Bom dia!

Primeira coisa: o anime vai mesmo ficar com esse filtro horroroso sobre a tela o tempo todo, até o último miserável episódio, não vai? Pro inferno com todos os que acharam que isso era uma boa ideia ou que permitiram que essa atrocidade acontecesse.

Segunda coisa: esqueça ficção histórica. Como escrevi nas primeiras impressões, existe uma diferença entre ficção histórica e história alternativa, pelo menos na forma como eu entendo e lido com cada tipo de material, e a partir do segundo episódio Angolmois entrou totalmente no terreno da ficção histórica. Apesar de citar registros históricos (como a invasão à Europa), conter personagens reais (como Sou Sukekuni) e até pistas visuais (como a droga do filtro estilo pergaminho) de que se pretende o que eu chamaria de ficção histórica, a essa altura a história do anime é irreconciliável com a história real. Isso não é um problema, mas é bom que todos saibamos que não estamos assistindo a uma encenação mais ou menos realista dos fatos que aconteceram em novembro de 1274 em Tsushima, Japão.

Terceira coisa: Sim, eu vou cobrir Angolmois essa temporada no Anime21, porque eu gosto de escrever sobre animes de guerra por aqui, especialmente guerras históricas ou inspiradas por elas. Obrigado por estar aqui e leia a partir de agora a minha análise desses dois episódios de Angolmois.

O anime vinha sendo algo realista (apesar do punhado de personagens fictícios) até a batalha após a chegada dos mongóis. As tropas japonesas eram ridiculamente inferiores e, embora tenham lutado de forma feroz, foram eventualmente sobrepujadas e derrotadas. Eram cerca de mil mongóis, chineses e coreanos contra, na melhor das estimativas, 80 samurais e seus seguidores. Como corretamente retratado no anime, Sou Sukekuni era a autoridade local e liderou as tropas japonesas que marcharam para a morte. E no mundo real a coisa acabou aí. Ou melhor, não acabou: prosseguiu com o saque da ilha pelas tropas mongóis. Não havia mais quem os resistisse. Foi um massacre, coisa normal para a época.

No mundo mágico do anime, porém, Angolmois ainda tem Jinzaburou para defender seus conterrâneos junto com meia dúzia de condenados e, sendo otimista, um pouco mais de uma centena de guerreiros da ilha que no entanto não são fieis a ele – não por enquanto, pelo menos. Com esses recursos e uma armadura bacana que ele ganhou de presente, Jinzaburou precisa segurar mil mongóis por uma semana, daí a ajuda chegará vinda de Hakata. Isso é loucura, essa ajuda nunca chegou, e os japoneses fizeram bem concentrando suas tropas em Hakata. Mas de novo, isso aqui é o mundo mágico do anime, então se Jinzaburou aguentar durante uma semana, terá seus merecidos reforços. E sabemos que ele vai aguentar, não é? A graça de assistir é descobrir como.

Por enquanto as coisas parecem sinistras como foi na história real, os soldados ainda vivos estão com a moral severamente abalada e eu não posso culpá-los por isso. Eu também estaria bastante abalado em seus lugares. Mas eu não tenho responsabilidade nenhuma, não é? A maioria da população também não. Por isso três homens foram tão rápidos em trair Jinzaburou na esperança de salvar suas famílias, algo que eles verdadeiramente sentem-se responsáveis por fazer. É uma lástima que os mongóis não tenham motivo nenhum para devolver-lhes valiosos escravos, mas assim é a vida, esse era o limite de seu conhecimento e fizeram o que acharam que deviam fazer. Nesse sentido, suas mortes não foram tão diferentes da de Sou Sukekuni e seus 80 samurais.

Matar seus compatriotas não é exatamente honrado, mas abandonar a própria família também não seria desonra?

