Comic Girls é a adaptação do mangá 4-koma de Kaori Hanzawa, publicada pela editora Houbunsha Comic Girls, desde 2014.  E logo em sua primeira cena, o anime apresenta o maior terror para toda e todo jovem aspirante no mundo da arte: receber críticas negativas sobre a sua obra. Kaoruko Moeta, conhecida como Kaos, abala-se com comentários do tipo “A história é ruim” e “Nunca vi garotas do ensino médio tão irreais” que recebe de leitores em uma enquete, não consegue se conter e irrompe em lágrimas ao celular para espanto de sua editora, a portadora das más notícias. Diante da situação, e por acreditar no talento de Kaoruko, a editora propõe a ela participar da residência para garotas mangakás promovida pela revista Bunhousha. A introdução da série nos coloca perante à dificuldade que o ser humano tem para lidar com avaliações que não suprem sua expectativa a respeito de algo que cria. O sofrimento (com alta dose de humor) de Kaos resulta plausível, gerando a ambiência e movimentando um primeiro episódio promissor.

Uma vez no dormitório, Kaos se encontra com o restante do elenco principal de Comic Girls: três mangakás que, assim como Kaoruko, frequentam o ensino médio e tem a oportunidade de desenvolver suas habilidades no desenho. A ansiedade social de Kaos e o medo do fracasso a assombram. A sua insegurança junta-se ao pavor da mudança e o temor de não ser aceita pelas outras mangakás.

Kaos, o peso das críticas e fofura.

Falando desse modo, parece que o drama predomina, mas a série é um slice of life que utiliza com eficiência a comédia e a diferença entre as personagens. Kaos leva consigo para essa experiência longe de casa o desejo de desenhar algo além de personagens fofos (sua obra tem meninas baixinhas, com jeito adorável, semelhantes a ela mesmo, e o que ela busca é  acertar a estrutura física de garotas exuberantes) e tornar suas histórias reais. A sua especialidade é o mangá de 4 quadros ou 4-koma. Koyume Koizuka também é novata como Kaos, desenha mangás shoujos. Recebe elogios pelo design das personagens femininas, porém não obtém o mesmo sucesso quando se trata de criar os masculinos – os rostos não são nada atraentes. Segundo sua editora, é porque nunca se apaixonou. Já as senpais da casa têm relativo reconhecimento na indústria dos mangás. Ruki Irokawa tem como especialidade os romances adultos, eróticos, pois, desde cedo, demonstrou aptidão para  desenhar personagens sensuais (moças de silhueta com “seios volumosos”) e suas as histórias apresentavam maturidade – o que lhe valeu o pseudônimo de Peituda Himeko. Ruki foi praticamente coaptada para esse estilo, já que a sua vontade era a de criar histórias infantis. E a tomboy Tsubasa Katsuki desenha mangás shounens, com muita ação, fantasia e romance. Ela é a mais confiante do grupo, mas também é generosa e sempre pronta a incentivar.

A espontânea e divertida Koyume.

A interação entre as protagonistas é crível e bem-humorada, abrindo margem para que se acredite que o desenvolvimento das personagens possa ser um dos pontos fortes da série. A direção de Yoshinobu Tokumoto (também à frente de Devil’ Line [2018]) e o roteiro de Natsuko Takahashi (de Ore Monogatari!! [2015] e Blue Drop: Tenshi-tachi no Gikyoku [2007]) permitem ao primeiro episódio fluir, o que faz com que traços da personalidade das meninas nos sejam apresentados e a comunicação entre elas produza muito momentos divertidos.

Até a forma como cada uma delas é afetada por esse encontro ajuda na dinâmica. Tanto kouhais quanto senpais ficam encantadas. Com Ruki declarando como são fofas e inocentes Kaos e Koyume e  Katsuki respondendo “são do tipo que você gosta, Ruki”, e Koyume fascinada pelo jeito mais masculino de Katsuki (o que pode ser indicativo que desenhista de shounen pode ser um modelo para a jovem autora de shoujos). Há possibilidades a serem exploradas no que diz respeito aos tipos de relação que serão geradas a partir desse primeiro episódio – afetivas e criativas. E é alentador ver meninas admirando e buscando o conhecimento de jovens artistas femininas.

As senpais Ruki Irokawa e Katsuki Tsubasa.

Comic Girls já indica que aprendizado, paixão e determinação farão parte do pacote – como em um slice of life clássico de meninas apoiando e criando laços de amizade – na vida dessas mangakás. E o primeiro episódio ainda trouxe um processo de colaboração de todas em uma obra de Katsuki, cujo prazo estava para se encerrar, o que ajuda Kaos a sentir-se menos angustiada.

Há, sim, clichês, mas a harmonia dessa sociedade de jovens desenhistas, o humor e a bela animação (com destaque para o dormitório e os detalhes das páginas de mangá) se sobressaem evidenciando um potencial de equilibrar desenvolvimento de personagens e comédia capaz de alegrar até um dia cinza.

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