fantásticos, é um slice of life que se mantém focado no que o chamado realismo mundano pode oferecer. Um passeio por um pequeno cotidiano, que traz comida, humor, um pouco de melancolia e uma grande amizade.

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