O filho do pai que ainda vive pode se deprimir o quanto quiser e outros samurais do clã podem falar o quanto quiserem sobre a honradez do sacrifício de Sukekuni, mas é Jinzaburou quem está certo: o Senhor de Tsushima morreu porque cometeu um erro. Sua morte foi honrada sim, porque sua intenção foi honrada, mas nunca foi sua intenção “se sacrificar pela honra” ou qualquer bobagem do tipo. Nota: Taira no Kagetaka, o Senhor de Ikishima, a ilha que os mongóis invadiram em seguida, cometeu suicídio ritual (seppuku) após suas forças serem derrotadas. O que isso quer dizer? O seppuku era uma forma de manter a honra através da morte. Sou Sukekuni do anime morreu lutando pelo que acreditava, o Sou Sukekuni real apenas morreu e não temos como avaliar suas ações, tão distantes no tempo e espaço que estamos e sem fontes confiáveis, mas se for qualquer coisa como o resto do Japão costumava ser, ele teria se matado apenas por honra sim, e ter havido quem fizesse isso em uma batalha posterior é uma forte evidência. Mas essa era uma ideologia que transmitia uma mensagem para o Japão do século 13, acho que para o Japão e o mundo do século 21 a versão de Angolmois, conforme interpretada por Jinzaburou, é bem melhor.

Sou Sukekuni morre ao cair na muito comum tática mongol de atrair o inimigo e o cercar por todos os lados

Para encerrar esse artigo, a retratação da época está muito bem feita. Eu não sabia, e quase gritei aqui bullshit! quando vi aquele trabuco montado em um barco que arremessou explosivos sobre as fileiras japonesas, mas fui pesquisar e aquela coisa existia de verdade, e foi usada na invasão ao Japão. Os chineses inventaram em algum momento antes do século 11 e os registraram em um manual sobre guerra chamado Wujing Zongyao (literalmente, Coleção das Mais Importantes Técnicas Militares). Registros japoneses retratam o uso de explosivos. Então ok, ponto para você, Angolmois! Ainda assim, ponto a menos pelas espadas japonesas cortarem os mongóis como manteiga. As katanas já existiam na época e eram capazes de perfurar (mas não de infligir dano significativo em corte lateral) as armaduras mongóis, mas seu uso ainda não era muito comum. A espada mais comum era a tachi, muito mais frágil e menos útil. Provavelmente, aliás, as invasões mongóis incentivaram o aprimoramento e a disseminação da katana ou ao menos ajudaram nesse processo.

É isso aí, até semana que vem, quando descobriremos que a Princesa Teruhi obviamente não morreu apesar do cliffhanger safado!

  1. Não estou nem assistindo ao anime, mas só uma curiosidade que pode lhe interessar: há um registro de uso de artilharia naval em uma campanha na Irlanda em 1235, algumas décadas antes da época do anime. Só para você ver como essas táticas eram “usuais”.

    Eis a descrição segundo os Anais de Connacht, uma das fontes narrativas do período:

    “Então uma frota de navios com galeras e perriers (i.e. um tipo de catapulta) vieram até o lago, e eles montaram um perrier sobre uma pequena plataforma, e muitas pedras foram lançadas por ele contra a Rocha. E como eles não conseguiram tomá-la dessa maneira, eles fizeram vários barcos com a madeira das casas de Ardcarne, coletaram todo o combustível do distrito e colocaram fogo. Eles amarraram barris vazios ao redor desses botes para mantê-los boiando e enviaram um dos seus maiores navios, protegido por um teto de madeira, para conduzir os botes até a Rocha e colocá-la em chamas.”
    Mas a guarnição da fortaleza foi acometida pelo medo e se rendeu sob termos estipulados.”

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Mesmo os registros chineses que eu encontrei provavelmente se referem à tecnologias que eles já dominavam há décadas ou talvez séculos. É sempre curioso assistir obras históricas por causa disso, normalmente o que achamos que eles já tinham ou sabiam ainda não havia sido descoberto, inventado ou popularizado, e muita coisa que achamos que com certeza não tinham ou sabiam na verdade já era bastante popular.

