O terceiro episódio de Comic Girls dá continuidade à cruzada de Kaos pela busca de traduzir com realismo a vida de garotas do ensino médio. Mais uma vez, ela falha. A aflição decorrente da sombra do fracasso é transmitida com leveza, jogando com a personalidade autodepreciativa da adolescente (no cotidiano de uma autora ou desenhista, essas incorreções têm um peso que pode trazer o fantasma do bloqueio criativo à tona). Esse tipo de humor é parte intrínseca dos slices of life de comédia, e funciona muito bem na luta de Kaos. A jovem é esforçada, seus erros divertidos.

A sua percepção da vida escolar e o que as meninas da sua idade fazem e querem são seu calcanhar de Aquiles.  Desta vez, Kaos cria uma mangá de gastronomia, subgênero da Fatia de Vida que está em voga, com meninas do ensino médio e crepes. Sua editora recusa a história alegando que os desenhos não passam a beleza dos pratos e nem o prazer em saboreá-los. Kaos recorre a frases simplistas e onomatopeias em vez de descrições que transmitam o gosto e o aroma da variedade de crepes existentes.

“Meninas do ensino médio não são assim”.

E, para tornar a situação mais complicada, ela relata as experiências que teve com as amigas do dormitório. Da conversa entre elas, vem a sentença: Kaos comete um engano comum entre jovens autores, a de se enxergar fora do universo a ser retratado, posicionando-se como observadora. A menina não se compreende como uma garota do ensino médio. Esse mundo, em tese e na prática, é assustador para ela. Kaos não se identifica com essa realidade, seu modo de pensar, falar e se vestir está distante do dia a dia no qual ela está inserida. Pode-se dizer que Kaos se porta como uma passageira em sua própria aventura.

A dura realidade: Kaos precisa de uma banho de loja.

A sua ideia de um mangá gastronômico redunda em mais um fracasso. E, justamente por isso, recebe críticas de Koyume e Ruki sobre atitudes, convivência e moda. As duas propõem mudar o visual de Kaos, seu penteado e roupas, para deixá-la sintonizada com o espírito das meninas de sua idade. A contribuição de Koyume e Ruki acaba tendo duplo propósito: o de auxiliar Kaos a compreender o que é pertencer ao ensino médio (parecer menos antiquada e mais despojada), para se enturmar, ser mais próxima a uma realidade que precisa descrever e satisfazer (decorrente da empolgação delas com o caso) seus desejos – leia-se fetiche – por “fofurice”. Ruki lamenta o fato de não conseguir vestir uma fantasia de coelho em Kaos (devaneio que ocorre também no episódio inaugural do anime). Sobre a sexualidade das mangakás, Kaos dá indício de sua orientação. No segundo episódio, ela diz (para espanto de Ruki), com uma expressão despudorada, que também gostaria de levar bronca de uma professora bonita. Neste episódio, Kaos agradece aos deuses quando Koyume a abraça por trás, para ajeitar o penteado que está fazendo, e os seios dela tocam sua nuca e ombro.

Em relação às atrações afetivas e físicas das garotas, apenas a evolução da série responderá (possíveis) questionamentos sobre envolvimentos românticos, sexualidade como veículo de humor e yuri bait.

Ainda sobre o apoio e críticas das mangakás a Kaos, Tsubasa permanece como a mais sensata, pelo menos a que aconselha de um modo a apaziguar os nervos da novata. Ela lembra a Kaos que ela ainda tem muito a avançar em seu ofício, que está apenas no começo. Só que esse alívio veio para suceder as observações pesadas que dirigiu ao 4-koma culinário, enfatizando que os traços de Kaos precisam ser mais realistas e que mal dá para diferenciar as personagens. Além disso, o visual dos pratos requer que sejam atraentes para que o leitor sinta o quanto são deliciosos. Isso tudo ainda falta a arte de Kaos. Função de quem tem o que ensinar: morder e assoprar. Apedrejar e afagar.

A partir da sugestão de Koyume para que realizem uma competição de esboços, Comic Girls se aproxima do fanservice de conotação sexual, mas o faz de um modo em que corpos e situações favoreçam à narrativa. Koyume aceita ser modelo de Ruki (no início, elas são flagradas por Kaos em circunstâncias suspeitas, porém a cena era um ensaio de expressões e reações de momentos de sedução), posando de roupas íntimas para que a mangaká de histórias sensuais possa examinar e desenhar os contornos de seu corpo. A passagem tem uma discussão engraçada entre Koyume e Ruki sobre corpos ideais para um mangá a partir da preferência dos leitores. As meninas possuem uma anatomia que se encaixa nos elementos centrais que são apreciados nas personagens do estilo de mangá desenham. Enquanto Koyume tem atributos que agradam quem lê mangás ecchis, um corpo curvilíneo e seios exuberantes, Ruki, com sua altura, cintura fina e cabelos longos, é a típica heroína de mangá shoujo. Aqui, predileção de consumidores se confunde com a insatisfação (ou com que elas gostariam de mudar) com o próprio corpo. Kaos, com os seus insultos autoinfligidos, coloca-se distante de debates a respeito do tamanho dos seios, já que seu corpo ainda não é desenvolvido, apesar de ter a mesma idade das companheiras.

Um ensaio caliente.

Mais tarde, as meninas encontram Tsubasa, que está trocando de roupas e todas ficam maravilhadas com a forma física dela. Mas o ideal de corpo perfeito da mangaká shounen é um corpo musculoso. A antítese dos modelos preferenciais de um leitor masculino.

Na última parte do episódio, as energias de Kaos são despendidas para os esboços de seu mangá gastronômico. Na busca de melhorar o visual dos pratos, ela se esquece de alimentar-se. Como suas emoções são sempre intensas, não consegue comer, chegando a afirmar que, como não entende de gastronomia, não merecia comer. Diante da convicção dolorosa de Kaos (aqui, o corpo que sofre os problemas da mente), entra em cena a zeladora Ririka Hanazono, que de maneira afetuosa tempera a comida como é feita pela mãe de Kaos, entendendo que estar longe de casa pode ser um fator que exacerba o sentimento de deslocamento e o desânimo.

Kaos (e o seu novo visual) esforçando-se ao máximo.

Apesar de ter mais um esboço reprovado, Kaos seguirá inabalável, lutando para se tornar uma mangaká publicada. Com o hilário pessimismo de Kaos, o impulso fornecido pela amizade, o humor associado à criação de mangás e o subtexto yuri, Comic Girls mantém uma qualidade que pode alçá-lo a condição de uma das gratas surpresas da temporada de primavera de 2018.

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