O segundo episódio de Comic Girls amplia os ambientes de interação das mangakás (para além do dormitório). Na primeira metade, elas vão juntas a uma loja de materiais de arte, e, na parte dois, ocorre o retorno à escola para as veteranas Ruki e Tsubasa e início das aulas para as novatas Karuoko/Kaos e Koyume. Essas situações rendem três elementos já presentes no episódio 1, e que darão a tônica da série: humor – mais vinculado ao tipo de animes que cada uma das garotas produz –, a luta de Karuoko para superar seus entraves emocionais e o apoio incondicional que elas fornecem umas as outras.

Mais uma vez, a ansiedade social e a insegurança de Kaos são algo que marcam o anime e se mostram convincentes, ainda que atravessados – no bom sentido – pela comédia (às vezes, nada melhor que o riso para revelar a seriedade de um problema). O medo de andar em um grande centro urbano (a multidão é algo apavorante), que é Tóquio, fica patente no trem que pegam para ir à loja de materiais de arte, e a ansiedade de Kaos é quadruplicada na escola, com o terror de se encontrar em um local repleto de desconhecidos e com os quais terá contato. Esses desconfortos emocionais são comuns em um tempo de alta exigência por resultados, competitividade e individualismo. No Japão, com o fenômeno dos hikikomori, jovens em reclusão voluntária, tornando-se uma epidemia, o fato de Kaos batalhar por seus sonhos e de conseguir se relacionar em termos de confiar e expressar carinho pelas habitantes do dormitório demonstra que seus pavores são excessivos, mas não chegam ao ponto de serem mórbidos e anulá-la completamente. Nesse aspecto, Comic Girls tem campo para avançar.

É hora de comprar material para desenhar mangá!

Apesar dos temores de Kaos estarem expostos, Comic Girls é uma série cômica que tem em seu conjunto de protagonistas sua força. Cada parte do episódio revela algo mais sobre suas personalidades – que colabora para consolidar o que foi apresentado no episódio inaugural. Enfim, Kaos e Kayume descobrem que as senpais Ruki e Tsubasa frequentam a mesma série que elas no ensino médio. Todas estão no primeiro ano (Koyume é a única que frequentará uma turma diferente). A surpresa não diminui o encanto das meninas pelas jovens profissionais. Na verdade, ajuda a aproximá-las mais daquelas que já são modelos a se seguir, possibilitando, desse modo, menos formalidade na relação entre elas.

Koyume, menina fofa.

Na loja de materiais de arte, a paixão de Tsubasa por mangás é evidenciada, assim como sua determinação, gentileza e desprendimento, características típicas de um herói shonen. Não à toa, Tsubasa faz sucesso entre as colegas de escola. Algo que também é próprio aos slices of life protagonizados por garotas, na admiração por uma senpai ou jovem de destaque. A mangaká shonen não fala muito (quase sendo indiferente à atenção que recebe), mas quando se pronuncia sempre tem algo de relevante e encorajador para dizer.

Já Ruki, ainda que seja uma excelente desenhista no que concerne aos atributos físicos e cenas quentes, não se sente confortável em expor seu trabalho. Na escola, tenta manter em segredo seu sucesso como mangaká principiante, com certo reconhecimento no mercado. Porém, circulam boatos que  ela trabalha com algo indecente (seu físico desenvolvido e aparente maturidade fazem com que algumas desconfiem que o rumor possa ser verdadeiro). Para uma adolescente, esse tipo de comentário pode significar assédio, bullying, morte social ou mesmo levar ao suicídio. Mas há leveza no trato do constrangimento exibido por Ruki. Se considerarmos que ela desejava desenhar estórias “fofas” e tem uma queda por meninas igualmente fofas, o seu talento para o ecchi rende momentos bem engraçados.

O olhar e a curiosidade do outro são motivos de angústia para Kaos.

Koyume mostra-se a mais sociável entre elas, pois tem facilidade em fazer amizade e já encanta suas colegas de classe. A dificuldade de Koyume em ser convincente com os personagens masculinos e romances  pode ter nas conversas com as meninas que já namoram uma forma de corrigir os defeitos existentes em suas estórias shoujos. É interessante o contraste e a dinâmica entre Koyume e Kaos. Isso revela que uma amizade ganha vigor a partir da compreensão das diferenças, o que muitas vezes pode superar a ligação que ocorre pelas semelhanças.

Se para Koyume a possibilidade de entrevistar as colegas sobre seus amores pode levá-la a contornar um obstáculo em relação a sua arte, para Kaos o buraco é mais fundo, pois está vinculado à ansiedade e à timidez, que se fizeram presentes na apresentação à sua classe e na curiosidade da turma sobre quem ela é. Um sufoco que acaba quando Kaos desmaia e é conduzida à enfermaria. Um futuro escolar aterrorizante se apresenta diante da menina acusada de não conseguir escrever histórias reais, com garotas reais do ensino médio. A dificuldade na arte é reflexo de seu distúrbio psíquico. O medo de entrar no palco, viver como uma típica garota do ensino médio é um tormento para Kaos. A normalidade pode ser algo assustadora.

A partir disso, a sugestão de Tsubasa para que Kaos use a experiência escolar como uma forma de pesquisa para os seus mangás 4-koma é um ponto a se destacar no episódio. A escola entendida em uma perspectiva antropológica. E mais: escrever sobre o que se conhece e vive ou a partir de um conhecimento coletivo – transmitido seja por teoria ou senso comum – para criar personagens convincentes coloca-se sempre como um desafio, uma provocação para os autores. No caso de Kaos, é uma maneira de superar/suportar o drama de sua inabilidade em contactar pessoas. Afinal, a vida estudantil, um dia, chega ao fim.

Ruki adora meninas fofas e inocentes.

Comic Girls mostra-se uma série capaz de equilibrar eficientemente a introspecção de suas personagens (e como o tipo de mangá que desenham tem a ver ou interfere em suas personalidades) com situações cômicas – alguns constrangimentos – e o lado fofo delas, como na cena em que Ruki se derrete por Kaos, quando a novata a agradece por propor que ocupem mesas próximas durante as aulas (o olhar de quem está cativada, o som do coração batendo, o tremor do corpo de Ruki. Pode-se dizer que Kaos é antítese do que Ruki desenha, comunicando-se diretamente com sua meiguice latente).

Ver Kaos, até o momento, lembra-nos a capacidade que temos de fazer comédia com a dificuldade do viver.

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