  2. KKKKKKKk muito engraçado estes resmungos com relação ao filtro de cor do desenho animado, mais arte é arte é como a matemática nunca agradará 100% as pessoas ou a razão. Os 3 primeiros episódios foram muito bons, eu já vinha muito animado com Golden Kamuy e agora estreia esse presente que é Angolmois e é só diversão! Gostei de todos os detalhes e foquei na relação da princesa Terushi e o General Zinzaburou e ela a beira da praia o intima a protegê-la usando seu charme e beleza de princesa, assim nosso espadachim não teve como resistir ou recusar, claro eu faria o mesmo e ainda a pediria em casamento ali mesmo aproveitando a oportunidade. Na primeira batalha já perde o sogro e um genro e achei muito bacana o que ele fez, não se foi por honra ou pela princesa, que Zinzaburou se meteu no meio dos mongois para recuperar as cabeças do pai e irmão da Terushi, pra mim, foi por ela porque já esta gostando da garota linda demais por sinal! Em outro momento de descanso, o protagonista esta conversando com um samurai do local que diz esta preocupado com suas duas esposas e 6 filhos, é tempos bons esses que a poligamia era comum e a sociedade pregava como normal e o guerreiro pergunta pro Zinzaburou se ele teve família e com calma ele responde que teve só 4 esposas e uma filha, simples assim e que esses casamentos eram arranjados pela sua família e ou por autoridades locais do xogunato. E que sua última esposa e uma filha morreram por causa de uma doença enquanto ele estava em uma guerra e quando voltou soube da notícia e a tratou com naturalidade, que maduro nosso protagonista, morreu, substitui por outra e segue a vida. Vou acompanhar até o final e desejo muito que no final a Terushi e Zinzaburou se casem e formem uma grande família. Anime 5 estrelas!

    • Fábio "Mexicano" Godoy

      Antes fosse filtro de cor =P Assistir animação com umas cores malucas é legal. Mas com uma marca dágua constante em cima o tempo todo? Nem tanto.

      Desde o começo acho que já estava claro que seria um anime bem diferente de Golden Kamuy, desde antes de estrear, na verdade. São dois períodos históricos bem diferentes, afinal. Na época em que se passa Angolmois, Hokkaido, o cenário de Golden Kamuy, nem era Japão ainda! De todo modo, acho que as diferenças ficaram mais claras conforme os episódios se passaram. Uma aventura de caça ao tesouro é diferente de uma defesa desesperada em uma guerra, afinal. Mas comparar é sempre divertido de todo modo, não é? Talvez eu teça mais comparações durante os artigos. Por exemplo: os samurais ainda não eram a casta mais importante no Japão na época das invasões mongóis, havia uma nobreza que estava acima da classe guerreira. Com o tempo a nobreza perdeu prestígio e poder, e os samurais se tornaram os senhores de fato do Japão. Golden Kamuy é uma história que se passa imediatamente após a queda dos samurais, com a Restauração Meiji, e um de seus antagonistas (Hijikata) é exatamente um representante dessa era que não voltaria mais. Acha interessante esse tipo de coisa?

      Quanto ao futuro do Jinzaburou e da Teruhi, bom, primeiro eles precisam TER um futuro, precisam sobreviver, hehe. Depois, é preciso analisar se não há barreiras sociais intransponíveis entre os dois (por que ela é chamada de princesa?). Enfim, talvez vejamos isso!

      Obrigado pela visita e pelo comentário =)

  3. Começando pela história do filtro, a esta altura do campeonato, mais vale aceitar que a porcaria da marca de água, estará presente até ao final do anime (quem teve essa ideia, merecia ficar um mês sem cerveja e sem salário).
    Finda a minha reclamação e aceitação na questão do filtro, o episódio dois de Angolmois, foi melhor do que eu esperava.
    Eu já sabia que o Sou, o senhor da ilha, ia querer defender o seu feudo, até aqui tudo bem, o problema surge, quando se nota de longe que o estilo de luta e estratégia do velho Sou é obsoleta e sem sentido para a época em questão (ele pensou, que se calhar os mongóis iriam lutar de forma honrada, como os samurais do fim do período Heian e do começo do período Kamakura lutavam, mas os mongóis eram tudo, menos honrados na hora da batalha). Eu tive pena do Jinzaburou, na hora em que ele teve que ouvir as baboseira do Sou Sukekuni, o velho estava cego pela sua glória do passado, que não foi capaz de ver e admitir que o Jinzaburou tinha razão nos seus avisos (já não falo, daquele filho adoptado do Sou, que parece que tem o rei na barriga).
    Antes de avançar para a parte da batalha (que foi a minha parte favorita do episódio), não me posso esquecer de referir aquele nobre disfarçado de monge, ele parece alguém bem importante, mas eu só quero ver como ele vai organizar um exército decente a tempo de auxiliar o Jinzaburou.
    Agora a parte da batalha, que esteve muito bem feita (em termos históricos), mesmo a animação não sendo das melhores, deu para ver bem, como os samurais lutavam. O começo da batalha, foi algo bem ao estilo samurai, com o senhor da terra a fazer um discurso glorioso sobre os seus feitos do passado, para aumentar a moral das tropas, até teve direito a um toque de corneta (neste caso não era uma corneta, era um búzio), tal como se fazia nas guerras Genpei. A diferença entre os dois exércitos foi gritante, não só por o lado japonês estar notoriamente em inferioridade numérica, como nas técnicas empregadas por cada um dos lados. No lado japonês, o uso de escudos de madeira era essencial para a protecção da infantaria e isso esteve presente neste episódio, o que para mim foi excelente. Do lado mongol, eu nem sei por onde começar, mas posso dizer que o episódio representou muito bem as forças auxiliares dos mongóis, o uso do gongo, não era apenas para sincronizar a cadência de disparo dos arqueiros, servia também como forma de comunicação (já que tal como o Jinzaburou disse, aquelas tropas vinham de várias regiões diferentes).
    Eu estava a achar, que o facto do Sou e as duas tropas terem conseguido empurrar uma força superior à sua até à costa meio manjada, mas quando o episódio mostrou a destruição e morte que os mongóis tinham feito, percebi logo que o Sou e o seu exército estavam derrotados (aquela pilha de cadáveres e o fogo, eram ferramentas essenciais para desmoralizar os inimigos, e os mongóis eram peritos nisso). Isso, e o uso do trabuco chinês montado num barco chinês (ou junco), que dispara projecteis cheios de pólvora, o Sou e as suas tropas não estavam à altura da pólvora. Tive pena da morte do filho varão do Sou, ele estava a ajudar o pai e um soldado auxiliar mongol foi logo espetar-lhe a lança no pescoço (as armaduras japonesas daquela época, protegiam muito mal a zona do pescoço e a zona das axilas, só séculos mais tarde, com a introdução da cota de malha e o avanço da tecnologia de fazer armaduras, é que essas falhas foram corrigidas). O velho Sou caiu na armadilha dos mongóis, mas ainda assim lutou bem, acho que nessa altura, ele deve ter percebido que a honra em batalha pouco vale (já que os mongóis eram bem selvagens e carniceiros no campo de batalha).
    Por fim, o episódio 3, para mim foi apenas ok, só teve dois momentos chave que me interessaram, sendo a parte do Jinzaburou, quando este traz de volta do acampamento inimigo, as cabeças do Sou Sukekuni e a cabeça do filho do mesmo, nessa parte, deu para dar um vislumbre da importância que as cabeças dos lordes caídos tinham. Mesmo eu não gostando da princesa Teruhui, tive pena dela, afinal ela recobrou a dor da morte do pai e do irmão quando o Jinzaburou trouxe as cabeças dos mesmos. A outra cena, foi quando o Jinzaburou pediu voluntários para servirem de guias, aquele Ginshichi despertou logo uma death flag (que se veio a confirmar no episódio 4). As tácticas de chantagem dos mongóis foram amplamente seguidas nos séculos seguintes, sendo que os japoneses na Segunda Guerra Mundial faziam o mesmo, para conseguirem a ajuda dos locais (dos territórios que ocupavam).
    Como sempre, mais um excelente artigo de Angolmois Fábio.

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